Livro

José Castello fala de personagens invisíveis em novo livro de crônicas

Histórias miseráveis, novo livro de crônicas de José Castello, fala de personagens que habitam a cidade

Escritor José Castello -  (crédito: Divulgação)
Escritor José Castello - (crédito: Divulgação)

Para José Castello, a matéria da literatura é a liberdade. É, portanto, com o espírito livre que ele escreveu as crônicas de Histórias miseráveis, que a Maralto acaba de publicar. A coletânea reúne 35 crônicas originalmente publicadas entre dezembro de 2016 e setembro de 2023   no jornal Rascunho e no Suplemento Pernambuco. 

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São histórias que, de alguma forma, encontram âncoras na realidade, no cotidiano, no caos do dia a dia ou nas memórias de um escritor. Em comum, elas trazem o olhar observador do autor. “A realidade é tensa e inconstante. A imprevisibilidade a define. Na crônica clássica, o cronista é aquele que anda e, placidamente, observa o mundo. O cronista é Rubem Braga, que, nas ruas do centro do Rio, corre atrás de uma borboleta amarela. Talvez a diferença de minhas crônicas esteja apenas em um detalhe: meu cronista caminha e observa o mundo, mas, mais que isso, ele pretende interferir nesse mundo. Ele o desafia e interroga”, explica o autor. 

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O cronista é o próprio Castello, embora, como ele diz “as coisas que relato aconteceram, mas não aconteceram”. A realidade do cronista é traiçoeira e indigna de confiança, ele acredita. “O leitor é arrastado para esse estado de perigo e indefinição. Esse grande pântano em que todos tentamos sobreviver”, diz o autor, que conversou com o Correio sobre as felicidades e tristezas de escrever crônicas.  


Histórias miseráveis

De José Castello. Maralto, 156 páginas. R$ 65,90

Entrevista//José Castello

Qual o maior desafio na arte de escrever crônicas?

A literatura não se faz com a submissão a regras, a cânones, ou a padrões. A matéria da literatura é a liberdade interior. Nela, cada escritor deve inventar seu caminho. Então, posso no máximo falar de minhas regras. Não parto de esboços, rascunhos ou sinopses. Escrevo às cegas. Parto de uma palavra, uma imagem, uma frase, mas nunca sei aonde pretendo chegar. As palavras puxam as palavras. O texto se desenrola e me arrasta. No meu caso, o maior desafio é conseguir me entregar a esse fluxo da escrita, que inclui memórias, devaneios, visões, sonhos, invenção. Entregar-me e aceitar o caminho que ele me abre. O cronista não é só cego, ele é também um escravo da palavra.  


 O que não pode faltar numa crônica?

Desde Rubem Braga – o grande fundador da crônica moderna brasileira – a crônica se define pela flutuação entre a realidade e a imaginação. Entre a vida e a fantasia, a crônica oscila e dança. Quando lemos uma crônica, não importa saber o que é verdadeiro e o que é falso. A crônica nos oferece uma visão imaginária da realidade. É um gênero limítrofe, que transita entre a invenção e o real. Mas, ao contrário das fake news que hoje infestam o mundo, fake news de deturpam e distorcem a realidade para dela tirar proveito, a crônica expande a realidade, vasculha seus pontos secretos, seus segredos que, por desatenção ou preguiça, em geral desprezamos. Em vez de roubar algo dela, a enriquece.


O que uma história ou um personagem precisam ter para te interessar e virar uma crônica?

Para um cronista, o que importa não é a história, ou o personagem, mas o olhar inesperado e singular que ele consegue abrir sobre eles. O cronista não precisa de grandes histórias, ou de grandes personagens. Ao contrário. As crônicas de meu Histórias Miseráveis tratam não de heróis, ou de personalidades, mas de seres pequenos e invisíveis que, quase sempre, nos negamos a ver. Pessoas que vivem nas ruas enroladas em trapos e jornais. Indivíduos pequenos e assustados, que circulam em desamparo pelas frestas das cidades. Seres fracassados e insignificantes que, no entanto, continuam a ser humanos e, mais que isso, são nossos irmãos. Minhas crônicas tratam da miséria humana. Não só da miséria material, que em geral nos negamos a ver, mas também de nossa miséria espiritual. Diante do drama da vida, em geral nos sentimentos insuficientes e até impotentes. O fracasso nos espera a cada esquina. Viver é resistir ao turbilhão do mundo. Somos todos sobreviventes. Somos todos miseráveis. 


 Você diz que suas crônicas têm uma atmosfera pessimista e melancólica. Por que? De certa forma, eles são mais interessantes para uma crônica?

Há poucos dias, os astronautas que foram à Lua falaram disso. Vivemos em um pequeno planeta, solitário e desprotegido, que navega sozinho na escuridão. Ao nosso redor, na tenebrosa noite cósmica, divisamos planetas mortos e trilhões de estrelas que queimam e explodem no vazio. No dia a dia, evitamos pensar nisso. Nos consolamos com falsas riquezas, com a estupidez do sucesso e com a ilusão do poder. Contudo, não passamos de poeira cósmica. Enquanto isso, nosso pequeno planeta é devastado por guerras sangrentas, pela miséria e pela fome, e pela peste do fanatismo. Tento partir sempre disso – desse imenso desamparo que define o humano. Talvez por isso minhas crônicas sejam melancólicas. Elas incorporam e retratam a grande tragédia humana. Não sei se isso as torna mais interessantes, ou mais repulsivas. Penso, porém, que com esse olhar me aproximo um pouco mais da verdade. 

O cotidiano influencia muito a sua produção?

Gosto muito de caminhar sem destino; Em especial por Curitiba, onde vivo há trinta anos, e pelo Rio de Janeiro, cidade em que nasci, onde vivi por quarenta anos e aonde sempre volto. Nessas caminhadas, torno-me cronista. Tento ver os miseráveis que, em geral, ignoramos. Homens, mulheres, crianças que, desamparados, sobrevivem nas ruas. Seres que, em geral, cheios de arrogância, tratamos como inumanos. Tento encará-los como espelhos. Encarar a realidade da miséria, que em geral negamos. E não só fitar, olhar cara a cara, mas dialogar com ela. É nesse esforço de ver e de interferir que me torno cronista. Não sou um repórter, não entrevisto, não interrogo, não registro. Sou mais um anti-repórter que tenta ultrapassar a barreira que o separa dos outros e saltar no coração da miséria. Miséria humana – eu podia estar ali, espremido sob os toldos e enrolado em papelão. Miséria que é minha também.   




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postado em 14/05/2026 17:57 / atualizado em 14/05/2026 17:58
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