Quem esqueceu do efeito Parasita, em 2020, quando o longa-metragem da Coreia do Sul venceu prêmios de melhor filme e melhor filme internacional, reavivou o espanto? Mas, agora, com o gosto do jeitinho brasileiro, O agente secreto causou em Hollywood — no melhor dos sentidos — no palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, com marcantes quatro indicações para o cinema brasileiro. Um ano depois da vitória de Ainda estou aqui, de Walter Salles, o filme pernambucano de Kleber Mendonça Filho ramificou a projeção internacional do Brasil, na festa do 98º Oscar, acompanhada por 20 milhões de norte-americanos, afora o público em mais 200 países. Os gols podem não ter chegado, mas as batidas na trave falaram alto.
"É um filme de que eu gosto muito, por retratar a ditadura de uma outra maneira, que é muito importante, que é mostrar como é que ela se espalhava na sociedade inteira. Não é uma coisa simplesmente ter uma vítima: todos eram contaminados por aquilo. Eu acho que o filme mostra muito bem isso", destaca a cineasta Lucia Murat. Apesar de todos os problemas vividos pelo cinema no Brasil, em particular a briga pelo VoD (percentual de participação brasileira entre lucros de empresas internacionais que exploram nosso mercado de streaming como Murat enfatiza: "Temos tido realmente uma repercussão internacional muito boa com os nossos filmes — o que dá uma cara muito boa para o cinema brasileiro", ela emenda. Lucia lembra que houve uma época em que a Argentina estava no topo, em termos de cinema. "Eu estava em Paris, lançando um filme por lá, e tinha só o meu filme de filme brasileiro, numa conjuntura de vários filmes de Argentina, e que eram muito piores do que vários filmes brasileiros. Quer dizer, era claramente uma coisa de onda. Existe uma onda e, então, é maravilhoso que, no momento, a gente seja a onda", aponta a diretora de Hora do recreio.
Isabella Faria, crítica cinematográfica e votante no Globo de Ouro, acredita que o cinema brasileiro está em uma ótima onda de criatividade, reconhecimento de diretores, assim como aconteceu com o cinema espanhol e coreano, como afirma Lucia Murat. Para ela, a grande diferença e a solução para aproveitar a boa onda é o marketing em relação aos filmes. " Não adianta a gente ter filmes de qualidade como a gente tem e produtoras e distribuidoras não terem dinheiro para propagar esses filmes pelo Brasil e pelo mundo. Não adianta nada a gente fazer um filme para mostrar para meia dúzia de pessoas o seu ciclo social", ressalta. Para a crítica, é necessário inserir os filmes no mercado justamente para valorização do cinema nacional, como foi feito com Ainda estou aqui e O agente secreto.
Mesmo sem vitórias no Oscar, Isabella ressalta que a trajetória foi muito engrandecedora. "Fomos indicados a quatro Oscars. A gente igualou o recorde de Cidade de Deus. A campanha foi muito bem feita e eu acho que o caminho do filme sobre o cinema brasileiro atualmente é justamente isso. É preciso uma campanha, é preciso dinheiro para a gente ser visto no Brasil e no mundo. Quanto mais filmes a gente colocar no mercado, mais pessoas vão ver, mais pessoas vão querer ir ao cinema e o ciclo continua girando", finaliza.
Quem se mostrou algo satisfeita com resultados da premiação foi Tatiana Carvalho Costa, presidente da Apan (Associação de Profissionais do Audiovisual Negro). "Os (quatro) prêmios que Pecadores recebeu são super importantes para a presença negra no cinema, no geral. O filme e a vitória seguem abrindo caminhos. Cinema é uma construção coletiva e uma arte permanentemente ameaçada. Sobretudo, cinemas negros. Muita coisa que está em jogo para um filme de um realizador negro existir", destaca. Claro que Tatiana Carvalho lamenta O agente secreto não ter levado. "É fato que brasileiros foram indicados para cinco categorias, neste mesmo ano (contado Adolpho Veloso, diretor de fotografia), e numa festa que não é nossa. É uma festa, fundamentalmente, dos Estados Unidos, mas que projeta os filmes para o mundo inteiro e o efeito disso para o cinema brasileiro como um todo, no sentido de um reforço, de um reconhecimento, reflete, internamente, no país, como exemplo de qualidade e importância do nosso cinema e cultura brasileira", avalia.
A representante da Apan nota circunstâncias positivas "para nos fazer olhar mais para o cinema negro brasileiro". O Oscar, obviamente, não encerra um ciclo para o cinema brasileiro, como Tatiana defende. "O cinema negro brasileiro esteve, internacionalmente, no recente Festival de Berlim, com filmes do André Novais Oliveira, da Grace Passô, e da Karen Suzanne. Temos caminhos para onde olhar. É vital seguir vibrando nessa energia boa para o cinema brasileiro que o Oscar despertou e m todos", arremata.
Produtiva jornada de Wagner Moura
"O personagem que interpreto (em O agente secreto) não está tentando derrubar o governo (ditatorial do ano de 1977) — ele apenas está tentando se manter fiel aos seus valores em um mundo onde tudo ao seu redor diz exatamente o contrário", declarou Wagner Moura em entrevista internacional a W Magazine, há dois meses. Na mesma ocasião, ele tratou da recusa em seguir interpretando "traficantes, valentões e latinos", depois de estrelar Narcos, série que contornou a suposta má-vontade dos norte-americanos com obras dependentes de legendas. Questionado, na dança dos idiomas dos quais lança mão, Wagner contou da língua que lidera seus sonhos: o português.
Foi no idioma nativo que o ator, nascido em Rodelas, no sertão da Bahia, deu grandes passos artísticos, como a participação na peça A máquina (de João Falcão) e a participação na novela Paraíso tropical (2007). Nas telonas, esteve em Deus é brasileiro (de Cacá Diegues), Saneamento básico, o filme (de Jorge Furtado), e, já com projeção internacional, em Praia do Futuro (de Karim Aïnouz). Um caminho e tanto para quem se afirmou ao lado dos astros Ryan Gosling e Chris Evans, no filme Agente oculto (2022).
A trajetória de Wagner nos cinemas é nutrida por audácia. Para a composição de Lindo Rico, personagem do longa Serra Pelada (2013), ele surpreendeu até mesmo o diretor Heitor Dhalia. "Sem ainda falarmos de caracterização do personagem, um belo dia, vou ao hotel em que Wagner estava, e ele desce, careca, com uma meia-careca. Ele me disse que viu o personagem assim, e sem consultar, raspou o cabelo", contou o cineasta pernambucano, ao Correio.
Na pele de Marcelo (protagonista perseguido de O agente secreto), na representação da ditadura dos anos de 1970, Wagner contou, recentemente, ao veículo estrangeiro Sidewalk Entertainment, do retorno à atuação em português, depois de 12 anos e do anseio acalentado por 20 anos de trabalhar com Kleber Mendonça Filho. Emendou ainda sobre o embrião criativo de O agente secreto, derivado da "perplexidade entre 2018 a 2022", a partir de "um governo fascista" desejosos em resgatar "valores da ditadura".
O eterno Capitão Nascimento do longa vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, Tropa de Elite (2007), numa estatura internacional ainda mais sólida, com o prestígio da indicação ao Oscar, observou ao The Guardian: "Ainda existe muito preconceito contra nós (do Nordeste). Como ator, se você vai trabalhar no Rio ou em São Paulo com esse sotaque, acaba relegado a interpretar o tipo engraçadinho ou o porteiro. Minha atitude, e a do Kleber (Mendonça Filho, diretor de O agente secreto) também, é: 'Que se dane!'".
Passada a tempestade e a revolução do período Oscar, Wagner tem alguns focos já estabelecidos para o ano de 2026, que, para ele, parece estar apenas começando, depois do carnaval demandado pela corrida pelo sonho dourado. Além da promessa de apresentações teatrais; no Brasil, o astro estará na refeitura de Gosto de cereja (clássico do iraniano Abbas Kiarostami) a ser filmado no Brasil, sob direção do argentino Lisandro Alonso, e, ao fim do ano, dirigirá um longa: Last night at the Lobster, ambientado em decadente restaurante da Nova Inglaterra. Noutro projeto, conduzido por Rachel Rose, junto com a premiada sueca Alicia Vikander (A garota dinamarquesa), Wagner integra o elenco de The last day, adaptação de Mrs. Dalloway (de Virginia Woolf) movida a discussões sobre maternidade.
