Música

Livro revisita trajetória de Cássia Eller e debate legado da cantora

Em Eu queria ser Cássia Eller, Tom Cardoso conta a história de uma das vozes mais conhecidas da música brasileira e traz nova versão sobre a morte precoce da artista

"Um abalo sísmico na vida de todos que conviveram e que se encantaram por ela". É assim que Maria Eugênia Vieira Martins, viúva de Cássia Eller, descreve a esposa que morreu há 24 anos no prefácio da biografia escrita por Tom Cardoso. A partir de depoimentos de familiares, amigos e parceiros de trabalho, a história da menina tímida que se tornou uma das vozes mais conhecidas do Brasil é narrada desde a infância no subúrbio carioca até o estrelato nacional, e traz uma nova versão sobre a morte precoce da vocalista em 2001, aos 39 anos.

"Contar a história da Cássia tem muito a ver com os tempos atuais", avalia Tom Cardoso. Da adolescência à vida adulta, destaca o autor, a cantora carioca viveu embates com o pai militar, Altair Eller, devido a questões de sexualidade, e acabou levantando importantes debates públicos sobre relacionamentos homoafetivos no início dos anos 2000. "Ela não ficava levantando bandeira, porque não era muito a dela, era muito moleca, não gostava de papo cabeça, tanto é que falam que ela era uma eterna criança. Mas, sem querer, ela trouxe à tona discussões importantíssimas", afirma o escritor.

Mãe do filho do baixista Tavinho Fialho, que morreu dias antes do parto de Francisco Eller, também conhecido como Chicão, Cássia criou a criança ao lado da esposa Maria Eugênia por oito anos. Com a morte da carioca, a viúva da cantora precisou passar por uma batalha judicial contra Aldair, que à época pedia a guarda do neto. "Ele achava que um casal gay não podia criar filhos", conta Tom. "Então, eu acho que em tempos de bolsonarismo, ela é uma personagem muito significativa na luta pela inclusão e pelo casamento homoafetivo, mesmo sem ter feito nenhuma força para isso", pondera o autor.

A mudança de Cássia para Brasília, aos 18 anos, foi motivada justamente pelos embates envolvendo a sexualidade da artista. "Ainda no Rio, ela começou a namorar uma menina que morava no mesmo bairro que ela e a família, o que foi um escândalo na vizinhança. E aí, quando o pai dela recebeu uma proposta de trabalho para ir para a capital federal, ele juntou o útil com o agradável, podendo mudar de cidade e tirar a Cássia do convívio com essa namorada", relata Tom.

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"Só que eles mudaram para Brasília no comecinho dos anos 1980, em uma época que a cidade vivia uma ebulição cultural. Tinha uma cena alternativa muito forte, o que acabou sendo um tiro no pé dos pais de Cássia, que a colocaram em um lugar que era ainda mais efervescente, em que ela começou a ter mais relações com mulheres e se definir como artista. Se ela tivesse presa no Rio de Janeiro, na Zona Norte, onde ela morava, um lugar mais provinciano em termos artísticos e comportamentais, talvez ela demorasse mais para florescer musicalmente", pondera.

Inclusive, foi na cidade que Cássia conheceu a esposa Maria Eugênia. Após breves trocas de olhares no Beirute, as duas foram apresentadas oficialmente por meio de um casal de amigos em comum e, meses depois, estavam morando juntas em uma quitinete na 306 Norte, de onde só saíram quando se mudaram para São Paulo. "Foi um lugar decisivo não só para a formação dela como artista, como também dela como mulher", afirma Tom.

Morte precoce

Em 29 de dezembro de 2001, o Brasil se chocou com a morte precoce de Cássia Eller. A comoção nacional pela perda da artista que estava no auge da carreira, porém, foi marcada também pelas diversas especulações sobre a causa por trás da parada cardíaca sofrida pela carioca. "Muita gente acha que ela morreu de overdose, porque ela tinha um envolvimento com drogas. Mas não houve isso", garante Tom.

"Ela foi muito mais vítima de um estresse emocional causado pela superexposição de um sucesso para o qual ela não estava pronta, nem estaria nunca. Ela não gostava de viver tudo aquilo. Ela ia a muitos programas de entrevista, fazia gravações e não parava. É provável que ela tenha tido um surto, mas como ela tinha o estereótipo da 'cantora doidona', trataram como se fosse uma overdose, apesar de ela não ter consumido cocaína", relata o autor da biografia.

"A partir dessa versão, até começaram a sustentar a teoria de que a Cássia tinha parado com tudo e não usava mais drogas, o que não é verdade também. Acho que ela continuava usando, sim, cocaína, inclusive nos dias anteriores, mas no momento que ela morre, ela não está em uma overdose", defende o autor. "Eu acho que foi uma soma de fatores. Não dá para dizer que ela morreu por conta das drogas ou por erro médico", conclui.

Segundo relato de Eugênia, a artista estava em um momento de muito estresse no dia da morte em meio ao sucesso estrondoso do álbum Acústico MTV, o mais bem-sucedido da carreira. "Cássia teve que ir até o Aeroporto Santos Dummont comprar passagens de avião para a família com cartão de crédito, algo que a Eugênia normalmente faria, já que era ela quem cuidava dessa parte mais burocrática, mas ela estava tomando conta do Chicão", detalha o escritor.

"Quando ela chegou lá, somou-se a timidez com o pânico de ser abordada e ter que lidar com toda uma burocracia que ela não estava acostumada, e então ela teve uma crise nervosa e passou muito mal. Normalmente, quando a Cássia estava muito nervosa, ficava agressiva com ela mesma — ela chegou a socar uma parede", revela o autor.

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"E quando ela chegou na clínica, em estado muito nervoso e muito agitada, trataram como se fosse uma overdose, mas não era. Ministraram um plasil (medicamento utilizado no tratamento de náuseas e vômitos) e ela teve uma alergia. Então, pelo que eu colhi de depoimento com a Eugênia e os músicos amigos dela, foi uma soma de coisas que culminaram nessa tragédia mesmo", opina.

Poucos dias antes da morte, Cássia planejava tirar um período sabático, lembra Tom. "Ela ia viajar com a esposa e com os amigos, descansar bem, ia se isolar", conta. "Foi uma tristeza essa fatalidade, porque ela também sabia se recolher. Quando ela percebesse que estava muito agitada, ia cancelar alguns shows, porque ela não tinha essa ganância de 'quero mais cada vez mais sucesso'. Ela queria estar no palco, com a banda dela, e quando percebesse que estava sendo muita coisa para ela, ela saberia recuar, como recuou algumas vezes, mas dessa vez não deu tempo", lamenta.


Eu queria ser Cássia
Eller: Uma biografia

De Tom Cardoso. Harper
Collins, 312 páginas.
R$ 69,90

 


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Divulgação - Em Eu queria ser Cássia Eller, Tom Cardoso conta a história de uma das vozes mais conhecidas da música brasileira
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