Aos 32 anos, dona de um sorriso que parece sempre à beira de revelar uma lembrança querida, Gabriela Loran volta a ocupar a sala de estar dos brasileiros com Viviane, a farmacêutica luminosa de Três Graças, novela das 21h da TV Globo assinada por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva. Nascida em São Gonçalo (RJ), criada entre afetos profundos e a dureza particular da vida na periferia, Gabriela chegou longe — mas sem perder o eixo que a formou. E é justamente dessa combinação de chão e voo que nasce sua potência em cena.
Viviane, sua personagem, é uma mulher que cuida. Não apenas porque escolheu a farmácia como lugar de trabalho, mas porque olha o mundo com a lente de quem aprendeu cedo a se responsabilizar pelo outro. "Ela é extremamente ética, vaidosa, cheia de nuances… mas às vezes esquece de si mesma", conta Gabriela, quase reconhecendo ali o espelho de sua própria trajetória. Para ela, a personagem não é distante: é vizinha de alma. "É uma mulher brasileira, cheia de nuances e complexidades", completa.
A conexão se acende desde a origem. Assim como Viviane, Gabriela teve na avó o pilar mais caloroso da vida — um vínculo que segue vivo mesmo após a partida dela, sua referência maior. E o destino ainda lhe pregou um desses acasos que parecem prenúncio: seu primeiro emprego, quando adolescente, foi justamente em uma farmácia. De lá, levou amigos e aprendizados; agora, leva memórias para a ficção. "Voltar a esse universo me tocou profundamente. Foi divertido, mas também afetivo", diz.
Em Três Graças, Viviane encontra sua "família escolhida" ao lado de Gerluce, vivida por Sophie Charlotte, e Lígia, interpretada por Dira Paes. Para Gabriela, a troca com essas atrizes é mais que parceria: é uma escola diária. "A Dira é um fenômeno da natureza", brinca, com carinho quase reverencial. "E a Sophie é incrível", ressalta, sem deixar de destacar Alana Cabral, a jovem colega de elenco, intérprete da terceira Graça, Joélly: "Nosso diamantezinho".
Bandeira orgânica
Mas o que talvez mais comova Gabriela é poder construir uma personagem trans cuja identidade não é bandeira solta ao vento, e, sim, parte orgânica de um ser humano inteiro. Ela participa ativamente da criação, oferece vivências, tonaliza nuances. "Isso é crucial. Os autores escreveram uma personalidade profunda, cheia de história", celebra. De Viviane, também empresta para si um pouco da racionalidade que ainda não possui: "Ela pensa antes de agir… eu me jogo".
O romance com Leonardo, interpretado por Pedro Novaes, promete expandir essa jornada íntima. Segundo Gabriela, é ele que empurra Viviane a olhar para si — algo raro para alguém habituada a colocar o mundo no colo. "O que estamos construindo é humano, sensível, real… e pode mudar a realidade de muitas pessoas", afirma, convicta.
Se na novela sua atuação se desdobra em delicadeza, na ação de Arcanjo renegado, série do Globoplay que chegou ao ar com a quarta temporada, ela se lança em intensidade. Giovanna, sua personagem na produção assinada por José Júnior, ganha um arco político e emocional mais denso: a chefe de gabinete da presidente da assembleia municipal será lançada nas eleições. A boa notícia é que haverá tempo para explorar cada camada: a produção já tem quinta e sexta temporadas garantidas. "É um presente poder voltar sempre àquele universo", diz, com gratidão sem freio. Conciliar duas produções grandes? Para quem já superou obstáculos maiores, é quase doce. "Não existe dificuldade quando a gente tem saúde e trabalho", garante a taurina.
Pioneira como a primeira atriz transgênero de Malhação, em 2018, Gabriela hoje testemunha e ajuda a construir um movimento de ampliação das narrativas possíveis para mulheres como ela na televisão. Em 2022, atuou ao lado de Taís Araújo em Cara e coragem e, na sequência, emendou como Maitê uma das amigas de Buba (Gabriela Medeiros) em Renascer (2024), estreando no horário nobre que hoje a abraça como uma quase protagonista.
A responsabilidade ela leva no peito, mas também na pele: quatro anos como embaixadora da L'Oréal Paris, a maior marca de beleza do mundo, lhe conferiram lugar de referência. "Ser esse espelho para muitas mulheres como eu não tem preço", avalia, com orgulho.
O cinema também lhe sorri. Paulinha, sua protagonista no longa luso-brasileiro O último animal, rendeu indicação internacional como Melhor Atriz no Los Angeles Brazilian Film Festival. "O que faltava era oportunidade para mostrar do que eu era capaz", diz, com a serenidade de quem sabe o próprio valor e aprendeu a comemorá-lo quando o mundo finalmente enxerga.
Humanidade sem rótulos
Agora, à medida que Viviane ganha cor e profundidade na tela, Gabriela deseja que o público perceba algo simples e raro: a humanidade sem rótulos. "Quero que vejam o ser humano incrível que ela é, que sintam orgulho de sua trajetória", reflete. Nas redes, onde também se transforma — "quero mostrar uma nova Gabriela" —, ela lê mensagens de quem torce pela felicidade da personagem como se torcesse por uma amiga.
E, talvez, seja essa a maior força de Gabriela: fazer com que o Brasil torça por mulheres como Viviane — e, ao mesmo tempo, torça por ela. A atriz que cuida da própria história com o mesmo zelo que sua personagem cuida dos outros. E que acredita que representar não é apenas atuar, mas existir, inteira, em todas as telas. "Estamos avançando e tenho certeza que a Viviane de Três Graças será responsável por difundir e abrir cada vez mais as possibilidades para pessoas LGBTs, negras e de periferia", finaliza.
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