
Não apenas por proximidade geográfica, mas ainda pelo comprometimento estrito com um tipo de arte enraizado na política e um reconhecimento de longa data de talento, não há, entre os cineastas (especialmente do Nordeste), quem não esteja pela torcida do Oscar para o ator Wagner Moura, no próximo domingo (15/3). "Entendo o Wagner, antes mesmo do lado ator, como uma pessoa muito preocupada com a sociedade brasileira. Acho que, de forma geral, ele escolhe muito bem os personagens que interpreta, mesclando papéis que dialogam em alguma medida com suas próprias convicções e que, ao mesmo tempo, também se apresentam como bons desafios técnicos e artísticos, demonstrando riqueza nos contextos das narrativas que defende", pontua o baiano Ducca Rios, que conduziu Wagner Moura nas dublagens da animação nacional Meu tio José.
Ducca acha que quem realmente tem interesse no desenvolvimento do Brasil — "os que acreditam que esse país pode ser um dos grandes pilares em uma nova ordem mundial" —, deve torcer pelo Oscar para Wagner Moura. "Ele é um grande ator brasileiro, certamente, o melhor que já vi trabalhar. O papel que desempenhou em O agente secreto é primoroso. Participei do Festival de Havana com meu longa Revoada — Versão Steampunk, e fiquei encantado pela atuação do Wagner, pela narrativa do Kleber Mendonça Filho (diretor de O agente secreto), e ainda grato pelo tema da ditadura estar de volta a um grande filme nacional", descreve Ducca Rios.
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A simplicidade de Wagner, com Ducca, que muito se comunica com ele por whatsApp, transpareceu nas conversas sobre o time do coração de ambos, o Vitória, e nos papos sobre música e cinema. Vindo do Ceará e formado pela UnB, o diretor Karim Aïnouz endossa os elogios do ator que ele dirigiu em Praia do Futuro. "Wagner tem tido um papel extraordinário, desde o trabalho dele como ator de teatro, quando eu o conheci, desde obra na tevê. É muito impressionante ver um ator que fez o Capitão Nascimento, depois o Donato (de Praia do Futuro), fez Narcos, e fez um longa sobre Sérgio Vieira de Mello (o diplomata). São escolhas muito impressionantes, corajosas e impactantes. Ele questiona as narrativas dominantes, com relação ao que é o mundo e o que é a história, com h maiúsculo", avalia Aïnouz.
Também antiga e marcante é a amizade de Wagner com o cineasta soteropolitano Sérgio Machado. Veterano da faculdade de comunicação, Machado viu Wagner chegar. "A primeira vez que o Wagner me marcou, atuando, foi quando eu o vi fazendo um exercício de teatro numa oficina promovida pelo Luiz Carlos Vasconcelos. Despontaram ali, grandes atores como Laila Garin, João Miguel, Ana Paula Bouzas e Vladimir Brichta. Wagner tinha uma visceralidade impressionante. Depois, trabalhei com ele no Abril despedaçado (de Walter Salles) e, finalmente, no Cidade Baixa. Ele me impressionou o tempo inteiro: Wagner e Lázaro (Ramos) foi uma dupla explosiva. E junto com a Alice Braga?!. Três estrelas que viraram o cinema brasileiro", define.
Na entrega aos papéis e na determinação do foco, Sérgio Machado se diz magnetizado. "Ele estar no lugar em que está: ganhar Cannes, disputar Oscar, nada disso me surpreende. Lembro de quando ele resolveu que ia passar um tempo nos Estados Unidos. Ele tem essa vontade de conquistar o mundo, mas sempre muito fincado nas raízes brasileiras e baianas", explica, emendando: "É alegria, uma emoção grande, ver esse caminho bonito que Wagner vem trilhando e que ainda vai dar em muito longe".
"Para mim, a imagem que fica do Wagner é a de um ator consciente de sua importância e que irá emprestar seu talento cada vez mais a produções que o comovam ou o toquem profundamente. O que posso afirmar é que ele mergulha nos seus personagens por completo. Ele toma posse deles"
Ducca Rios, cineasta
A cara do Brasil
Levar um pouco do Brasil para o resto do mundo, por meio de um rosto: é assim que o diretor pernambucano Heitor Dahlia nota a expressão de Wagner Moura, forjado na coragem, no carisma e na assertividade de cenas. "O destemor dele faz com que se imprima sempre uma mágica, na hora em que a câmera está ligada. Wagner é um ator que entrega tudo". Entusiasmado, em O agente secreto, como espectador, Heitor percebeu as nuances que trazem Wagner para o Oscar. "Wagner teve uma delicadeza ao abordar um personagem com tantas contradições e com uma vida pregressa que não é evidente no começo do filme. O espectador sabe que aquele personagem está vivendo uma situação complexa, ainda que não se tenha a dimensão, o total, da história. Em pequenos gestos, olhares e movimentações, se nota a gravidade do lugar em que o personagem está", decifra o pernambucano, que se encantou, na tela, dada a profundidade singular e a leveza de uma poesia injetada pelo ator no conflito denso do filme.
Heitor Dhalia foi roteirista de As três Marias, em que Wagner viveu "um tipo dividido pelo destino e por uma cicatriz", e dirigiu Nina, no qual Wagner fazia um personagem cego, "numa cena icônica e muito divertida", e, por fim, conduziu Serra Pelada, com o baiano interpretando o careca vilão Lindo Rico. "Era um cara que trazia duas claves antagônicas, baseadas no humor e numa periculosidade altíssima", relembra. Predicados não faltam ao ator, pela visão de Dhalia: "Wagner tem coragem, força, retidão, e ele aborda o trabalho com seriedade e determinação nas escolhas. É muito legal ter um ator com tanta assertividade, confiança e íntegro na sua trajetória. Admiro e fico muito feliz de ele estar conquistando o mundo com seu carisma absurdo".
Entrevista // Karim Aïnouz, cineasta
Por que torcer para Wagner Moura no Oscar?
Acho que a gente tem que torcer para todos os grandes artistas do mundo serem reconhecidos. Acho que o Oscar faz parte disso. Fico muito feliz. É uma espécie de indicação passível de ter acontecido em todos os papéis que Wagner fez. Ele os interpreta com brilhantismo impressionante. Especificamente, nesse momento, torcemos também porque Wagner, de alguma maneira, representa o estado de saúde do cinema brasileiro, que é um estado de saúde exuberante e cheio de vigor. A gente só a celebrar e torcer muito, independentemente do resultado.
O que calibra a atuação dele em O agente secreto?
O papel dele no filme do Kleber Mendonça Filho é um papel super cheio de camadas, sofisticado, corajoso, engraçado, sedutor e visionário. Só tenho a aplaudir a performance dele no filme. Vida longa ao nosso Wagner, vida longa ao cinema brasileiro, vida longa ao O agente secreto e vida longa aos grandes artistas que permitem com que a gente imagine um mundo diferente, melhor e mais justo.
Qual a dimensão de Wagner? E vê ele movido à politica?
Wagner é um artista gigante, um dos maiores com quem eu já trabalhei na vida — não é só um querido amigo, mas um grande, grande, grande ator. Acho que, como todo grande artista, a camada política é indissociável da camada artística, principalmente quando a gente vem do sul global. É impossível a gente não falar sem uma perspectiva política — e quando falo de política, quero dizer sem ângulo que questione o estado das coisas, como nós estamos. Wagner está sempre questionando como que a gente está trabalhando, qual a função do nosso trabalho, fala das mensagens que a gente quer repassar, com cada obra.
Quais as qualidades do seu também amigo Wagner Moura?
A marca de um grande ator, de uma grande pessoa é a coragem, é a paixão e a generosidade. São coisas intrínsecas ao nosso querido Wagner. Eu acho que ele é um homem corajoso, visionário e apaixonado. Acho que é uma alegria poder estar perto dele, na sua celebração. Não só o Oscar, mas que muitos outros prêmios venham, que mais reconhecimento ainda venha e que ele possa encarnar personagens que estão tão próximos dessas virtudes dele.
