Morreu, ontem, o cantor, compositor e violonista carioca Jards Macalé, vítima de uma parada cardíaca. O artista, de 82 anos, estava internado em um hospital na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, onde tratava um enfisema pulmonar. A informação foi confirmada nas redes sociais do músico. Ainda não foram divulgados detalhes sobre o funeral.
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Em nota publicada no Instagram, a equipe do compositor revelou os últimos momentos do carioca. "Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando Meu nome é Gal, com toda a energia e bom humor que sempre teve. Cante, cante, cante. É assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade", disse o comunicado.
Nascido no dia 3 de março de 1943, Jards Macalé começou a se destacar no meio musical na década de 1960. Em 1965, o músico se tornou violonista dos espetáculos do Opinião, grupo de teatro que resistia à ditadura militar. Neste período, se tornou amigo de Maria Bethânia e dirigiu alguns dos projetos da baiana. Na mesma época, as composições do carioca começavam a ser interpretadas por nomes como Nara Leão e Beth Carvalho.
Em 1969, Macalé participou do 4º Festival Internacional da Canção com Gotham City, parceria musical com José Carlos Capinam. A performance provocou polêmica, pois o cantor brincou com os signos góticos da história em quadrinhos para desfechar uma crítica à ditadura militar, anunciando aos berros: "Cuidado, há um morcego na porta principal". Quatro anos depois, lança o primeiro disco da carreira, Jards Macalé, unindo jazz, blues, baião, rock e samba.
Conhecido como anjo torto da MPB pela estética que mistura gêneros e ritmos de forma única, Jards Macalé também teve canções interpretadas por grandes nomes da música brasileira como Gal Costa e O Rappa. Vapor barato, Let's play that, Anjo exterminado e Hotel das estrelas são algumas das principais composições do carioca. Inquieto, animado pelo sentimento do mundo, na passagem dos 25 anos da Declaração dos Direitos Humanos, Macalé reuniu os amigos e gravou o álbum duplo O banquete dos mendigos. O disco foi censurado pela ditadura militar e só foi lançado em 1979.
Em 2023, o músico lançou o álbum de inéditas Coração bifurcado. Com carreira exemplar na música brasileira, ele decidiu abordar o assunto mais universal: o disco, com participação de grandes amigos, fala de amor. Nomes como Kiko Dinucci, Alice Coutinho, Romulo Fróes, Ronaldo Bastos e José Carlos Capinan participaram do projeto.
Em entrevista ao Correio à época, Jards Macalé definiu a vida como um jogo de amor e que a palavra nem precisava ser citada nas letras. "Não é preciso colocar a palavra amor, a situação já clareia a coisa do amor. As minhas músicas são feitas para transpirar sentimentos", destacou.
Parceira musical de longa data, Gal Costa era esperada para participar do trabalho, mas acabou falecendo antes do projeto sair. "Eu fiquei muito triste, não por ela não participar do disco, mas porque tinha perdido minha amiga e minha intérprete. Por isso, o disco, a turnê e tudo que vier deles é dedicado a Gal e sua grande voz", afirmou ao Correio.
Macalé lamentou ter se despedido de tantos amigos durante os anos. "Esses amigos que se foram, para mim não foram. A coisa física não está mais presente. Porém, tudo que nós fizemos, conversamos e trabalhamos está dentro de mim. Tudo aquilo de conversa, compõe, canta e faz show, eu lembro de tudo com alegria", disse.
"Quando eu fiz 80 anos, eu já vinha pensando muito sobre essa data tão significativa. Pensei muito nesse passado e cheguei à conclusão de que esse bloco passou. As coisas bacanas, os maus momentos, os bons momentos, tudo já passou, está resolvido", refletiu. "Daqui para frente, temos o presente, em que continuaremos fazendo coisas. E o futuro, meu amigo, a Deus pertence. Afinal, eu sou um jovem de 80 anos", finalizou.
Com João Donato
Macalé fez uma das parcerias mais afinadas e inventivas com João Donato. Os dois foram apresentados, oficialmente, durante a pandemia, embora se observassem há décadas, lembra Ivone Belém, viúva de Donato.Dois brincantes, logo que chegaram ao estúdio para gravar Síntese do lance, no final da pandemia, em 2021, saíram tocando, compondo e sem cerimônia aceitaram tirar a roupa para a foto da capa do álbum: "No palco se entendiam por olhares e sabiam dos humores um dos outro. Macalé, como um irmão mais novo, cuidava do João", conta Ivone Belém.
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