Teatro

Heloísa Pérrisé desembarca em Brasília com o espetáculo "A iluminada"

Heloísa Périssé fala ao Correio sobre a nova peça, a carreira, e a recente cura de um câncer

Pedro Ibarra
postado em 15/04/2022 06:00
 (crédito: Mancuzo Entretenimento/Divulgação)
(crédito: Mancuzo Entretenimento/Divulgação)

Assim como a maioria dos artistas, Heloísa Périssé está aproveitando a desaceleração da pandemia para voltar aos palcos e matar a saudade do público. Os espectadores de Brasília terão a chance de se reconectar com a atriz hoje e amanhã no Teatro Royal Tulip. A artista apresenta a peça A iluminada, que já passou por São Paulo, Salvador e até os teatros de Portugal.

O espetáculo brinca com o formato de palestrantes do TEDx (palestras sobre experiências vividas). A peça apresenta Doroteia das Dores, uma mulher com uma história de superação única que tenta passar por meio da palestra como chegar a iluminação. "Uma frase que eu li de Joseph Campbell (escritor e conferencista) foi imprescindível nesse contexto todo, ele diz 'a caverna que você tem medo de entrar, esconde o tesouro que você procura", destaca Heloísa Périssé.

A atriz apresenta o texto cômico em uma época da vida mais espiritual. Ela acaba de se curar de um câncer raro e afirma ter experimentado o fundo do poço que ela sugere na peça, porém quer apresentar de forma cômica como sair de lá. Heloísa vive um novo momento e deseja compartilhar com o máximo de pessoas possível. "Eu quero ser sempre um caleidoscópio, que as pedrinhas caiam e permanecem lindas, porque estão em harmonia, elas não competem, elas cooperam. Meu foco na vida é esse, um mundo melhor", conta.

Entrevista / Heloísa Périssé 

Como surgiu a ideia do espetáculo?

O espetáculo junta a minha pandemia particular, a pandemia no coletivo, o momento que eu fui lá no fundo da minha existência e tive que arrancar forças de lá para continuar vivendo momentos difíceis que as pessoas encaram durante um tratamento e quando eu descobri que ali naquele lugar dava para tirar muita coisa boa. Eu podia apurar coisas interessantes, podia viver momentos como nunca tinha vivido. A iluminada fala dessa virada, dessa metanoia, dessa mudança de mente. Claro, que tudo no diapasão da comédia.

O assunto do coach e as piadas com o tema têm se tornado muito recorrentes, como você encontrou uma ideia própria para a sua peça sobre coach?

A verdade é que ela não é coach, ela é "cuoach". Ela descobre que a pessoa tem que ir lá no inconsciente, lá no profundo, lá no cume (risos) da montanha, para poder estar cara a cara com os problemas. Uma frase que eu li de Joseph Campbell foi imprescindível nesse contexto todo, ele diz 'a caverna que você tem medo de entrar, esconde o tesouro que você procura'. Então na hora que você despoja isso, larga o medo de perder, que é muito importante. O momento fundo do poço é fundamental, porque é lá que você encontra a cama elástica que faz a gente dar o salto quântico. A peça fala da boa esperança, a boa virada quando há a entrega. Porém para isso é preciso a coragem de ir lá no cume da montanha.

Como você enxerga a explosão da cultura dessas pessoas "iluminadas" como a sua personagem na vida real?

Hoje existem mais formas das pessoas dividirem o que elas sentem, o que elas pensam. Então o fato de alguém se considerar uma iluminada e falar para as pessoas vem sempre com o cuidado no falar e principalmente no ouvir e de quem ouvir. O que acredito que está acontecendo é que, com acesso de falar o que pensa também vem o acesso de ouvir o que outras pessoas pensam. Agora, eu fico bolada com as pessoas que se consideram iluminadas, porque isso não é uma coisa da própria consideração. Acredito que quanto mais iluminada uma pessoa é, mais ela fala: 'só sei que nada sei'. Ela tem uma grande humildade, e sabe que realmente há uma força que paira, que o homem faz planos, mas a palavra final é de Deus.

Estamos em um período de retorno aos palcos com a pandemia dando uma trégua. Como tem sido a sua volta?

É algo emocionante. Nesse momento, voltar aos palcos significa voltar a viver, voltar a vida, a vibrar e deixar essa força pulsante que todos nós carregamos dentro sair para fora de novo. É rir, é comemorar e é celebrar. Foi muito emocionante em Portugal, quando eu cheguei em São Paulo então, no meu país, a cidade da minha cura foi São Paulo, lindo demais. Fiz na sequência Salvador, no Teatro Castro Alves, lugar que fui criada, das minhas origens. Agora em Brasília eu acredito que vai ser nessa mesma energia, porque acredito que o mundo inteiro está buscando isso, diversão.

A sua vida pessoal também foi marcada por uma outra notícia boa que foi a cura do seu câncer. Como foi esse processo e como estar de volta após tudo que passou?

Eu tive essa resposta da cura desse câncer, e agora estou em um período de acompanhamento, porque ainda ficamos cinco anos assim para ver se está tudo bem. Eu não gosto que digam: 'Você é uma guerreira, você lutou', porque dá a sensação de que quem venceu lutou e que passou dessa para melhor não. Isso não é verdade, a gente tem o nosso tempo aqui nessa existência e não era o momento de eu ir, na hora certa eu vou. Eu me considero uma pessoa que fez o que tinha que fazer. Era ainda tempo de eu estar por aqui nessa dimensão, então quero continuar por aqui fazendo sempre o meu melhor e entendendo que essa vida é legal e bacana, mas é uma passagem. Então, eu quero que minha vida tenha o tamanho dela, é interessante viver bem, mas é mais gratificante fazer a vida dos outros melhor, contribuir para um mundo melhor. Isso que eu quero agora, descobrir o reino dos céus dentro de mim e viver ele com plenitude para mim e para toda a humanidade.

Você trabalha com comédia há anos e está sempre se atualizando. Como você mantém sua comédia dialogando com os novos tempos?

Eu estou sempre vendo coisas, lendo coisas, fora que eu tenho muitos filhos e enteados. Esse ano eu voltei para faculdade, então tenho contato com gente mais nova o tempo inteiro. Mantenho um bate-papo fluido com os meus filhos, sempre me atualizando e discutindo sobre o meu ponto de vista e o deles. Sempre em uma relação muito rica. Mais importante do que qualquer coisa é poder trocar, poder dialogar. Você passa a sua experiência e recebe de volta o frescor que só a juventude pode dar.

Você trabalhou com grandes nomes do teatro e da comédia durante sua vida. Quem você acredita que te inspirou e inspira até hoje no seu trabalho?

Trabalhei com muita gente boa. Com Chico Anysio, Domingos Oliveira, todo o pessoal da Escolinha do professor Raimundo. Teve um momento da minha vida que eu dividia sala com Grande Otelo, Rogério Cardoso, Carlos Milani, Lucio Mauro. Segui a vida com Bruno Mazzeo, Lucinho e depois Ingrid Guimarães. Vi TV Pirata com Regina Casé, com Cláudia Raia, Débora Bloch e Ney Latorraca. A vida inteira cercada por essas pessoas, não tem como você não beber nessas fontes, não dá nem para elencar o que foi mais ou menos importante, tudo é importante. A importância é justamente saber combinar todas as coisas que estão em volta de você.

A iluminada

Sexta-feira (15/4) e sábado (16/4) às 21h. No Teatro Royal Tulip, localizado dentro do hotel. Ingressos a partir de R$ 70 (meia-entrada) à venda na Belini (113 sul) ou no site www.bilheteriadigital.com. Não indicada para menores de 14 anos.

  • Heloísa Périssé
    Heloísa Périssé Foto: Mancuzo Entretenimento/Divulgação
  • Peça a marca o retorno da 
atriz aos palcos
    Peça a marca o retorno da atriz aos palcos Foto: Fotos: Mancuzo Entretenimento/Divulgação
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