Crítica

'O diabo veste Prada 2' aposta na queda de império e no valor do jornalismo

Comédia satiriza os bastidores da moda, exalta o jornalismo e chama atenção para a importância da autocrítica como antídoto das imperfeições humanas

Meryl Streep é Miranda Priestly, e Stanley Tucci vive o assistente Nigel, na continuação da comédia -  (crédito: Fotos: Walt Disney/ Divulgação)
Meryl Streep é Miranda Priestly, e Stanley Tucci vive o assistente Nigel, na continuação da comédia - (crédito: Fotos: Walt Disney/ Divulgação)

O diretor é o mesmo de Marley & eu (2008) e de episódios da série Sex and the city (finalizada em 2004), mas, mais importante o mesmo David Frankel de O diabo veste Prada, feito em 2006, e que rendeu mais de US$ 420 milhões, a partir de US$ 37 milhões. Diversão amena desfila na tela em que se avança em relação ao primeiro filme, para além da graça dos bastidores da moda; agora incorporando temas como o da importância do jornalismo e da autocrítica em relação a muitas imperfeições humanas.

Há liquidação na trama do filme, mas, em nada, se trata de pechincha: a liquidação encerra o extermínio de posições trabalhistas e ainda o fim da tradição da revista Runway, sede para as maldades de Miranda Priestly (Meryl Streep, um crème de la crème, por si só). Andy Sachs (Anne Hathaway), num novo patamar (mas ainda desesperada por reconhecimento) é selecionada para resgatar a reputação de instituição centenária, e é vista como um "capricho" do CEO da publicação de moda. "A contratação é dele, o problema é meu", dispara Miranda, com as nuances de olhares de desentendida ou de presunçosa, formatados por Streep.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Depois do fiasco de Casa Gucci (2021), até Lady Gaga muda de maison, e contribui para o sucesso do novo filme, entoado (com Doecci, na trilha sonora, com Runway). O desenho de produção de Jess Gonchor (de Onde os fracos não têm vez e Adoráveis mulheres) é impecável, a exemplo da dinâmica edição de Andrew Marcus (das equipes recorrentes em fitas de Kenneth Brannagh, presente no elenco).

Demissões feitas ao telefone, piadas perigosas com tráfico humano e muitas indiretas estão na passarela da comédia que trata de crise e da integridade jornalística, em meio à falsidade e ao restrito acesso para itens como produtos de luxo colocados no varejo e os imóveis reformados com quê kitsch em áreas seculares. Nessa conjuntura, íntegra, sem se render aos "tapinhas nas costas" dos ambientes corporativos, segue Andy (que reencontra o apoio de Emily, papel de Emily Blunt) agredida pelas grosserias de Miranda, que visa sustentar pose e posto, frente a incontornáveis mudanças sociais. Numa das boas cenas, Andy se vê deslocada, nos Hamptons (o circuito dos privilegiados de NY), com roupa emprestada e navegando em códigos de formalidade. Para adocicar a trajetória, a jornalista ganha a companhia de Peter (Patrick Brammal), um promissor pretendente.

Às vias de se tornar chefe de conteúdo global da Elias-Clark (conglomerado que publica a Runway), Miranda traz mais nuances, desde o roteiro assinado por Aline Brosh McKenna, sendo tratada, aos solavancos, com direito a um tapa no ombro e às impagáveis cenas de sua presença em um refeitório ou num voo de classe econômica. Entre relações invisíveis, a narrativa brinda a silenciosa eficiência de Nigel (Stanley Tucci), braço-direito de Miranda que, no fundo, parece ambidestra.

 

  • Google Discover Icon
postado em 01/05/2026 10:41 / atualizado em 01/05/2026 10:59
x