Do teatro ao rock, onde tudo começou

Do teatro ao rock, onde tudo começou

Aos 35 anos, o Sesc Garagem resiste como um dos palcos mais efervescentes da cidade

» DIEGO PONCE DE LEON
postado em 20/12/2014 00:00
 (foto: SescDF/Divulgação)
(foto: SescDF/Divulgação)


Em um momento no qual tanto se fala nos espaços culturais fechados da cidade, talvez seja igualmente importante lembrar aqueles que permanecem de portas abertas. Inaugurado há 35 anos, o Sesc Garagem resiste ao tempo e segue abraçando as mais diversas manifestações artísticas da capital federal. Exatamente como acontecia em 1979, quando estreou.



;Quem viveu aquela época tem consciência que o nome não é por acaso. De fato, o teatro era uma garagem;, conta Nivaldo da Silva. E ele sabe do que está falando. Nivaldo trabalha na unidade da 913 Sul desde a primeira encenação. ;Na verdade, até um pouco antes. Quando o Teatro Garagem surgiu, eu já estava no Sesc havia três anos. Ao todo, são 38 anos em atividade.;



Os primeiros serviços que prestou por ali foram como pedreiro, mas não durou muito. ;A 913 tinha uma piscina. E lá fui eu cuidar dela;, recorda. Quando finalmente o espaço ganhou ares de teatro, Nivaldo assumiu a função que exerceria pelo resto da vida: iluminador. ;Acontecia uma oficina de iluminação com um francês. Eu acabei aprendendo algumas coisas. Certo dia, precisaram de um e eu aceitei o desafio;, conta o funcionário, de 61 anos. A primeira mesa de luz do Sesc foi obra de Nivaldo: ;Eram 64 canais, ainda com interruptores. Daqueles de parede mesmo. Hoje, temos uma mesa digital de 512 canais. Outros tempos.;



E o artífice, então com 26 anos, estava lá para assistir à primeira peça do recém-inaugurado Teatro Garagem. ;Chamava-se Capital da esperança;, ele diz. O espetáculo, dirigido por Humberto Pedrancini, foi fundamental para o batismo do espaço. ;Havia na cidade uma efervescência absurda. Queríamos fazer tudo e não tinha local. Acabamos tomando aquela garagem inútil e passamos a ensaiar lá;, revela o veterano ator e diretor, que faz questão de ressaltar que ;tudo foi ideia da carioca Maria de Sousa Duarte;, que coordenava o Sesc-DF no período.



Pedrancini acabou se tornando um dos mais atuantes artistas cênicos do Teatro Garagem. Foram diversos trabalhos no decorrer dessas três décadas e meia. ;Aquilo ali é de importância histórica para Brasília. Ajudou a revelar o teatro amador e foi um grande agregador de pessoas. Formou-se um movimento cultural a partir daquele teatro.;

Ao longo dos anos, o tradicional palco ; famoso pelas arquibancadas móveis ; recebeu grandes nomes da dramaturgia nacional, como Milton Gonçalves e Nathalia Timberg. Projetos locais, como o Jogo de Cena, também tiveram abrigo e apoio.



1979
Inauguração do Sesc Garagem



Rock

Se a primeira década de funcionamento foi voltada para as artes cênicas, a seguinte seria movida a rock. ;Com a chegada da Feira de Música, a coisa se transformou. Todas as grandes bandas de Brasília passaram por ali;, afirma Rogero Torquato, atual coordenador de Cultura do Sesc-DF. ;Completei 20 anos de casa recentemente. Comecei como estagiário.;



Entre as boas lembranças, Torquato sempre se diverte ao se lembrar do ;homem palco;: ;Era um cara que estava em todas as apresentações. Ele ficava com os joelhos e as mãos no chão para que alguém pudesse fazer o mosh (o ato de se jogar sobre a plateia, também conhecido como stage diving);. E a história ganha um aditivo peculiar. ;Em uma apresentação do Ratos do Porão, esse mesmo rapaz subiu ao palco e simulou um desmaio, com direito a espuma na boca e tudo. O João Gordo ficou desesperado, achou que o cara estava tendo um ataque ou coisa do gênero. Mas não passou de uma brincadeira;, termina, aos risos.



Quem estava sempre na área, provocando animadas rodas punk, era o guitarrista Digão. ;Tocamos muito ali, principalmente depois da retomada do Raimundos, em 1992. Era demais. Uma nostalgia boa pra c...;. Além das apresentações, Digão curtia a atmosfera: ;O Sesc Garagem foi um forno de bandas. Pessoal trocava fitas demo, debatia trabalho autoral, formava grupos ali mesmo. Foi fundamental para recuperar essa veia roqueira de Brasília;.



A ordem era a diversão. ;Uma das apresentações que mais curti fazer não foi nada tradicional. O Fred (ex-integrante do Raimundos) tinha passado por um procedimento na cabeça e estava enfaixado. Eu tive que assumir a bateria, velho! Se foi bom eu não sei, mas nunca mais me esqueci daquela noite;, conta o atual vocalista d;Os Raimundos.



Muitos também não se esqueceram do momento em que Zezé Mota correu nua pelas arquibancadas, como Xica da Silva, ou da performance de Renato Russo ainda antes da Legião Urbana, de Cássia Eller achando que poderia ser atriz, de Paulinho da Viola homenageando Portela, de Ellen Oléria soltando a voz, tantos anos antes de qualquer reconhecimento público, ou ainda da emocionante homenagem à atriz Bidô Galvão, durante o Prêmio Sesc do Teatro Candango, no mês passado. Enquanto o Teatro Garagem permanecer aberto, Brasília terá histórias para contar. E muitas ainda nem foram escritas.

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