PROTAGONISMO NEGRO

BBB22: Conheça a história de Anástacia, retratada na blusa de Linn da Quebrada

O povo negro sacralizou Anastácia, conhecida como "A Santa" em algumas religiões Afro-Brasileiras. Ela é, inclusive, vista como um nome que pode realizar milagres

Talita de Souza
postado em 20/01/2022 18:26
Linn gerou repercussão ao usar imagem da heróina negra Anastácia sem apetrechos opressores:
Linn gerou repercussão ao usar imagem da heróina negra Anastácia sem apetrechos opressores: "Fez história" - (crédito: Gabriel Renne)

A atriz e cantora Lina Peireira dos Santos, conhecida como Linn da Quebrada, gerou repercussão nas redes sociais após entrar na casa do Big Brother Brasil 22, na tarde desta quinta-feira (20/1), com uma blusa que trazia uma versão adaptada do famoso retrato da heroína negra Anastácia na camiseta em que usava. Diferente do retrato conhecido feito por Étienne Victor Arago, na camiseta de Linn a escrava estava sem a mordaça de ferro e a corrente no pescoço e sorria.

O detalhe logo foi percebido pelos expectadores do programa. “A Linn é tão foda que já entrou na casa usando uma camisa com a imagem de Anastácia sem a máscara de ferro a qual foi condenada usar em toda vida”, opinou o internauta Iago Gomes. “Anastácia livre e sorrindo! Passaram a vida toda apresentando ela amordaçada, mas a Linn entrou na casa mais vigiada do país com ela no corpo e sorrindo! Força ancestral!”, opinou a cantora Maíra Azevedo.

A imagem de Anastácia sem os apetrechos opressores é uma obra de arte feita pelo artista visual Yhuri Cruz e se chama Anastácia Livre. Para o autor, fazer a releitura da figura “é uma viagem no tempo, é voltar ao passado e libertar essa mulher negra escravizada que veio do Congo no século XVII e foi condenada à mordaça pelo resto da vida por lutar contra um homem branco que a violentou sexualmente”. Quando lançou o desenho, em 2019, Yuhri afirmou que era “um monumento à voz de Anastácia, uma voz negra, feminina, de luta pela existência”.

À esquerda, o retrato conhecido em 19868, durante exposição feita na Igreja do Rosário, local em que o corpo de Anastácia foi sepultado. À direita, a releitura da mulher livre
À esquerda, o retrato conhecido em 19868, durante exposição feita na Igreja do Rosário, local em que o corpo de Anastácia foi sepultado. À direita, a releitura da mulher livre (foto: Étienne - Yhuri Cruz)

Anastácia: heróina, resistência e milagrosa

De acordo com a cientista social Thaís Nascimento, pesquisadora de racismo e diversidade no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CERRT), Anastácia é uma das “mais importantes figuras femininas da história negra” e é “cultuada no Brasil como santa e heroína”. A história da escrava foi transmitida por gerações em versões orais e escritas e falam sobre uma mulher negra muito bonita que foi perseguida por seu senhor e por resistir, acabou sendo punida.

“Os registros falam sobre uma bela mulher que não cedeu aos apelos sexuais de seu senhor e, por isso, foi estuprada e amordaçada”, diz Thaís. Mas a história da mulher começou quando a mãe dela, Delminda, chegou ao Brasil no navio negreiro Madalena, em abril de 1740, junto a outros 112 cidadãos Bantus, originários do Congo, que foram traficados como escravos.

“Ela foi arrematada por mil réis assim que chegou ao cais do porto. Foi violentada e acabou ficando grávida de um homem branco, motivo pelo qual Anastácia, sua filha, nasceu com os olhos azuis”, detalha Thaís. A beleza da mulher se contrastava com o comportamento reativo de não aceitar a opressão do sistema escravista. “Era muito cobiçada por sua beleza, mas ao mesmo tempo em que cultivava o desejo, seu comportamento despertava a ira de seus senhores”, acrescenta a cientista.

Pelo comportamento, considerado uma ofensa pelos senhores de escravo, ela foi obrigada a usar uma máscara de ferro por toda a vida, que só era retirada na hora de se alimentar. “Suportou por ano a violência dos espancamentos, que só terminariam em sua morte. Sua resistência diante da dor e dos maus tratos sofridos acabou por incentivar outros negros escravizados”, afirma Thaís.

A pesquisadora diz que alguns estudiosos duvidam da existência da heroína, principalmente porque o local onde os restos mortais dela foram sepultados, a Igreja do Rosário, sumiram após um incêndio. No entanto, o povo negro sacralizou Anastácia, conhecida como “A Santa” em algumas religiões Afro-Brasileiras. Ela é, inclusive, vista como um nome que pode realizar milagres.

“Anastácia colocava as mãos no doente e os males desapareciam. Por ironia do destino, o dom que possuía acabou levando Anastácia a salvar a vida do filho do fazendeiro que a violentou”, contou Thaís. Por fim, “ao perfil de guerreira que luta contra a escravidão e a torna modelo de liderança e resistência, soma-se o de milagrosa”.

Em 1968, uma exposição feita pela Igreja do Rosário em homenagem aos 90 anos da Abolição, expôs o que viria ser o famoso retrato de Anastácia, feito pelo artista Étienne Victor Arago. Hoje, há uma data religiosa para celebrar a vida da heroína e fazer pedidos à santa. O “Consagrado à Escrava Anastácia” é celebrado em 12 de maio. “Data em que Anastácia nasceu em Minas Gerais”, pontua a cientista.

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