
Crítica // O morro dos Ventos Uivantes ★★
As camadas de ousadia da cineasta Emerald Fennell desfiguram, com pleno êxito, o clássico Emily Brontë — definitivamente, isso não é um elogio. A personagem central Cathy (Margot Robbie) pode até "ronronar de felicidade", a dado momento, mas é a custa de masturbação perto das rochas, pelo prazer de chutar o corpo do pai (papel de Martin Clunes), jogado ao chão, e folhear um caderno artístico de decoupage em que "cogumelos e flores" representados burlam qualquer código de decência de meados do século 19, em que a narrativa se assenta.
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A modernização abraça comportamentos deslocados e uma trilha sonora intrigante (balizada por Charli XCX), mas junto com o romance entre Heathcliff (Jacob Elordi, sorumbático) e Cathy se introduz um terceiro elemento: a displicente língua de rapaz, com vida própria. Pela infância, ele fora criado como irmão da moça. Depois de um acidente, e passados 75 dias aninhada na confortável mansão do vizinho Edgar (Shazad Latif), que alterna o clima de boate e recinto intimista de Star Wars (na mesma medida de feito causada por Emerald no esquecível e opulento Saltburn, de 2023), Cathy junta os trapos num pacto repugnante de convívio com o rico rapaz, num ciclo enriquecido que inclui a serviçal Nelly (Hong Chau, de A baleia, a melhor do elenco) e a diabrete Isabella, a ótima irlandesa Alison Oliver.
Pobreza, desespero, tons melosos e punhado de itens grotescos planificam a trama administrada por Fennell (a artista vencedora de roteiro original, no Oscar, por Bela vingança). Uma abordagem grosseira e desvirtuadora cria um inaudito na literatura de Brönte, agora disposta num mix de 9 1/2 semanas de amor, Alice no País... (dada a exuberância visual) e Ligações perigosas. Há tapa na cara, mãos nos olhos e na boca, xingamentos ("vadia" é pontuado no texto) e a lascívia (com chupada de mão, correntes como acessório de fantasia sexual e latidos) típica de um texto de Choderlos de Laclos.
Entre banalidades e bizarrices, de personagens afundados na ruína, dependentes de maquinações amorosas, e jeitosos com torturas e degradação, a maliciosa e incoerente adaptação não deixa de ser chamativa. Zangado e indiferente, Heathcliff convence mais quando, mesmo desprezado, conserva a postura de escudo protetor para a amada Cathy, apelidada de "cão da manjedoura", nesta versão com diálogos tão afiados quanto cruéis. Crua e pouco poética, a criação da diretora se afirma na turbulência e abraça imagens potentes como a do persistente pé segurado (como posse) debaixo de uma cama (que sintetiza o apego do casal) e ainda da fusão (na imagem) de lesmas com um pão sendo sovando (num inusitado efeito erótico). A favor da criatividade chegam a exposição do luxo desmedido em meio aos pântanos britânicos, o curioso relato de vidas transcorridas com paralelos à casa de bonecas administrada pela infantilizada Isabella, e a (estranha) euforia diante do inédito enforcamento de uma mulher. Perturbador, no mínimo.
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