Para quem deseja contribuir para que o cinema brasileiro perpetue a maré favorável há um recado do cineasta Claudio Torres: "Corram para o cinema, esse fim de semana!". À frente da comédia Velhos bandidos, estrelado por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, Torres (filho de Fernanda) reitera, com a fita, a satisfação de ter dirigido, no passado, os três únicos intérpretes brasileiros a concorrer ao Oscar (as parentes Fernandas e Wagner Moura): "Recebo essa bênção como uma bênção. Vem alegria, misturada com orgulho e agradecimento". A liga da dupla Ary e Montenegro, na telona, como senhores do crime, só encerra elogios: "Ary é um gênio. Conheço ele desde que era garoto quando meus pais ensaiavam as peças de teatro em casa. Se meu pai, Fernando Torres, estivesse vivo, o papel seria dele. Não conheço pessoa melhor para substituí-lo".
Surfando na onda da comédia, Claudio enaltece que não existe gênero melhor para celebrar a vida e, ao mesmo tempo, refletir sobre ela. "Só vivendo o presente que a gente fica vivo para talvez chegar ao futuro", destacou em recente entrevista para a BBC, a sábia e ilustre mãe de Torres, que, na ocasião, reforçou o hábito de "acordar e cantar". No filme, que ainda traz Vladimir Brichta e Bruna Marquezine no elenco, a serenidade imperou nas filmagens. "A serenidade foi mais do que plena! Parecia ceia de Natal! Esse filme é uma homenagem à minha mãe, e, em torno dela, conseguimos juntar um elenco inacreditável. Mesmo que em cenas curtas. O que eleva a qualidade do filme, infinitamente", avalia o diretor de filmes como O homem do futuro e A mulher invisível.
Ciente de que o sistema cinematográfico "anda cruel" e movido por salas cheias, Torres defende que Velhos bandidos seja um filme que vale a pena ser visto na tela grande. "Estes atores não cabem na tela pequena, e garanto aos espectadores que, quem assistir, sairá do cinema mais leve, mais feliz e esperançoso. O mundo está precisando de mais amor e menos guerra", resume.
Antes mesmo de a matriarca dos Torres pontuar que "vivemos um momento em que a estrutura governamental está na mão do crime", Claudio Torres destrinçou questões éticas como potenciais para a nova fita. "Dilemas éticos são parte fundamental de qualquer boa história, desde a Grécia. Vamos ao cinema e ao teatro para assistir situações limites. Para sentir, nos projetar ou refletir o que faríamos diante destas bifurcações trágicas da vida. Ver Édipo cegar seus próprios olhos pois, sem saber, se casou com a própria mãe, é algo que vem da história oral da nossa espécie. Você não precisa fazer isso: Édipo fez por você", sublinha o cineasta.
Surpresas, emoções e diversão foram administradas pelo diretor e equipe, pelo que conta. "Velhos bandidos é um filme multigeracional, para jovens de todas as idades", defende. A qualificação do público vem ampla, na perspectiva de Claudio Torres. "É um filme para todos. Independentemente de idade, classe social, ou orientação politica. É um filme sobre envelhecer com sangue nos olhos, ser jovem e correr atrás de seus sonhos e da busca pelo afeto, algo de que precisamos desesperadamente nos dias de hoje", conclui.
Entrevista // Claudio Torres, cineasta
O que representam as recentes conquistas do cinema nacional?
A meu ver, o reconhecimento internacional é tão importante quanto a aceitação de um filme nacional, mas de forma diferentes. Nossos filmes que têm sido reconhecidos e premiados lá fora, como o O agente secreto, Ainda estou aqui, Democracia em vertigem, A vida invisível, Cidade de Deus, são filmes que trabalham para evoluir a própria linguagem do cinema. São dramas feitos por cineastas que mantém a arte cinematográfica instigada, viva e em estado de evolução. Já os filmes voltados para as bilheterias nacionais (Velhos Bandidos é um exemplo), visam o diálogo com o público direto. Espero que os ventos continuem a soprar a favor do cinema nacional. O mundo está se abrindo para filmes não falados em inglês e curioso em entender as realidades de outros países, como é o caso do cinema coreano.
Onde e como você usa "o luxo do tempo" para estar ao lado de dona Fernanda Montenegro?
Conversamos, conversamos e conversamos. Às vezes, viajamos. Uma grande companheira de vida.
O que fazer para não perder o timing da visibilidade do cinema nacional?
Ter um governo que entenda que o audiovisual e a indústria se misturam. Cinema produz arte, eterniza nossa história, nossa identidade, humor e realidade, ao mesmo tempo em que movimenta uma economia gigante em torno disso.
Fernanda Montenegro contribui em que medida — o que só ela oferta?
Ela sempre contribui. E muito. Neste caso, (no filme) foi trazer a questão de que o assalto (na ficção) era uma reparação a uma injustiça cometida, há 40 anos, contra seu marido, Rodolfo (papel de Ary Fontoura).
Qual o público de hoje para o cinema?
Arriscar números é impossível. O cinema está em crise mundial. A pandemia interrompeu um círculo virtuoso e toda uma geração perdeu o hábito de ir assistir a um filme ao lado de estranhos, sofrendo, torcendo, rindo e vibrando juntos. É um sentimento inexplicável que precisa ser retomado. Pais! Tirem seus filhos da frente do celular e levem eles ao cinema. Laurence da Arábia não cabe (na tela) do celular, e, assistir a Star Wars, sozinho, é muito triste.
