Cinema

Filme de Fábio Meira sobre circo no Brasil tem pré-estreia no Cine Brasília

Em filme que mescla ficção e documentário, Fábio Meira traz para a cena a arte circense em diálogo com o processos de fazer cinema no Brasil

A ideia  era escrever um roteiro sobre uma trupe de circo que viajava pelo país. Recém-formado na Escola de Cinema de Cuba, para a qual foi levado por Ruy Guerra, o goiano Fábio Meira pensou que escrevia o primeiro filme naquele 2007 em que acabava de voltar ao Brasil. Era, na verdade, o terceiro. Foi preciso passar pela experiência de As duas Irenes e Tia Virgínia, além da assistência de direção em Veneno da madrugada, de Guerra, para conseguir dar forma e vida a Mambembe, que estreia nesta quinta-feira (14/5) no Cine Brasília. 

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O projeto nasceu ainda na escola cubana, mas foi em 2010 que Meira montou uma caravana com amigos estrangeiros que também passaram pela formação em Havana e saiu pelo Brasil para filmar as primeiras imagens. Convidou o ator Murilo Grossi para viver um dos protagonistas, um topógrafo que conhece três artistas de circo e se encanta com esse universo. Para o papel das personagens, Meira conseguiu trazer para o filme a potiguar Madona Show e a contorcionista e trapezista Índia Morena, grande dama do circo pernambucano e considerada Patrimônio Vivo do estado. 

As imagens filmadas em 2010 ficaram guardadas e somente nos últimos anos o diretor conseguiu recursos  para finalizar o longa, que mudou de forma e acabou por se tornar, segundo Meira, um misto de ficção e documentário sobre fazer cinema. "Fiquei tentando finalizar o filme durante anos, mas não consegui recursos e só agora finalizei. Mas eu não poderia voltar 10 anos depois e seguir a mesma história, porque as atrizes tinham mudado muito, eu também, e resolvi pegar aquela montagem de ficção e transformar em documentário", explica. "É um filme sobre um jovem cineasta tentando fazer um filme. Senti a necessidade de incluir o processo no filme. A vida das atrizes se mistura à vida das personagens e entra na minha própria vida, no meu próprio processo."

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Na narrativa criada por Meira, o caminho de um topógrafo vivido pelo brasiliense Murilo  Grossi cruza o itinerário de um circo no qual atuam Índia Morena, Madona Show e Jéssica, personagem vivida por Dandara Ohana. "É um filme extremamente lírico e belíssimo, um mergulho nesse universo circense através dessas três personagens femininas e um mergulho no universo do próprio diretor, do que foi tentar fazer um filme que não deu certo", explica Grossi. "E ele consegue um resultado de muitas camadas de reflexão sobre a arte, a cultura brasileira, o sertão, o universo circense, sobre nós brasileiros e o que é fazer cinema. O resultado é espetacular."

Para o ator, Mambembe também traz para a tela histórias de uma cultura que faz parte da formação da identidade brasileira, mas que pouco recebe atenção e é, muitas vezes, alvo de grande preconceito. Nascido em Brasília e de família mineira e goiana, Grossi tem o circo como parte da paisagem da infância e a cultura cigana, frequentemente berço da arte circense, como referência para a produção popular. "Esse universo cigano circense é um universo com o qual convivi. Quando eu ia para o interior de Goiás ou de Minas Gerais, convivia muito com aquela coisa do circo do interior. Essa presença cigana era muito forte e isso sempre me impressionou muito, primeiro por toda a mítica em torno do universo e depois, o enorme preconceito a respeito disso", conta. "Se a gente parar para pensar, a gênese da arte popular brasileira vem daí, porque a população cigana vem para o Brasil nos primórdios. E eles é que trazem a cultura popular, eles que faziam essa cultura popular de feira na Europa", lembra o ator.

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O ambiente circense também sempre fascinou Fábio Meira. Quando criança, na Goiânia dos anos 1980, ele gostava de observar as caravanas que se instalavam com a lona em terrenos baldios da cidade e imaginar como eram as vidas dos artistas mambembes, sempre a se deslocar Brasil afora. "Esse filme tem muito a ver com minha infância em Goiânia. Nós, do Centro-Oeste, viemos de universos mais conservadores e o circo sempre me fascinou. Goiânia era aquela cidade pacata e um terreno baldio, de repente, era ocupado por um circo. Eu ficava observando a vida deles fora do espetáculo e aquilo me fascinava, porque era um lampejo de liberdade. Aquilo dava outra possibilidade de viver a vida, de existir no mundo", lembra o cineasta.

No primeiro roteiro do filme, escrito no início dos anos 2000, as personagens eram diferentes. Meira mudou o rumo da narrativa quando conheceu Índia Morena e Madona Show. "Elas eram tão grandiosas que eu mudei o roteiro inteiro para que elas pudessem caber nele. E me deparei com outro tipo de realidade", conta. "Murilo era único ator profissional daquela filmagem e tinha a função de ajudar a conduzir a história das atrizes, que são fantásticas. Índia Morena é registrada patrimônio vivo de Pernambuco, talvez a artista de circo mais importante do Brasil, e Madona é uma atriz trans de circo, fantástica". A tentativa de um jovem cineasta de fazer o primeiro filme, garante o diretor, tornou-se um filme sobre o artista basileiro que, apesar de todas as dificuldades, consegue levantar o espetáculo. "Essa sina de ser artista no Brasil, que é muito parecido com o que é nossa vida em cinema e uma trupe de circo", garante Fábio Meira. 

Serviço

Mambembe

Filme de Fábio Meira. Com Índia Morena, Madona Show, Dandara Ohana e Murilo Grossi.
Hoje, às 19h, no Cine Brasília (EQS 106/107). Entrada gratuita

 

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