CINEMA

5 obras que transformam relacionamentos em matéria-prima do terror

Impulsionado por debates sobre abuso e autonomia, o cinema contemporâneo usa o casamento e o namoro como cenários de puro horror

Terror contemporâneo mira o medo nos relacionamentos amorosos, transformando parceiros em metáforas para controle e violência emocional -  (crédito: Divulgação)
Terror contemporâneo mira o medo nos relacionamentos amorosos, transformando parceiros em metáforas para controle e violência emocional - (crédito: Divulgação)

Durante muito tempo, o terror encontrou seus monstros em figuras sobrenaturais: fantasmas, demônios, assassinos mascarados e criaturas difíceis de explicar. Nos últimos anos, porém, o gênero passou a mirar um medo muito mais próximo da realidade. 

Em vez do desconhecido, muitas produções colocam o relacionamento amoroso no centro da narrativa, transformando parceiros, famílias e até casamentos em metáforas para inseguranças, manipulação e violência emocional. O susto deixa de estar no que se esconde debaixo da cama para surgir ao lado de quem divide o travesseiro.

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Essa mudança acompanha uma discussão que também ganhou espaço fora das telas. Em um artigo publicado pela Vogue, a escritora Chanté Joseph provocou um intenso debate ao questionar se "ter um namorado" ainda representa um ideal para muitas mulheres. Mais do que uma provocação, a reflexão chamou atenção para uma geração que passou a enxergar os relacionamentos com menos romantização e mais senso crítico, impulsionada por conversas sobre autonomia, abuso psicológico, dependência emocional e desigualdade nas relações afetivas.

Para a psicóloga especialista em desenvolvimento humano e autocuidado Bruna Bettini, o cinema apenas acompanha uma transformação que já vinha acontecendo na sociedade. "A arte acompanha esse movimento cultural, ou seja, não cria isoladamente essas experiências; apenas lhes oferece linguagem, imagem e narrativa."

Não por acaso, o terror contemporâneo parece ter encontrado nesse cenário um terreno fértil para contar histórias que, embora extremas, dialogam com sentimentos bastante reais. Em muitas dessas obras, o horror não nasce apenas da violência física, mas da descoberta de que o amor pode esconder controle, culpa, isolamento ou expectativas sufocantes. 

O impacto dessas narrativas, segundo Bruna, está justamente na identificação do espectador. "Do ponto de vista psicológico, existe um aspecto particularmente relevante: aquilo que mais nos assusta costuma ser justamente aquilo que ameaça nossa identidade."

A especialista acrescenta que, em muitos desses filmes, "o horror não está apenas na possibilidade da finitude da existência, mas na perda silenciosa da própria percepção, da liberdade de escolha, da capacidade de confiar em si, da possibilidade de alguém deixar de habitar a si mesmo enquanto ainda está vivo".

Mayara Siqueira, psicóloga especialista em relacionamentos, destaca que, sob a perspectiva da psicologia, especialmente da Terapia do Esquema e da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), narrativas de relacionamentos abusivos em filmes de terror podem desempenhar um papel ambivalente.

"Historicamente, o gênero foi amplamente criticado por retratar a violência contra a mulher de forma sensacionalista, muitas vezes reforçando a objetificação ou utilizando seu sofrimento apenas como recurso narrativo. No entanto, quando essas histórias são construídas com foco nas dinâmicas psicológicas do abuso (como manipulação, isolamento, controle e ciclos de violência) elas podem favorecer a identificação de padrões que frequentemente permanecem pouco abordados na sociedade", cita.

Ainda segundo Mayara, essas narrativas podem ilustrar como padrões emocionais repetitivos e crenças disfuncionais contribuem para a permanência em relações prejudiciais. "É importante lembrar que um filme não substitui informação qualificada ou intervenção psicológica, mas representações mais realistas podem ampliar o debate público sobre uma experiência que afeta um número cada vez mais expressivo de mulheres e favorecer o reconhecimento precoce de sinais de violência psicológica e emocional", diz a psicóloga.

Casamento Sangrento

É justamente essa sensação que move Ready or Not, ou Casamento Sangrento em sua tradução para o português. À primeira vista, o filme acompanha uma noiva prestes a iniciar uma nova vida ao lado do homem que ama. Bastam poucas horas, porém, para que o casamento se transforme em uma luta pela sobrevivência. 

A família do noivo representa uma versão grotesca da ideia de que, ao se casar, uma pessoa também herda dinâmicas familiares, tradições e relações de poder que nem sempre são visíveis durante o namoro. O terror funciona como uma hipérbole de um receio bastante comum: descobrir tarde demais quem realmente é a família, e até o parceiro, escolhido para dividir a vida.

Algo Horrível Vai Acontecer

A ansiedade em torno do casamento também conduz Something Very Bad Is Going to Happen, Algo Horrível Vai Acontecer em português, mas sob uma perspectiva diferente. A série constrói tensão antes mesmo da cerimônia acontecer. Pequenos comportamentos, silêncios e acontecimentos estranhos fazem o relacionamento parecer uma bomba-relógio prestes a explodir, sugerindo que o medo nem sempre está em um vilão evidente, mas na dúvida persistente de que algo está errado e de que todos os sinais podem ter sido ignorados.  

Midsommar

Em Midsommar, um dos exemplos mais comentados do chamado "terror de relacionamento", a história parte de um casal emocionalmente esgotado. O namorado permanece na relação por culpa; ela, por medo de perder o único vínculo que ainda possui após uma tragédia familiar. 

Quando ambos embarcam para um festival isolado na Suécia, os rituais da comunidade funcionam como um espelho distorcido da própria relação, marcada pela ausência de acolhimento, comunicação e reciprocidade. 

Obsessão 

Essa mudança de perspectiva também aparece no sucesso de bilheteria Obsession, ou Obsessão. No filme, o desejo deixa de representar intimidade para dar lugar ao controle, à vigilância e à perda gradual dos limites. Para Bruna Bettini, esse tipo de narrativa acompanha uma transformação importante na forma como os vínculos afetivos são percebidos. 

"Durante muito tempo, algumas formas de controle, ciúme excessivo, possessividade ou sacrifício unilateral foram romantizadas como demonstrações de amor." Hoje, afirmou a psicóloga, "existe uma disposição maior para questionar essas narrativas e compreender que vínculos saudáveis dependem de respeito, reciprocidade, autonomia e segurança emocional, ou seja, cuidado não é controle, proteção não é domínio e intimidade não pode existir sem liberdade", diz a psicóloga.

Por cima do seu cadáver

Essa lógica também atravessa Over Your Dead Body, traduzido para Por cima do seu cadáver. Inspirado em um dos contos mais conhecidos do teatro japonês, o longa mistura realidade e ficção para explorar ciúme, traição e o desejo de controlar o outro. Além dos sustos,  o filme sugere que algumas das emoções mais destrutivas não pertencem ao universo do fantástico, mas à experiência humana, utilizando o horror como metáfora para relações marcadas por posse, obsessão e desumanização.

Ao transformar relacionamentos em fonte de medo, o terror contemporâneo revela menos uma mudança no gênero e mais uma mudança no olhar do público. Se antes o horror era associado ao sobrenatural, hoje ele encontra espaço em experiências reconhecíveis, como manipulação, controle e perda da autonomia. 

Dentro desse cenário, filmes e séries acabam funcionando não apenas como entretenimento, mas também como um reflexo das conversas que ganharam força nos últimos anos sobre saúde mental e relações afetivas.

Como observou a psicóloga Bruna Bettini, "o verdadeiro 'monstro' contemporâneo já não precisa ser uma criatura fantástica. Muitas vezes, ele representa dinâmicas de poder, violência e desumanização que podem existir em relações humanas reais."

A psicóloga ponderou, no entanto, que essas narrativas não devem servir para alimentar generalizações. "A consciência cresce quando aprendemos a diferenciar, e não quando passamos a enxergar tudo da mesma forma."

Onde assistir 

  • Netflix: Algo Horrível Vai Acontecer;
  • Prime Video: Por Cima do Seu Cadáver e Midsommar;
  • Disney+: Casamento Sangrento;

Já o longa Obsessão, lançado em abril deste ano, está previsto para estrear nos serviços de streaming norte-americanos a partir de 30 de junho, mas segue sem previsão para chegada nas plataformas brasileiras. 

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postado em 26/06/2026 15:43 / atualizado em 26/06/2026 15:47
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