
Com os ares de uma onda conservadora em voga, o diretor Daniel Nolasco — em alta, pelo lançamento do filme Apenas coisas boas — percebe que há tentativas de se limar a visibilidade e o espaço que o cinema gay pode ocupar ou ocupou. "Existe um cinema LGBT, existe um cinema queer — uma vez que são filmes que trabalham essas temáticas ligadas à sexualidade e gênero. Afirmam-se ainda, esteticamente, já que trazem construção visual imediatamente associada à produção", avalia. Nolasco percebe que há cineastas que trabalham com recorrência na temática, e que não são necessariamente homens gays. Num recorte de cinema LGBT pensado e realizado por cineastas gays — "tudo sempre existiu", diz, ao apresentar exemplo: "como referência, imediatamente, se pensa no Djalma Limongi Batista, autor de filmes como Asa branca: um sonho brasileiro, Brasa adormecida e Bocage, o triunfo do amor".
"De qualquer modo, seguimos realmente com uma certa dificuldade de projeção. Há momentos históricos em que a gente tem mais espaço e mais visibilidade essas narrativas e outros momentos em que portas e janelas se fecham", observa Nolasco.
Tratando, em certa medida de etarismo, ou seja, da lacuna da lacuna, na falta de desenvolvimento de personagens da terceira idade, Apenas coisas boas promete avanços. "A questão da representação das pessoas LGBT na terceira idade é algo ainda muito pouco vista, se pensarmos mesmo em cinema brasileiro temos escassos exemplos. O novo filme faz pensar como o personagem central viveu durante tanto tempo numa sociedade que se transformou. Isso vem como proposta: ele começa nos anos 1980 e termina nos dias atuais; acompanhamos 40 anos na vida do personagem central. Mostra-se como ele lidava com questões lá na década de 1980 e como ele, hoje, já com mais de 60 anos, lida com essas questões, morando numa na cidade de Goiânia, uma metrópole do Centro-Oeste", comenta.
Espaços, tanto de fala quanto de localização geográfica, pesam na realização dos filmes assinados por Nolasco. "Vento seco (filme feito em 2020) faz parte de uma série de filmes em que abordo a questão LGBT pensada dentro do cenário do interior. Tanto o Vento seco quanto Apenas coisas boas são gravados no interior de Goiás. A gente tem muita representação de personagens LGBTs em metrópoles, principalmente quando contrastamos com o recorte interiorano do Brasil", observa.
Eterna construção
Num crescente de projeção, desde as participações nas séries Todxs nós (HBO) e Máscaras de oxigênio (não) cairão automaticamente (HBO Max), o ator Lucas Drummond, 33 anos, chega ao protagonismo em cinema, com Apenas coisas boas, depois dos curtas de Caio Scot Depois daquela festa e Todos os prêmios que eu nunca te dei, sem contar da participação em O paciente: O caso Tancredo Neves (de Sergio Rezende).
"No filme, faço o Antônio, um personagem para dentro. Ele é bastante introspectivo. Acho que isso é que os dois Antônios, na primeira fase (feito por ele) e na segunda fase (interpretado por Fernando Libonati) carregam. É um personagem de poucas palavras, de muita ação. O filme é um filme de silêncios. Então, a gente a gente observa tudo que tá acontecendo, tudo que o Antônio está vivendo e sentindo muito mais pelo olhar do que pelo que ele diz", avalia o artista, em entrevista ao Correio.
Entrevista // Lucas Drummond , ator
O título do filme indica uma visão otimista que se completa no enredo?
O filme que não busca responder todas as perguntas, deixando várias respostas no ar. Ele trata de várias facetas de uma relação. A gente acompanha o romance de um casal, Antônio e Marcelo, ao longo de 40 anos. Interpreto o Antônio, que é o cowboy responsável por resgatar o Marcelo (Liev Carlos) da estrada, depois de um acidente. Dali eles começam essa relação. Na segunda fase, o mesmo casal está em foco, 40 anos depois. O filme propõe uma visão otimista, mas também traz uma visão reveladora de que relacionamentos trazem aspectos bons e ruins.
Daqui a décadas, como vê o horizonte para suas relações?
Espero uma vida com muito mais respeito e liberdade. Nós vivemos movimentos, na história LGBT, com episódios de ganhos e momentos de perdas. Houve a crise da Aids, houve muita libertação sexual, e uma doença que de repente corta essa libertação sexual, tão batalhada e muito conquistada. No futuro, espero que a gente consiga construir vivências LGBT com muito mais espaço, com muito mais afeto, e que se tenha uma comunidade unida. Hoje, por exemplo, há homens gays mais velhos que enfrentam muito preconceito, por parte dos gays mais novos. Na verdade, temos que mudar esse cenário. Trazer afeto, entendimento e real união.
O que foi mais difícil: a nudez em cena...
O filme tem muitas cenas de nudez, e a nudez para mim não é o maior dos desafios. Conseguir me aproximar do universo rural, tão distante de minha realidade urbana, gerou o desafio. Nasci e fui criado no Rio de Janeiro. Houve, daí, para mim algo muito novo. Sem dúvida nenhuma, penei com as cenas com os animais. Abrimos o filme com uma cena do Antônio ordenhando as vacas, no curral. Tudo foi muito ensaiado. Ficamos durante alguns dias na própria na própria locação, na Fazenda Soledade, abraçando a rotina de peão. Acordava e ia para o curral, ordenhava as vacas para elas se familiarizarem comigo. Aí, no momento do "ação", com a câmera, e entrava mais gente, as bichinhas ficavam totalmente assustadas, criando desafios. Contracenar com ser humano é fácil. Contracenar com um animal, que a gente não controla, é bem mais difícil.
Como criaram os dois Antônios, o mais jovem e o outro?
Tivemos um processo de preparação, em separado. O Nando Libonati (o Antônio da segunda fase) e eu tivemos um encontro na primeira leitura de roteiro. O diretor nos chamou: lemos juntos e discutimos o personagem. A primeira parte foi filmada antes. Mas ao final da etapa, o Nando pode acompanhar um pouquinho do que a gente tinha construído. Ele usou o que achou valer a pena para o Antônio da segunda fase.
