Literatura

Autoras de Brasília refletem sobre humanidade em obras que beiram ficção científica

Livros de autoras de Brasília refletem sobre a humanidade e sua efemeridade em histórias que beiram a ficção científica

Dois detalhes dão sinais distópicos no novo romance de Fabiane Guimarães, A linguagem dos desastres. O primeiro fala sobre intensidade de uma seca fora do comum e a expectativa de um incêndio de proporções apocalípticas no Planalto Central. O outro traz personagens que se sentem à margem por terem decidido levar adiante uma gravidez e trazer a um mundo perigosamente populoso mais um ser humano destinado a consumir os recursos do planeta. Mas são sinais muito sutis nessa narrativa que tem Brasília  como cenário da saga de Catarina, filha não planejada e muito amada de um casal de habitantes do Jardim Mangueiral. 

Quando começou a escrever o livro, logo depois da pandemia, Fabiane não queria mergulhar novamente em um romance sobre a maternidade, tema que marca Como se fosse um monstro, publicado em 2023. A ideia era explorar os meandros da ficção climática, as possibilidades de uma história cujo fundo seria o colapso ambiental e na qual o fogo, elemento tão presente no Planalto Central, tivesse grande relevância. Mas a parentalidade acabou por se infiltrar na narrativa. "Adoro ler romances com essa pegada distópica climática, mas um aspecto desses livros que muitas vezes me incomoda é que quase todos olham para um mundo muito avançado, para um período distante, quase uma ficção científica", explica. "E eu queria um futuro muito reconhecível, tanto que foi uma opção não dizer quando a história se passa, porque já estamos vivendo isso. O futuro que trabalho no livro é o que estamos vivendo hoje, estamos vivendo a crise climática e ela está se dissolvendo nos nossos dias. E vai piorar."

A linguagem dos desastres é o livro mais brasiliense de Fabiane, nascida em Formosa (GO), mas radicada na capital federal desde muito jovem. Aos 34 anos, depois de ter sido indicada aos prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e Candango, a autora tem um projeto literário que envolve narrativas ágeis e  envolventes com temáticas ou personagens eventualmente ligados ao Centro-Oeste. " É minha marca. É como eu gosto de escrever. Gosto dessa fluidez narrativa, sou uma pessoa que cresceu com o gênero do suspense, gosto de prender o leitor, fazer deslizar pelas páginas", avisa.

Brasília foi importante ao ponto de fornecer o tema para a autora. "O cenário de Brasília foi responsável por me dar essa ideia do livro. As paisagens de Brasília, as queimadas, a seca me inspiraram a escrever o livro assim. Essa história não poderia existir em outro lugar porque os lugares são muito marcados", diz.

Quando éramos imortais

Os imortais é um livro curioso, talvez o mais original e diferente que o leitor terá em mãos este ano. Na história imaginada pela brasiliense Paulliny Tort, um bando de neandertais vaga por paisagens pré-históricas em busca de abrigo e comida. Enfrenta as intempéries das estações, as manifestações do ventre do planeta, o perigo das caçadas necessárias para a sobrevivência, mas também, e principalmente, o desconcerto do encontro com outros hominídeos e o espanto diante da vida e da morte.

Identificados apenas como a Velha, o Homem, a Mulher, o Pequeno, a Menina, os personagens carregam, ao mesmo tempo, as características mais primitivas e mais sofisticadas do gênero homo. No livro, o clã de neandertais é perturbardo pelo encontro com indivíduos sapiens, e a convivência vai marcar um destino que, no alvorecer da humanidade, carrega a essência de toda uma espécie. É um tempo de linguagem ainda incipiente, de fronteiras confusas entre o mundo visto e o imaginado, de  medo pautado por um desconhecido de proporções incomensuráveis e de uma vida que, de forma simples, já comporta narrativas.

É no exercício de imaginar o trânsito entre pensamento e linguagem, entre as noções de existência e morte e entre o impacto das diferenças nos encontros humanos que Paulliny tece uma narrativa nada óbvia e profundamente tocante.

“Eu acredito que as histórias meio que já existem em algum lugar e a gente só sintoniza, que nem o rádio vai ajustando a frequência. A gente vai captando o que aqueles personagens querem fazer para que eles tenham uma espécie de existência”, explica a autora, quando questionada sobre a origem de Os imortais. “Mas eu leio, desde muito jovem, sobre o tema, sobre esses outros humanos que habitaram o mundo com a nossa espécie e que compartilharam o mundo com a nossa espécie por muitos anos. Os neandertais tiveram uma prevalência na Terra por, acredita-se, 300 mil, 400 mil anos. Eles viveram por muito tempo. E eu sempre me interessei pelo assunto”, conta.

Enquanto escrevia o livro, Paulliny pensou que o ponto central da narrativa era a morte, uma ideia muito presente ao longo de toda a história, marcada por fomes, caçadas mortais, lutas entre bandos e adoecimentos inevitáveis. Mas a autora mudou de ideia quando se deu conta de que, na verdade, todos os personagens queriam viver. E o eterno desejo de imortalidade, uma marca da espécie humana, passou a tomar uma dimensão maior. “Não tem nada mais finito do que a matéria, do que a ideia de que o universo inteiro vai acabar. Quando a gente para para lembrar e pensar que existiram outras espécies humanas, que são do gênero homo também, como o homo neanderthalensis, acho que isso dá uma dimensão mais realista do nosso lugar na biosfera, no universo. Porque essa ideia do antropoceno, de que o homem é o centro da existência, é muito equivocada, é muito falha”, diz. “E eu acho interessante a gente ser lembrado disso, de que há outros seres, de que o universo não foi feito para a gente desfrutar e dispor dele como quiser. É bom lembrar disso, né?”.

Autora de Erva brava, livro de contos que venceu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e foi finalista do Jabuti, e de Allegro ma non troppo, semifinalista do Oceanos, Paulliny lembra que a humanidade acabou de passar por uma pandemia e enfrentou, de forma coletiva, uma noção muito concreta de finitude. “Foi traumático. E aí a gente vê o quanto a nossa espécie é, na verdade, frágil. Então o desejo de imortalidade talvez seja mais um lembrete de que ela é impossível”, acredita. Ainda assim, é a crença nessa ideia que permite a criação e sustenta a vontade de viver dos personagens de Os imortais. 

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Renato Parada - Escritora Paulliny Tort
Fosforo - Os imortais De Paulliny Tort. Fósforo, 228 páginas. R$ 84,90
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