BIOGRAFIA

Entrevista: Fernando Morais lança o segundo volume de Lula

Nesse livro, Morais registra, sobretudo, as campanhas presidenciais entre 1989 e os anos 2000

Afonso Arinos, 
Lula e Ulysses Guimarães 
na Constituinte  -  (crédito: Paula Simas)
Afonso Arinos, Lula e Ulysses Guimarães na Constituinte - (crédito: Paula Simas)

Quando Fernando Morais começou a pensar em escrever um livro sobre Luíz Inácio Lula da Silva, imaginou fazer algo parecido com Os mil dias, no qual o americano Arthur M. Schlesinger Jr. esmiúça a administração de John F. Kennedy. O livro rendeu o Prêmio Pulitzer ao americano, e é um belo trabalho de apuração e análise, mas Lula não gostou da ideia de ter Morais em sua cola 24 horas por dia. "A ideia era contar a história do personagem do lado de dentro da presidência", explica o escritor mineiro, autor de biografias fundamentais para a história do país, como Chatô — O rei do Brasil e Olga. "Lula não topou. Falou 'não quero que você passe quatro anos grudado em mim feito um carrapato'. E eu acabei tendo que fazer um livro diferente do que eu imaginava."

O que Morais queria mesmo era analisar como um trabalhador apenas com o curso primário, que fez carreira na vida sindical, não foi vereador, deputado estadual, prefeito nem governador, exercia a presidência da República. O livro ficou, de fato, diferente, mas a amizade com Lula permitiu uma proximidade que rendeu muito mais que um volume. Fernando Morais lançou Lula — Biografia Volume 1, em 2026, e agora está de volta com o volume 2. Não é uma biografia convencional, com desenvolvimento cronológico e pautada por uma sequência banal de nascimento, vida e morte. Morais navega por uma história muito mais complexa e, se no primeiro livro ele anda de trás para frente ao iniciar a narrativa com a prisão de Lula em abril de 2018, agora é no movimento das Diretas Já, em 1984, e na campanha para presidente nas eleições de 1989 que o escritor concentra a primeira metade da biografia. 

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Há momentos históricos e bastante conhecidos, narrados com a habilidade incontornável de Morais, mas é nas revelações que a biografia ganha tempero ao adicionar fatos costurados nos bastidores da história. É o caso da participação silenciosa do general João Figueiredo, então presidente da República, na campanha das Diretas. Ou da chapa Lula-Tasso Jereissati, atropelada pelo Plano Real e pela candidatura de Fernando Henrique Cardoso. Ou a  parceria entre José Dirceu e a revista Veja na viabilização de reportagem que revelou a declaração de Imposto de Renda de PC Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello, a prova da sonegação engendrada pela movimentação milionária de dinheiro em paraísos fiscais. 

Há, ainda, a história da repórter que se passou por secretária de governador para conseguir um furo de reportagem sobre um racha no interior do PT durante o governo de Itamar Franco. Ou a constatação da enorme dificuldade de Lula em lidar com as derrotas. E foram muitas nos primeiros anos da volta da democracia. "Eu vou conduzindo a carreira dele pelos bastidores que envolveram cada uma dessas eleições ou dessas campanhas eleitorais. Como eu tive o privilégio de não ser do PT, isso facilitou muito a minha vida, eu não tinha uma relação de reverência por ele, de ser um quadro do partido. Não. Eu estava ali como repórter. E com privilégios que repórteres não tinham, que era conviver com ele", conta Morais. Durante 11 anos, o escritor acompanhou Lula em campanhas, caravanas pelo Brasil, palanques, reuniões, gabinetes e, sobretudo, viagens. Foram 18 viagens internacionais a quatro continentes. "E, nas viagens, não tinha telefone, não tinha secretária, não tinha assessor de nada, não tinha deputado, não tinha senador, não tinha puxa saco, não tinha ninguém ali para perturbar", brinca Morais, que muitas vezes advertiu o personagem de que era um repórter, e não um amigo. "Às vezes, ele falava coisas tão indiscretas que eu ficava sem jeito de anotar na frente dele, eu levantava no avião, ia ao banheiro, pegava o caderninho e anotava", lembra o escritor, que conversou com o Correio sobre detalhes da apuração para escrever o livro. 

Entrevista //
Fernando Morais

O primeiro volume da biografia começa com a prisão do Lula e o segundo, com a campanha. Por que optou por essa estrutura?

No primeiro volume, eu acabei optando por seguir um caminho menos convencional. Em geral, você vai fazer biografia, você começa ou com o nascimento do personagem ou com a morte do personagem. Mas eu tive um privilégio inesperado. Quando eu estava acompanhando o Lula para fazer o livro, ouço no rádio que o Moro acabava de decretar a prisão dele em Curitiba. E aquilo atrapalhou meus planos. Na mesma hora, fui para o sindicato, grudei nele e só desgrudei na hora em que ele deitou na cama da cela em Curitiba. Como eu tive o privilégio de estar acompanhando esse pedaço dramático da vida dele, longe da imprensa, sem jornalista por perto, sem político por perto, era muito pouca gente, cheguei à conclusão de que tinha que começar o livro com aquilo, eram informações muito ricas que eu estava obtendo ali e não fazia muito sentido esperar a trajetória convencional do livro para poder chegar nesse material. Tive o privilégio de ser testemunha pessoal das duas prisões dele: a prisão na democracia e a prisão na ditadura, porque quando  o DOI-CODI foi prendê-lo em 1980, eu estava na casa dele. Pensei: olha, o destino do livro está sendo dado pelo próprio livro.

O Lula é seu personagem, mas também seu amigo e o primeiro  personagem vivo que você biografa. Como lidar com isso para conseguir fazer uma biografia que não seja muito laudatória?   

A maneira de resolver esse problema, que era um problema que me preocupava desde que nós acertamos que ia ter livro, foi falar com ele: "Presidente, só tem uma exigência. Eu faço o livro, estou muito honrado, vai ser um um trabalho profissional da maior importância. Agora, tem uma coisa: o senhor só vai ler o livro impresso. O senhor não vai ler nenhuma lauda do que eu escrever." Às vezes, durante esses trajetos com ele, eu chegava a adverti-lo: "Presidente, o senhor está falando coisas na minha frente como estivesse falando com um amigo. Eu não estou aqui como um amigo. Eu vou anotar tudo que o senhor disser e eu vou publicar." Essa indiscrição permanente talvez explique uma coisa curiosa. O primeiro exemplar do livro que saiu, eu levei para ele. E ele nunca disse uma sílaba a respeito. Se gostou, se não gostou do livro. Nem para mim nem para a imprensa.  

Essa é a primeira biografia que você faz de uma pessoa viva e não conta a vida do personagem de maneira convencional. Por que essa opção?

Posso dizer que não vou fazer mais biografia de gente viva. E não é só uma biografia, é um pouco a história do Lula, um pouco a história da circunstância dele. É como se fosse uma árvore que tivesse um tronco grosso, o meio e galhos saindo para todos os lados. Tem hora que eu largo o Lula no meio da narrativa e vou percorrendo um outro caminho atrás de outro personagem ou episódio. Isso não é casual, é deliberado porque é impossível escrever a história de um cara como o Lula sem contar um pouco a história do partido, do movimento sindical e a história política do Brasil. Ele está completando agora 12 anos de governo como presidente da República. Se ele ganhar a eleição, vai entrar para a história do Brasil como o presidente que durante mais tempo esteve na presidência pelo voto direto. Com um personagem com essa trajetória, é inevitável que você saia da figura central para poder contar um pouco da circunstância em que ele agiu assim ou assado, o que ele fez ou como deixou de fazer alguma coisa.

Sobre o trabalho de apuração dos bastidores que você revela no livro, o que foi mais desafiador?

Eu acho que devo isso à nossa profissão.  Nós, jornalistas, desenvolvemos uma natureza adicional que é buscar o que as pessoas não conhecem. A essência do jornalismo é contar o que o sujeito não sabe. Eu acho que o livro é importante para você entender quem é o Lula, presidente da República. E o volume 2 é mais importante que o primeiro. Não teria muito sentido eu fazer uma salada de frutas, um grande resumo daquilo que todo mundo já sabia. Então, eu fui atrás de personagens. É um livro que, apesar de estar tratando de episódios ocorridos há 20, 30, 40 anos, tem bastidor. Um livro de revelações que são novidades para 90% dos leitores, para praticamente todo mundo que não esteve envolvido naquele microcosmo. 

E como você desenterrou essas revelações?

Fazendo o trabalho que eu fazia nas redações, indo atrás das pessoas e perguntando.  O Tasso Jereissati, por exemplo, eu fui procurá-lo e, na primeira vez, ele rechaçou um pouco. Disse "Ah, não, o que que existe já foi tornado público". E, aí, eu vou e bico, bico, bico, vou atrás, insisto e acabo descobrindo coisas que torna o livro atual, apesar de ser um livro histórico.

Que momento você destacaria como um dos mais significativos da apuração e do livro?

Uma coisa que me chamou muito a atenção, muito mesmo, foi o choque causado no Lula primeira caravana (pelo Brasil). Ele estava repetindo uma coisa que ele tinha feito quando era pouco mais que um bebê, com 4 anos de idade, quando foi com a família de Garanhuns até o Guarujá, em São Paulo. Para meu espanto, ele descobre, durante a caravana, que o Brasil piorou. Em 50 anos, o Brasil piorou. Ele, que viveu uma vida miserável, uma vida dramática, uma vida cheia de tragédias familiares pesadas, se espanta ao chegar num lixão, na viagem da Caravana da Esperança, e as pessoas estão comendo lixo. O impacto que isso causou foi enorme. Eu chamo de doutorado em Brasil profundo. O Lula fez um doutorado no Brasil profundo.

Pensando no Brasil de hoje e das últimas décadas, que paralelo é possível fazer com toda essa história que você conta nos dois livros? Afinal, Lula, seu personagem, está no terceiro mandato…

Fazer história de personagem vivo é mais mau do que bom. Mas, ao mesmo tempo, tem uma coisa que é insubstituível que é o olho do autor. Essa é a vantagem de fazer história de alguém vivo. Mas, ao mesmo tempo, você vai estabelecer uma comparação entre o Brasil de hoje e o Brasil de quando o Lula começou, lá em 2000, 2002. O Brasil melhorou. Agora, curiosamente, e isso me espanta muito, a democracia não se consolidou, ao ponto da a gente estar na situação que está hoje. A consolidação da democracia é um processo tão frágil que você tem medo de que alguém que é contra a democracia possa ganhar as eleições. Nesse sentido, o livro tem um lado meio cabotino, mas é pedagógico mostrar para as pessoas que a gente pode piorar. Existe um risco. Houve melhoras substantivas, as pessoas mais pobres, de origem socioeconômica mais modesta, vivem melhor hoje do que viviam. A gente pode ver um Brasil melhor para eles, mas, ao mesmo tempo, a gente não pode dormir com os dois olhos fechados. Tem que dormir com um olho na democracia e um olho naqueles que não querem a democracia.

 


  • Afonso Arinos, 
Lula e Ulysses Guimarães 
na Constituinte
    Afonso Arinos, Lula e Ulysses Guimarães na Constituinte Foto: Paula Simas
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De Fernando Morais. Companhia das Letras, 352 páginas. R$ 89,90
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  • Olívio Dutra, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva numa manifestação pelas Diretas Já no centro da cidade de 
São Paulo, em 1988
    Olívio Dutra, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva numa manifestação pelas Diretas Já no centro da cidade de São Paulo, em 1988 Foto: Jesus Carlos/Imagens
  • Lula — Biografia Volume 2
De Fernando Morais. Companhia das Letras, 352 páginas. R$ 89,90
    Lula — Biografia Volume 2 De Fernando Morais. Companhia das Letras, 352 páginas. R$ 89,90 Foto: Renato Parada
  •  Adhemar de Barros Filho, Brizola, Lula e OL..vio Dutra- Uma manifesta....o pelas Diretas J.. na Pra..a da S.., S..o Paulo. SP 1988. Foto: Jesus Carlos/Imagens.
    Adhemar de Barros Filho, Brizola, Lula e OL..vio Dutra- Uma manifesta....o pelas Diretas J.. na Pra..a da S.., S..o Paulo. SP 1988. Foto: Jesus Carlos/Imagens. Foto: Foto: Jesus Carlos/Imagens
  • Lula carrega marisa - (c) Januário F. da Silva
    Lula carrega marisa - (c) Januário F. da Silva Foto: Januário F. da SIlva
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postado em 31/03/2026 00:01 / atualizado em 31/03/2026 09:53
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