ROMANCE

Por que romances leves viraram o descanso emocional das mulheres?

Séries como "Off Campus" mostram como histórias de amor ‘"óbvias" conquistaram um público cansado de conflitos e excesso de estímulos

"Off Campus" - Amores Improváveis - (crédito: Divulgação/Prime Video)

Depois de um dia cansado de trabalho, estudos, responsabilidades e uma quantidade infinita de informações chegando ao mesmo tempo, muitas mulheres repetem um ritual simples no fim do dia em escolher uma série de romance, preparar algo para comer e se entregar a uma história onde o amor ocupa o centro de tudo.

Não importa se o público já sabe como a trama vai terminar. O casal provavelmente vai se aproximar, os conflitos serão resolvidos e haverá algum tipo de final feliz. É justamente essa sensação de familiaridade que transforma essas produções em um lugar confortável para muitas das espectadoras.

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Nos últimos tempos, romances leves ganharam mais espaço nas plataformas de streaming. Séries como Off Campus (Prime Video), que acompanha a vida universitária e os relacionamentos de jovens, conquistaram atenção principalmente nas redes sociais por suas histórias de paixão, amizade e personagens masculinos que além de serem considerados bonitos demonstram cuidado e vulnerabilidade.

Outras histórias como O verão que mudou minha vida (Prime Video), que acompanha o amadurecimento de Belly durante um verão marcado por descobertas amorosas, Depois Daquele Ano (Prime Video), com uma narrativa sobre recomeços e relações, e Heat Rivalry (HBO Max), focada em um relacionamento construído em meio à rivalidade, seguem a mesma fórmula de oferecer ao público uma experiência emocional envolvente e “segura”.

O interesse por essas histórias não está apenas em descobrir o que vai acontecer, muitas vezes, está justamente em acompanhar o caminho até lá.

Para a psicóloga clínica Isabella Helena, esse tipo de produção pode funcionar como uma ferramenta de regulação emocional em meio a uma rotina de sobrecarga.

Segundo ela, as comédias românticas costumam seguir estruturas conhecidas, com conflitos que fazem parte de uma fórmula já familiar para o cérebro. “A previsibilidade ajuda o cérebro a se sentir seguro, podendo diminuir níveis de cortisol e favorecer sensações relacionadas ao prazer e ao relaxamento”, explica a psicóloga.

Isso não significa que essas séries sejam uma fuga permanente dos problemas, mas podem representar um momento de descanso mental. Em vez de acompanhar histórias cheias de tensão e acontecimentos imprevisíveis, o público encontra uma narrativa onde pode simplesmente sentir.

É uma espécie de intervalo emocional em uma realidade que exige atenção o tempo inteiro.

Outro elemento que chama atenção nessas produções são os protagonistas masculinos. Diferente de antigos modelos de romance baseados em homens distantes ou difíceis de conquistar, os personagens que fazem sucesso atualmente costumam demonstrar sentimentos, cuidado e diálogo.

“O público feminino não busca necessariamente um homem perfeito, mas alguém que saiba ouvir, validar sentimentos, dividir responsabilidades e demonstrar afeto”, afirma Isabella.

Nas telas, esses personagens costumam representar uma relação em que o cuidado não precisa ser pedido diversas vezes. Eles escutam e muitas vezes, passam por um processo de amadurecimento ao longo da história.

Durante muito tempo, histórias românticas voltadas principalmente para mulheres foram tratadas como um tipo de entretenimento menor. O termo “água com açúcar” frequentemente apareceu associado à ideia de algo superficial ou sem importância.

Para a psicóloga, essa visão também mostra uma forma de desvalorização de produtos culturais ligados ao público feminino. “Existe uma tendência de diminuir aquilo que é produzido para mulheres. Esse julgamento pode gerar culpa por gostar desse tipo de conteúdo”.

Na prática, assistir a uma série romântica depois de um dia difícil pode funcionar de maneira parecida com outros momentos de descanso. Assim como ouvir música, ler um livro ou rever um filme favorito, esse hábito cria uma pausa na rotina. E no caso das séries que são adaptações literárias, é como prolongar o prazer da leitura em uma nova linguagem.

Apesar do conforto, esses romances também levantam uma discussão sobre expectativas. Afinal, relacionamentos reais não seguem o mesmo ritmo das telas. Mas, segundo Isabella Helena, a maioria das mulheres consegue diferenciar ficção e realidade.

“O conteúdo funciona muito mais como um refresco para a vida real do que como um modelo exclusivo de relacionamento”, explica.

Um mundo acelerado, onde quase tudo exige resposta imediata, faz com que acompanhar uma história, seja ela empolgante ou tranquila em que alguém escolhe ficar, cuidar e demonstrar amor pode ser, por algumas horas, uma forma de descansar.

*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

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postado em 24/06/2026 12:31
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