
A depender da perspectiva e da distância, as obras da exposição Geometria da memória, em cartaz no Museu de Arte de Brasília (MAB), engajam diferentes tipos de diálogos, mas sempre cercados por uma mesma temática: como se dão e se entrelaçam as experiências femininas coletivas e individuais. Criada pela artista e escritora Paula Parisot, em parceria com o Coletivo Transverso, a exposição faz parte de um projeto de pesquisa desenvolvido ao longo dos últimos anos entre o Brasil e a Argentina, onde a artista é radicada, sobre temas como memória, identidade e construção de narrativa do passado.
Paula utiliza formas geométricas para evocar fragmentos de memórias e, com tecidos e costuras, faz uma metáfora entre as suturas usadas para unir partes rasgadas de um corpo e o sofrimento causado pela violência. "Nessa exposição, falo muito sobre o que vivi nos últimos 10 anos, como essa experiência se organiza na mitologia da minha própria vida", explica, ao apontar como o individual é, também, parte de uma experiência coletiva. "Assim como as mitologias clássicas estruturam a experiência humana, eu, ao revisitar minha trajetória, minha vida, reconheço arquétipos padrões que se repetem, medos, conflitos e até transformação."
Autora de cinco livros e conhecida por ter sido pupila do escritor Rubem Fonseca, Paula também transita nas artes visuais com obras que misturam atos performáticos e a produção de objetos. Em Brasília, com o Coletivo Transverso, ela realizou projeções que alertam para a violência de gênero. "São imagens alertando sobre todo tipo de violência contra a mulher, não só física, mas moral, psicológica, patrimonial. Hoje me dou conta de que, quando uma mulher é atacada, todas são atacadas. E se a gente não se junta, a gente está ferrada, porque a violência está em tudo."
Para a artista, o feminino é, também, um vocabulário poderoso. "Quando tenho esse vocabulário, posso articular as coisas. Na ausência do meu marido, que morreu muito jovem, fiquei sozinha com duas crianças pequenas e fui lançada num território que me fez entender que a autonomia e a desobediência de uma mulher não é tolerada, a mulher que desobedece é castigada."
Entender a geometria da própria história, os ângulos e as simetrias, ela acredita, permite perceber as repetições e entender como ela deve ser interrompida. "No vídeo da exposição, falo muito sobre a importância de cuidarmos da nossa memória individual para não cair na amnésia coletiva. É muito sobre isso a exposição", diz. "Todas essas obras feitas com tecido, costura, linhas interrompidas são também telas partidas ao meio, telas que são como o corpo da pessoa." De longe, as obras sugerem formas geométricas definidas, mas, ao se aproximar, o observador se dá conta dos materiais e de uma dinâmica mais orgânica.
Geometria da Memória
Exposição de Paula Parisot. Visitação até dia 21 de junho, diariamente, das 10h às 19h, no Museu de Arte de Brasília (MAB)

Diversão e Arte
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