
Leitor voraz e fanático, o escritor Lourenço Cazarré não hesita em dar asas à própria imaginação toda vez que se depara com a vontade de escrever sobre um ou outro personagem ou escritor da literatura brasileira. Assim nasceram os seis contos de Breve memória de Simão Boa Morte, que o autor publica agora no Brasil, depois de ganhar, em 2024, a 5ª edição do Prêmio Imprensa Nacional/Ferreira de Castro em Portugal, que resultou em uma edição publicada em terras lusas. O concurso é dedicado a premiar a produção de autores portugueses e lusodescendentes e o livro de Cazarré concorreu com outros 68, assinados por autores distribuídos por Brasil, Bélgica, Reino Unido, Estados Unidos, Cabo Verde, França, Irlanda, Suíça, Espanha, Canadá, Sri Lanka e Portugal.
Em todos os contos, Cazarré revisita histórias e personagens da literatura brasileira, uma mania que cultiva e da qual não escapa por conta da obsessão pela leitura. "Tenho feito isso há muito tempo, em muitos livros", repara, ao lembrar que também já falou da loucura pelos livros em uma história escrita em 2018. "Escrevi Czar Alexander, o louco de Pelotas, uma história de um professor de literatura que enlouquece, um romance sobre a arte do conto", avisa. "Sou um leitor fanático, leio desde os 10 anos de idade. Sou apaixonado por literatura."
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No primeiro conto de Breve memória de Simão Boa Morte, o protagonista é Graciliano Ramos. "Ele tem um conto em que participa de uma reunião de poesia e fica de saco cheio. Então, escrevi sobre ele participando da reunião. É uma brincadeira com esse conto de Graciliano", diz Cazarré. No segundo conto, o autor junta duas pontas da própria história: uma memória de infância com a escolha de Brasília para morar, já adulto, aos 24 anos. Nesta narrativa, o poeta e engenheiro Joaquim Cardozo, figura central na construção de Brasília, encontra um menino que costumava viajar de trem entre Pelotas, no Rio Grande do Sul, e as fronteiras do sul do país, uma prática comum na infância de Cazarré, nascido em Pelotas. "Escrevi um livro sobre Brasília e me apaixonei pelo Joaquim Cardozo", conta o autor, .
Graciliano Ramos aparece novamente em um conto sobre a morte de um cachorro, embora não seja apresentado como o autor de Vidas secas. E Machado de Assis é a estrela que rendeu a Cazarré o conto-título do livro. "Quando eu tinha 22 anos, li O Alienista e me apaixonei", conta. "Durante toda a vida, eu li Machado de Assis. E tive essa ideia de fazer uma história de O alienista: inventei um psicanalista de Pelotas, Simeão Boa Morte, enquanto o personagem do Machado é Simão Bacamarte. Simeão é um poeta, psicanalista, e ele vai escrever esse texto para provar que Machado roubou dele aquelas histórias que, segundo ele, ocorreram com ele e não com Bacamarte. E aí ele escreve esse texto, irritado com Machado, que roubou dele o conto alienista", explica Cazarré.
Breve memória de Simão Boa Morte
De Lourenço Cazarré/Faria e Silva,
170 páginas. R$ 41,80
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