
Crítica// O beijo da mulher aranha ★★★
Bem distante da densidade do texto de Manuel Puig, anteriormente recriado em musical da Broadway e ainda em cinema de alto pedigree (com William Hurt e Sonia Braga sob a direção de Babenco), numa nova versão, O beijo da mulher aranha traz um apelo gritante ao que seja espalhafatoso, numa moldura escapista. Tudo vem direcionado ao poder do cinema imantado em esperança e num jogo de cores e iluminação que anestesiam.
"Você é um homem", demarca o personagem militante de Diego Luna (o revolucionário Valentín), insistindo no convencimento de Luis Molina (um papel moldado para Tonatiuh), gay absolutamente rendido ao estridente mundo dos musicais, que contraria silenciamentos, habitados pela diva Ingrid Luna (personagem sob medida para Jennifer Lopez). Resta o detalhe que ambos habitam o confinamento de uma cela argentina, durante a ditadura que sumiu com 30 mil pessoas, entre desaparecidos e mortos.
Degeneração e banalidade entram em debate no filme de Bill Condon, que traz à tona comportamentos dúbios de homens casados, uma homenagem para a musa Nastassja Kinski (com uma cena de A marca da pantera) e reparação para o estereótipo do machão latino. Enquanto se concentra na leitura da biografia de Lênin, Valentín exerce a paciência testada por Molina, com as citações de cinema que alcançam de Sissy Spacek a Glenda Jackson, passando por Joan Crawford e Cyd Charisse. Distribuídos em blocos, os enredos e os planos de personagens fictícios e reais casam com certa dificuldade.
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Ainda que não repasse consistência, a personagem de Jennifer Lopez mantém o magnetismo, na execução de coreografias de Sergio Trujillo (Jersey Boys: Em busca da música) e Christopher Scott (Wicked). Não há aderência, quanto às músicas de John Kander e Sam Davis. Sem a profundidade de longas anteriores (Deuses e monstros e Kinsey), Bill Condon contempla ao menos a ternura e a tolerância no enredo que trata de informantes, trocas de identidades e traições e exalta o alívio humano de, sim, se importar com os outros.
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