MÚSICA

A arte de Claudio Santoro para piano nas plataformas digitais

Instrumentista e pesquisador Pablo Marquine lança nas plataformas digitais álbuns com a obra do compositor comparado a Villa-Lobos

Pablo Marquine teve o primeiro contato com a obra de Claudio Santoro ainda criança, quando era aluno da Escola de Música de Brasília na classe de piano. O compositor o acompanhou durante toda a vida profissional e acadêmica: a pesquisa no acervo pessoal de Santoro o motivou para explorar ainda mais a obra do maestro durante o mestrado com o intuito de entender o impacto de Santoro por meio do estudo de cada momento estético do compositor. Santoro foi professor da Universidade de Brasília e maestro fundador da Orquestra do Teatro Nacional. É reconhecido na condição de um dos mais importantes compositores da música erudita brasileira, chegando a ser comparado a Villa-Lobos.

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Durante o processo, editou manuscritos de Santoro para piano e, desde 2017, divulga as gravações desses trabalhos. Mais recentemente, lançou três álbuns que englobam a obra para piano solo de Santoro: Volume 2 — Peças Solo para Piano, Volume 3 — Álbuns para Piano e Volume 4 — Sonatas e Sonatinas para Piano. Os discos, todos disponíveis nas plataformas digitais, fazem parte do projeto Alma Brasileira: Claudio Santoro e Hermeto Pascoal, realizado em conjunto com Diogo Monzo. Nesta entrevista, Marquine fala sobre o processo de gravação dessas obras, a relação que tem com a obra de Santoro e como percebe o lugar do compositor na música brasileira.

Qual sua relação com a obra de Claudio Santoro?

Eu comecei a estudar a obra de Santoro quando era criança, ainda aluno da Escola de Música de Brasília. Havia sido convidado por volta dos 10 ou 11 anos para participar de um evento dos 10 anos de falecimento de Santoro, em 1999. Foi o primeiro momento que tive contato com a obra dele e interpretei algumas durante minha formação. Mas foi na UnB que tive acesso ao acervo de cartas de Santoro e esse movimento teve muita importância  porque conheci outro lado dele: particularidades, processos, preocupações que existiam na vida dele. 

Studio Sartory - Pablo Marquine e Diogo Monzo homenageiam Claudio Santoro e Hermeto Pascoal

No mestrado, ainda na UnB, eu fiz um trabalho sobre a obra dele em busca de elementos de sentidos por meio da Teoria das Tópicas Musicais; fiz doutorado sobre ele, mas na parte mais musicológica, e abordei a importância do Santoro na mudança da linguagem musical no Modernismo brasileiro. 

A obra de Santoro mudou minha vida e carreira, porque foi por causa dela que tive muitas oportunidades que não tive durante a graduação. O contato não só me fez amadurecer como pianista, mas também como ser humano. O processo de gravação desse projeto começou em 2016, e depois passei por várias coisas na minha vida e também me aproximei da família de Santoro, da Gisèle Santoro, esposa dele, e também do filho Raffaelo, que foi engenheiro de som nesse projeto. 

Qual a dimensão de Claudio Santoro na cultura brasileira?

Esse projeto começou em 2016. Fiz a primeira gravação, Claudio Santoro: obra completa para Piano Solo, Vol.1 — Prelúdios, lançado em 2017; nesse projeto, Alma brasileira, que executo com Diogo Monzo, consegui finalizar a gravação dessa obra lançando os últimos três volumes. Posso dizer que a obra do Santoro é uma das mais complexas e diversificadas no repertório brasileiro para piano. Tem 42 prelúdios, obras solo de altíssima dificuldade, mas que abordam o desenvolvimento de uma linguagem brasileira presente em todos os gêneros musicais dele. Sonatas, sonatinas e diversos estudos para piano. Todas têm uma força que são características do discurso musical dele, dotadas de muita paixão, mesmo as mais ditas cerebrais, e conseguiu usar a estética como veículo de criação que transcende idiomatismos ou especificidades de métodos ou bases. 

Ao lado do Villa-Lobos, é um dos maiores compositores da música brasileira. Não colocaria nem acima, nem abaixo, e, sim, ao lado de Villa-Lobos. As obras do Santoro serão mais conhecidas no futuro, a obra que eu concluí será para pessoas que ainda não nasceram. O que eu vejo de diferente ao Villa-Lobos é que ele estava mais ligado às estéticas contemporâneas da época dele, compõe uma música mais para o povo ou serve ao ideal de música do progresso. Vai ser pertinente a vida inteira esse antagonismo. O trabalho dele acho que está do lado do Villa-Lobos, que tem seu lugar na história, mas ele vivenciou o século 20 de forma mais diversificada.

Como o Hermeto se inclui nesse projeto? Qual tipo de diálogo é proposto entre as obras dos dois?

O álbum do Diogo, que vai ser lançado neste ano, trabalha com chorinhos de Hermeto Pascoal. Na linguagem, o Hermeto é popular, vem dessa estética do improviso da música popular, mas o que as une é a brasilidade. Ambos trabalharam brasilidade, ritmos brasileiros, variações rítmicas do nosso cotidiano brasileiro. E o Hermeto ia participar do álbum em homenagem a ele, mas como morreu, não deu tempo. O Diogo chegou a gravar a última música em improviso baseado em todas as estéticas que vieram da obra de Hermeto e acho que as obras têm essa proximidade da música popular brasileira e dessas melodias que só o Brasil tem no mundo. 

Como o trabalho de pesquisador se une ao de intérprete?

Geralmente, quando a gente faz pesquisa, separa-se a performance da musicologia. Comigo foi ao contrário, não consegui separar do piano. Não tem como ter uma pesquisa se você não depende da música, não tem como ser um grande performer se não há uma pesquisa que te embasa e todo o fenômeno sendo feito. Fenômeno não só o ato de tocar, mas tudo que engloba até chegar ao palco. 

Cada âmbito da minha vida influenciou o outro e até hoje influencia. Foi muito importante quando peguei, em 2014, o acesso às obras dele. Encontrei muitas em manuscritos e ainda vou lançar as edições que fiz das obras de piano. Seria impossível chegar aonde cheguei se não tivesse tido esse trabalho acadêmico, porque, infelizmente, muitas obras estavam em manuscritos e precisavam ser editadas. Diferentemente do Diogo, de o compositor estar vivo, ainda compondo muito e as partituras eram de fácil acesso. No meu caso, tiveram partituras perdidas que demorei anos para conseguir.

O que achou no arquivo pessoal dele?

Quando tive contato, em 2014, 15 e 16, o acervo do Santoro ficava e ainda fica no apartamento dele da Asa Norte, cedido quando era professor da UnB. Estavam no acervo dele muitos manuscritos, obras de piano, câmara, orquestra… reportagens, fotos, premiações e cartas pessoais. 

Como é o processo de edição dos manuscritos? 

É um processo que tem várias camadas e etapas. Geralmente, você tem que ter acesso ao manuscrito ou a alguma edição mais antiga e, normalmente, passa esses arquivos para softwares modernos de edição de partituras. O meu trabalho foi de fazer essa transferência e fazer um processo de edição visual e conteúdo musical. Algumas coisas eram difíceis de ler por causa do estado, por outro lado quis deixar o mais moderno possível em termos de como compreendemos a notação musical hoje em dia. 

*Estagiária sob supervisão de Severino Francisco

 

 

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