
Aos 29 anos, Debora Ozório atravessa um ponto de virada na trajetória artística ao protagonizar Tudo por uma segunda chance, a primeira novela vertical da TV Globo. O projeto, concebido para nascer nas redes sociais e depois migrar para o Globoplay, não apenas inaugura uma nova linguagem na dramaturgia da emissora, como também dialoga diretamente com o percurso da atriz, marcado pela curiosidade, pela pesquisa e a disposição em se reinventar.
Vinda do teatro, Debora encarou o convite como um território de descoberta. "É realmente um novo olhar para a dramaturgia", afirma. Para ela, o formato vertical surge quase como uma ponte natural entre o palco e o ambiente digital. "Eu, como uma atriz que vem do teatro e que pensa nas redes sociais como extensão do meu trabalho, encarei esse formato como uma conexão direta e positiva dos dois universos." O desafio, segundo a atriz, foi encontrar a medida certa das emoções dentro de um ritmo intenso e de uma dramaturgia ainda em construção. "O maior desafio foi entender a medida das emoções da personagem dentro desse ritmo e compreender a proposta que essa dramaturgia traz", argumenta.
A intimidade imposta pela câmera vertical exigiu ajustes finos na atuação. Antes do início oficial das gravações, um piloto foi decisivo para esse entendimento. "Foi essencial para perceber as diferenças dos formatos. Existe uma medida de expressão, de tom, de gesto", explica. Ao longo do processo, Debora se permitiu aprender fazendo. "Descobri muito na prática, me disponibilizando para o novo." A personagem Paula ganhou uma construção mais objetiva, em sintonia com a agilidade do projeto, sem abrir mão da verdade cênica.
A estratégia de lançamento, com estreia nas redes sociais e posterior chegada à Globoplay, reflete, na visão da atriz, a lógica do próprio produto. "Acho apropriado, visando que é um produto feito para as redes. Tudo é muito novo e vejo como um experimento para entender os melhores caminhos." Para Debora, o consumo fragmentado não é um obstáculo, mas parte da experiência que esse tipo de narrativa propõe.
Ainda cautelosa em fazer previsões, a atriz acredita que o formato vertical tende a se consolidar. "Está todo mundo descobrindo", diz. "Mas vejo que é um movimento forte, que tem tudo para ficar. Pode criar mais mercado, mais possibilidades, mais oportunidades." Entre os diferenciais, Débora destaca a agilidade, o acesso fácil e a linguagem própria, distante da dramaturgia tradicional, mas complementar a ela.
Passo a passo
Esse protagonismo em um projeto pioneiro chega após uma caminhada construída passo a passo. Desde a estreia na televisão, em Totalmente demais, em 2016, Debora percebe um amadurecimento que acompanha sua vida pessoal. "Meu amadurecimento profissional e pessoal caminharam juntos. Isso me faz ter um entendimento das escolhas cada vez mais profundo, dentro e fora de cena." A atriz valoriza o fato de sua trajetória ter sido gradual. "Cada passo e cada experiência contam."
A base teatral segue sendo um pilar inegociável. "O teatro dá a base de qualquer forma", afirma. Para ela, mesmo em formatos que pedem o gesto mínimo, o corpo inteiro continua sendo ferramenta essencial. "Independente do tamanho que o formato pede, o entendimento de ter o corpo inteiro a serviço da cena é sempre necessário." A atriz defende o teatro como espaço de formação humana e artística. "Vejo e vivo o teatro como necessidade."
Ao comparar Paula, de Tudo por uma segunda chance, com Petra, personagem que lhe rendeu grande reconhecimento em Terra e paixão, Debora prefere não hierarquizar. "A Petra foi um presente e um marco para mim, mora em mim para sempre", diz, lembrando das camadas profundas exigidas pela personagem. Já Paula trouxe desafios distintos, ligados ao próprio formato. "Foi a construção rápida, o entendimento de um novo tempo de trabalho." A atriz recorda o sentimento de despedida precoce. "A saudade já existia quando começou, porque sabíamos que já estava acabando." Ainda assim, o entusiasmo do novo conduziu o processo.
Habituada a transitar entre teatro, televisão, cinema e agora projetos multiplataforma, Debora adapta seu método às exigências de cada linguagem. "Eu amo o momento de construir, de encontrar o personagem", conta. Para ela, todas as formas de contar histórias podem ser chamadas de casa. "Não escolheria uma como principal."
A arte como casa
Quando fala de arte como casa, o conceito ganha contornos afetivos. "Casa é onde nos sentimos completos, protegidos e felizes. Assim me sinto na arte." Com o passar dos anos, essa casa se transformou. "Cada vez mais ela tem mais de mim." O sentimento de pertencimento permanece, mas amadurecido. "O propósito é o progresso."
Ser o rosto de um projeto que inaugura uma nova linguagem na maior emissora do país traz responsabilidade e também entusiasmo. "Me sinto fazendo história", afirma. O medo existe, mas não paralisa. "Ele me faz caminhar."
A forte adesão do público jovem, principal consumidor, também chama atenção. Debora vê com naturalidade a chegada de novos fãs. "A resposta é muito positiva, com milhões de visualizações." Para ela, o termômetro mais importante segue sendo o envolvimento com a narrativa. "Quando o público se envolve com a personagem, isso me aquece."
O futuro, a atriz prefere manter aberto. "Quero fazer de tudo", diz. Mais do que gêneros específicos, ela busca bons projetos e personagens que vibrem no coração.

Diversão e Arte
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