LITERATURA

Com ilustração de Jaguar, livro celebra a verve crítica de Stanislaw Ponte Preta

Confraria dos Bibliófilos do Brasil lança livro com seleção do cronista ilustrada pelo chargista

De nossos cronistas,  Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, é o mais humorista de todos.  Ele é uma espécie de pai espiritual da turma do Pasquim. Com algum atraso, mas para comemorar o centenário de Stanislaw Ponte Preta, que se passou em 2023, a Confraria dos Bibliófilos do Brasil, sediada em Brasília, dirigida por José Sales Neto,está lançando, em esmerada edição de arte, O suprassumo de Stanislaw Ponte Preta. O livro reúne uma seleção de textos do cronista, com ilustrações de Jaguar, que aparece de copo em punho, na capa, com a frase nada politicamente correta: "Beba sem moderação". Segundo Sales, essa foi, possivelmente, a última criação de Jaguar.

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Sérgio Porto encarnou como poucos o melhor espírito crítico carioca e transformou a gozação em um estilo, com tiradas que mantiveram uma inquietante atualidade: "A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento." Impôs-se, nas décadas de 1940 a 1950, no momento em que a imprensa do Rio de Janeiro era dominada por uma constelação de craques. As ridicularias, as arrogâncias e o festival de besteiras não passavam impunes por sua verve, que democratizou a inteligência crítica.

Sérgio Porto e Jaguar foram colegas nos tempos em que eram funcionários do Banco do Brasil. Jaguar sempre ilustrou os livros do amigo. Mesmo com o atraso em relação ao centenário do cronista, comemorado em 2023, a agência Riff, que detém os direitos autorais de Sérgio Porto, avaliou que era pertinente fazer a edição artesanal da Confraria dos Bibliófilos, pois a data havia passado em branco: "Conversei com o Jaguar por telefone e ele disse que não conseguiria fazer outra série de ilustrações para as crônicas,  iria se repetir, não tinha inspiração para fazer coisas novas,  mas autorizou a reprodução em nosso livro de todas que havia feito. Ele publicou essas ilustrações em jornais, revistas e livros. fez uma pesquisa e encontrou as principais e nos cedeu."

Na capa do livro, Jaguar faz uma charge em que aparece de corpo inteiro e confere o crédito das ilustrações na camiseta que traja. As ilustrações de Jaguar ostentam um traço escrachado no estilo de Crumb ou de Charles Bukovski, se o escritor norte-americano desenhasse. Faz contraponto ao humor de Sérgio Porto, que Sales classificaria de refinado: "É um tipo de humor que classificaria como refinado, mas sem ser hermético. Não é  qualquer um que vai rir e entender. Não tinha o humor tão popular quanto o do Chico Anysio quando escrevia. Stanislaw tinha um humor explícito e não explícito, com várias camadas de interpretação. "  

O pseudônimo Stanislaw Ponte Preta foi inspirado no personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, por sugestão de Rubem Braga, nos tempos em que ambos trabalhavam no Diário Carioca, uma escola de linguagem coloquial no jornalismo. Culto, inteligente, elegante, alegre e simpático, Sérgio só aceitou usar o pseudônimo para preservar o lado supostamente mais sério de cronista musical e de escritor. No entanto, o personagem, ilustrado pela primeira vez pelo artista plástico Santa Rosa, ganhou vida própria e soterrou as pretensões graves de Sérgio, que se tornou muito popular, com suas frases de efeito: "Se o Diabo entendesse de mulher, não tinha chifre nem rabo."

  O instinto popular de Sérgio o levou a praticar o humor em várias frentes. "Uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão." As suas crônicas têm a estrutura de pequenos contos, escritos numa linguagem coloquial, fluida e fácil, em tom de conversa de bar. Ele criou alguns personagens que se tornaram célebres. A sábia Tia Zulmira, o calhorda Primo Altamirando, o distraído Rosamundo e o retórico Data Vênia foram os mais famosos. Eles se envolvem em situações típicas do cotidiano. " Olha, acho que o Stanislaw não perdoa nada no humor. Mas centra muito na questão homem e mulher, e chega até ser politicamente incorreto para os padrões de valores atuais. Ele não tinha papas na língua."

"Pelo jeito que a coisa vai, logo o terceiro sexo estará em segundo", escreveu Stanislaw. Sérgio se autointitulava mulherólogo e mulherengo. Nunca deixava faltar em sua gaveta o perfume preferido das atrizes de teatro do rebolado. Os colegas de profissão eram, frequentemente, fontes de gozações e de inspiração para as suas criações. Um dos seus alvos preferidos era o colunista Ibrahim Sued, que perpetrava frases como esta ao anunciar o seu programa de televisão: "Estarei aqui diariamente às terças e às quintas".

Quando o colunista social Jacinto de Thormes lançou, na revista Manchete, As 10 mais bem-vestidas, o gaiato Stanislaw resolveu inventar As 10 mais bem despidas, que, em um segundo momento, viraram as Certinhas do Lalau. Na coluna, ele promoveu beldades do teatro rebolado, tais como Virginia Lane, Gina Le Feu, Carmem Verônica. Todo mundo ficava de olho nas Certinhas do Lalau.

Cronista, roteirista, radialista e apresentador de tevê, Sérgio pagou um preço alto pelo sucesso. Era cardíaco e não resistiu à enorme carga de trabalho. Ele morreu de infarto aos 45 anos. "Stanislaw não teve livros em antologias escolares. Até porque havia o estigma de ter participado de O Pasquim. Mas ele é um grande cronista de costumes da vida brasileira e se tornou referência do humor tipicamente carioca".

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Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução - Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Página do livro Sérgio Porto Centenário. O Suprassumo de Stanislaw Ponte Preta com ilustração de Jaguar.
Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução - Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Página do livro Sérgio Porto Centenário. O Suprassumo de Stanislaw Ponte Preta com ilustração de Jaguar.
Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução - Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Página do livro Sérgio Porto Centenário. O Suprassumo de Stanislaw Ponte Preta com ilustração de Jaguar.
Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução - Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Página do livro Sérgio Porto Centenário. O Suprassumo de Stanislaw Ponte Preta com ilustração de Jaguar.
Fotos: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução - Crédito: Confraria dos Bibliófilos do Brasil/ Reprodução. Capa do livro Sérgio Porto Centenário. O Suprassumo de Stanislaw Ponte Preta com ilustração de Jaguar.
Douglas Ferreira da Silva/EM/D.A Press - Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: humor na ponta da língua
Reprodução - Jaguar