
Exemplares da corrente de cinema espírita prestigiada pelo público não faltam ao Brasil, levando-se em conta filmes como Chico Xavier, Bezerra de Menezes, E a vida continua... e Divaldo — o mensageiro da paz. Num país com quase 2% população seguidores da doutrina espírita, e mais de 30 milhões de simpatizantes, em população que segue majoritária, em termos de vocações cristãs e evangélicas, um dos grandes fenômenos de público na telona atende pelo nome de Wagner de Assis, cineasta de 53 anos, responsável por títulos como o documentário Chico para sempre e os marcos Nosso lar (2010) e Nosso lar 2 (2024). A Kardec e Ninguém é de ninguém, agora, o diretor Assis ainda soma mais um título, a partir de hoje, nas salas: O advogado de Deus (a partir de escritos de Zíbia Gasparetto e da entidade Lucius).
Um dos roteiristas da novela Além do tempo (2015), Assis só com a saga Nosso lar atingiu público superior a 5,5 milhões. Associado a astros como Edson Celulari, Carlos Vereza, Nelson Xavier e Lima Duarte, o cinema conectado ao mundo dos espíritos agora, com O advogado de Deus, ganha o reforço de artistas como Nicolas Prattes, Beth Goulart (que esteve, nos anos de 1970, no clássico Joelma, 23º andar), Lorena Comparato, Lucas Letto e Eucir de Souza, Henri Pagnoncelli e Gisele Fróes.
Para além dos efeitos visuais a cargo de Zeca Esperança, o longa tem relevância específica para a direção de elenco (função valorizada no Oscar, com nova categoria no Oscar, e na qual o brasileiro O agente secreto competiu), desta vez, a cargo de Enrico Callado e Viviane Ávila.
Mas, afinal, ter atores experimentados, e experientes com a doutrina, abriria caminhos de conhecimento (para o longa)? "O ofício de atuar é tão mágico que permite que a inexperiência sirva à história, por vezes. Noutras, o conhecimento prévio de temas ligados à história pode ajudar. Mas, em geral, a escolha de elenco é das coisas mais difíceis de se fazer um filme — ao menos para mim. Como premissa, jamais convido alguém para contar uma história comigo em função de uma posição pessoal ligada à espiritualidade e à religião. Isso seria um contrassenso total. A proposta é sobre talento, imagem e compromisso", conta Wagner de Assis, em exclusiva ao Correio.
Na trama de O advogado de Deus — composto por dilemas sociais e injustiças do passado — um profissional traz veia altamente idealista. Um dos futuros processos em que se envolverá traz como protagonista Alberto, posicionado como vítima. Sede de vingança se mistura à caça da verdade, na trama em que os envolvidos ainda se vinculam à personagem Lídia e à aparentemente aristocrática Maria Júlia.
Entrevista // Wagner de Assis, cineasta
Você recebe que tipo de retorno com seus filmes? O feedback é amplo ou mais condicionado a um filão de entusiastas do espiritismo?
Ah, isso é quase um livro sem fim. É também de um prazer imensurável. Lá se vão 30 anos — ano que vem — da produtora. Mais de uma dezena de filmes. E isso é semanal, diário, de algum lugar do mundo. O que me prova que não há o menor sentido em circunscrever o tema a um filão religioso. Espiritualidade interessa a todas as pessoas. Em todos os países do mundo, posso afirmar. Mesmo os mais fechados e sem liberdades. O espiritismo é um manancial de conhecimentos que alimenta — e ainda alimentará — incontáveis histórias porque ele nasce das relações humanas e das realidades que nos cercam. Traz um paradigma de vida que é muito potente e reverbera muito sempre.
Sente mudança no teu senso de espiritualidade, desde as incursões na temática?
Sinto que seremos "metamorfoses ambulantes" quando nos propomos a investigar as fronteiras que são as mais importantes para nós, como seres humanos, e elas são o conhecimento espiritual que nos cerca, que é sempre perseguido ao longo da história.
O que mudou na sua vida?
Desenvolver uma fé raciocinada, por exemplo, é um exercício diário de transformação — e os filmes propõem reflexões, emoções, conexões que são muito relevantes, ao menos para mim. Ou seja, tudo muda o tempo todo comigo quando estamos falando de realidades eternas. E isso é o mais maravilhoso de abordar essa temática num meio de comunicação e arte tão poderoso como o cinema.
O que atores, individualmente, agregaram à trama?
Não há algo mensurável nisso. Mas há detalhes da atuação que é construída junta, por exemplo, em que você pode ver que aquele momento, ou aquela sensação, reflete mais nesse ou naquele personagem interpretado. Ter a Beth Goulart, por exemplo, que tem em seu DNA familiar uma ligação direta com o tema espiritualidade, espiritismo, é um luxo, mas ela empresta pro personagem algo que está muito além disso. Assim como ter a Lorena Comparato, que tem no DNA a dramaturgia, ou o Nicolas Prattes, que atua desde criança. O Lucas Leto, que tem ligações diretas com o candomblé, por exemplo.
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