
Na segunda edição, a mostra Mestras do Macabro — As cineastas do horror ao redor do mundo até traz títulos associados aos universos de Freddy Krueger e o mestre da escrita Stephen King; mas, é evidente, que se concentra, em muito, em profissionais ou mesmo situações capazes de mobilizar a atenção das mulheres.
Exemplo disso está numa masterclass, no dia 25 de julho, chamada Rainha do grito por excelência: técnicas de performance para filmes de horror. A atividade paralela à exibição de quase 40 filmes contará com Gilda Nomacce, atriz de filmes como O segredo da família Urso, Lilith e 5 estrelas (todos a serem mostrados nas projeções do CCBB).
Incluídas na mostra, fitas de origem latina como As mulheres dos ossos (coproduzido entre México e Peru) e O lago da perdição (produto do México, além de Espanha e Argentina), esse dirigido por Laura Casbe e detido em feiticeira, exploram aspectos sobrenaturais.
Apesar do tema pesado de filmes como Mary Mórbida, com abordagem de cirurgias clandestinas, e do longa assinado por Alice Lowe, Vingança preventiva, no qual um bebê ainda nem nascido afeta decisões da futura mãe, há espaço para humor, a partir de títulos como Vampira humanista procura suicida voluntário, em torno de uma vampira de pouca vocação. O vingador tóxico (1984) também mexe com estereótipos ao mostrar um acidente em academia afetando diretamente a vida de um funcionário estabanado. O longa apresenta a capacidade de maquiagem a cargo de Jennifer Aspinall.
No evento do qual a curadora Beatriz Saldanha tomará parte, com explanações sobre abjeção feminina, como instrumento de controle, resistência e libertação, nomes de peso como Mati Diop (vencedora do Grande Prêmio do Festival de Cannes 2019) e Andrzej Zulawski (premiado pela carreira no Fantasia Film Festival, em Montreal) estão contemplados. "A mostra coloca estigmas em xeque. Temas fazem parte do imaginário do horror desde sempre (o cientista louco, a bruxa), e agora apresentamos filmes que mostram outra perspectiva destes tópicos. Mais profunda, menos binária", explica a curadora.
A autora britânica Mary Shelley (consagrada por Frankenstein, de 1808) é celebrada num bloco da mostra biológicas e dilemas éticos, além de experimentos e reprodução nada natural, em filmes como Evolução (2015), Vida celeste (2018) e Re (nascer). Filme de 1973, Hollywood 90028 abre a mostra (às 19h) que projeta Christina Hornisher, diretora cuja trama revela um fotógrafo que enlouquece no meio cinematográfico de Los Angeles. Tratando de autofagia, autodescoberta, massacre e sobrevida, a diretora Marina De Van ganha homenagem.
"A ideia é dar espaço para mulheres realizadoras em um meio historicamente dominado por homens. O teor de sangue representado na tela vai do apelo estético de cada diretora. No geral, sinto que nos filmes feitos por mulheres a violência, independentemente de ser mais ou menos explícita, é mais contextualizada", demarca Beatriz. Ainda na mostra, o canadense Possuída traz roteiro de Karen Walton, e revela destino de uma jovem mordida por lobisomem, enquanto assustadora perseguição a moradores de cidade-fantasma está em Garota sombria caminha pela noite, de Ana Lily Amirpour. Assinado por Philippe Grandrieux, Sombrio, sobre prostitutas mortas em série, tem fotografia de Sabine Lancelin e roteiro de Sophie Fillières (morta em 2023 e que foi atriz em Anatomia de uma queda). Atividades (todas gratuitas) podem ser conferidas em ccbb.com.br/brasilia/programacao.
Entrevista // Beatriz Saldanha, curadora
Tudo quase na programação será às 19h. Assistir terror à tarde é menos divertido?
Toda hora é hora para ver terror — ainda mais no escuro da sala de cinema! A maioria das sessões começa às 19h para dar oportunidade para as pessoas que trabalham em horário comercial chegarem com calma para aproveitar o filme.
O que caracteriza o cinema da homenageada Cecilia Condit: eles trazem orçamento limitado, abordagens inusitadas como a exploração de musical...
Estamos super honrados de prestar essa homenagem a Cecelia Condit, brilhante videomaker que usa do horror, do musical cômico e da linguagem experimental para falar sobre temas que, infelizmente, parecem mais presentes do que nunca: o abuso psicológico dos homens às mulheres, o feminicídio e demais tipos de violência patriarcal. Cecelia se destaca no campo do vídeo experimental e já é amplamente reconhecida no exterior, com seus filmes sendo exibidos em museus e centros culturais de grande prestígio internacional. Sua obra é complexa, inventiva e desafiadora, e um dos pontos altos da mostra esse ano é exatamente poder prestar à ela essa homenagem inédita no Brasil.
Existe renovação de fontes já usadas à exaustão no gênero? Há exemplos de filmes que quebram correntes de expectativas?
Eu diria que a maior parte dos filmes da mostra são bastante inovadores e longe dos clichês do gênero. Garota sombria caminha pela noite, por exemplo, é uma virada de chave dentro do subgênero dos vampiros tanto pelo aspecto formal, quanto narrativo.
Por que danos à pele surge como elemento tão presente nos filmes?
Além da pele ser um elemento visual muito interessante para a elaboração de cenas de horror gráfico, ela também tem uma grande carga simbólica. No filme Em minha pele, de Marina de Van, a pele não é só uma parte do corpo que está sendo cortada, ferida, mas é a própria identidade da artista-protagonista. É um filme que fala sobre autoconhecimento, sobre se reconhecer no seu próprio corpo.
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Revista do Correio
Mariana Morais
Política