
Com um texto escrito por Alexandre Ribondi em 2014 e encenado em várias versões pela companhia do diretor, a Casa dos Quatro abre as portas hoje com uma nova montagem de Dicionário das coisas que nunca existiram, em cartaz até amanhã e com direção de Morillo Carvalho, que também está no elenco ao lado de Hellen Cris.
Dicionário é um texto lírico e delicado sobre a perda de memória e a doença de Alzheimer. Faz parte do repertório da companhia desde 2015, quando Ribondi experimentou uma montagem em oficina para uma turma de alunos da qual Hellen fazia parte. Mais tarde, Morillo, que fundou com o diretor a Casa dos Quatro, juntou-se ao grupo e sugeriu, em 2016, que o texto ganhasse o palco em montagem independente e sem o cunho didático. Foi a primeira peça apresentada no espaço inaugurado em 2017 e passou por quatro temporadas com propostas diferentes. "Na última temporada, em 2024, ele (Ribondi) já tinha falecido", conta Carvalho. "Agora, a gente volta com uma montagem com direção minha e da Hellen, com paginação nova e cenário diferente".
As montagens anteriores de Dicionário sempre foram construídas em torno de uma leitura muito realista da dramaturgia, tanto na atuação quanto na cenografia. "Agora, o realismo está mais na atuação do que em qualquer outro elemento", avisa Carvalho. "A poesia do Ribondi tem uma uma força lírica grande, a forma como ele interpreta o mundo desconecta a gente um pouco da realidade." Hellen Cris vive dona Irene, a protagonista, uma mulher que precisa lidar com a perda gradual da memória imposta pelo mal de Alzheimer. O texto se debruça sobre uma visão de mundo que opõe ausência e presença.
Dona Irene está doente e tem um filho para o qual nem sempre esteve presente. No início, um encontro entre os dois é um ponto de partida para abordar outras temáticas que vão além da doença. Abandono parental e etarismo surgem como temas e como recursos poéticos para uma dramaturgia que transita entre os conflitos familiares e a vivência da finitude humana. "Mas sem ser panfletário", garante Morillo Carvalho.
Há várias metáforas bonitas no texto de Ribondi e a mais lírica talvez seja o momento em que a personagem compara os lapsos de memória à queda em uma panela de algodão- doce. Dona Irene explica para o público que as lacunas impostas pela doença são como escalar a borda da panela, enxergar o mundo lá fora e escorregar novamente para perder a visão em meio aos fios de açúcar do algodão- doce.
Dicionário das coisas que nunca existiram
De Alexandre Ribondi: Direção: Hellen Cris e Morillo Carvalho. Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h, no Teatro Ribondi, na Casa dos Quatro (SCLRN 708 Bloco F Loja 01, Rua das Oficinas). Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia), pelo Sympla

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