Em 1945, no sertão pernambucano, nascia Geraldo Azevedo. Menino que cresceu em uma casa cheia de referências musicais e, aos 5 anos de idade, ganhou o primeiro violão — feito a mão pelo pai. O espaço natural e prazeroso que a música ocupava em sua casa e vida, determinou o destino dele. Poucos anos depois, começou a trilhar o caminho que o fez um dos grandes nomes da música popular brasileira. Hoje, aos 81 anos de idade, ainda vive a meninice quando sobe ao palco, mesmo com mais de 60 anos de carreira.
"Quero viver mais duzentos anos" é um trecho da música O sal da terra, de Beto Guedes, e é com esse trecho que Geraldo Azevedo se identifica. "Sinto muita energia ainda", afirma o cantor. Sem previsão de perder o ritmo, mais uma vez Geraldo Azevedo sobe aos palcos com a turnê Oitentação, estreada ano passado quando o cantor completou 80 anos de idade. Os planos ainda são muitos, e ele pretende seguir cantando até que vire "Noventação". A turnê chega a Brasília amanhã (3), às 21h, no Centro de Convenções Ulysses. Em entrevista ao Correio, o cantor fala das fontes de sua formação, da passagem dos 80 anos e dos projetos futuros.
Você acha um "Noventação" possível? Quais são suas perspectivas para os próximos anos da sua carreira?
É como diz a música do Beto Guedes "quero viver mais duzentos anos". Claro que a gente fica sonhando, eu sei que é um mito, mas sinto muita energia ainda. Aliás, essa geração da gente, nascida na década de 1940, é muito impressionante. Você vê Chico, Caetano, Alceu, Ivan Lins, Paulinho da Viola e Ney Matogrosso, que com 84 anos está aí ativo, vivo. A gente se inspira nessas pessoas e, ao mesmo tempo, fica com muita gratidão à vida por sentir essa benção de ter energia e gostar de fazer o que faz. O que mais me cansa no meu trabalho são as viagens, porque o Brasil é um país imenso, não é? Porque no palco é uma peça, eu me sinto um menino quando chego no palco, é uma eterna brincadeira. E, para mim, brincar é uma coisa muito séria, mas que faço com muito amor. Minha brincadeira é tocar, cantar, fazer música e sorrir. E eu continuo compondo, tanto que no show tem algumas canções novas, para poder marcar o passado, o presente e o futuro. São mais de 60 anos de carreira, não tem como escolher um único repertório.
O que foi determinante na sua carreira para você se constituir como artista?
A música foi a coisa mais importante para mim, porque eu não tinha projeto de ter uma carreira artística, não. Eu sempre gostei de tocar, lá em casa sempre tive uma musicalidade muito grande, minha mãe cantava, meu pai tocava, mas de uma forma muito amadora, como um hobbie. Minha mãe era professora e tinha uma escola de alfabetização, que era na casa da gente, todas as pessoas que nasceram naquela zona rural passaram pela escolinha dela. E ela sempre incentivava no final de cada semestre fazer uma festa na qual os alunos se apresentassem com alguma coisa teatral ou musical. Eu me lembro que aprendi lá. Para quem gostava de música, foi muito natural, então o palco da minha vida foi a escola da minha mãe. Mas o fato é que eu fui gostando de tocar, e, aí, quando surgiu a Bossa Nova, eu fiquei mais encantado com a musicalidade e consegui aprender violão com muita ênfase. Aí, a música me levou, foi me roubando. É a minha caravana, minha barcarola.
Qual foi o impacto que a Tropicália teve na sua carreira e para os artistas da sua geração?
É importante falar sobre isso, porque a Tropicália, em um momento pós Bossa Nova, abriu um novo espaço na música como a Bossa Nova também havia feito. As pessoas pensam que o meu disco e de Alceu Valença tinha a ver com a Tropicália, mas era algo da época. Hoje em dia, na Alemanha, é um disco considerado psicodélico. São interpretações que existem e não dá para saber qual é a riqueza do que nossa música abrange, porque a gente faz essa música com muito amor, com muita interação com o nosso mundo, mas ao mesmo tempo temos um olhar voltado para outras coisas. Eu sou do Nordeste, tenho uma raiz muito forte, mas depois fui conhecendo Baden-Powell, Paulinho Nogueira. Em seguida, comecei a ouvir música clássica e me apaixonei. Ouvia Chopin, Debussy, e ao mesmo tempo Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi. Todas essas coisas me influenciaram. Então, comecei a criar um tipo de música que fazia essa ligação toda. Essas pessoas me influenciaram muito, me deixaram manifestar essa musicalidade que eu tinha. E a nossa geração, sempre gostando muito disso, de melodias requintadas, de harmonias ricas e de poesia. Hoje, isso se perdeu um pouco, a música brasileira está se perdendo, principalmente a tríade de coisa rica, não é? Música, melodia, e poesia. O ritmo continua, porque o ritmo brasileiro é uma diversidade fantástica, é o que mantém viva a música brasileira. Eu tenho muito orgulho dessa diversidade de cada lugar. Só no meu estado, Pernambuco, tem frevo, baião, xaxado, ciranda, é uma diversidade fantástica.
Você ajudou na revelação de duas grandes: Ivete Sangalo e Elba Ramalho. Como foi isso?
Eu fui fazer um show na terra de Ivete, e ela já cantava. Aí, chegaram a mim e me disseram: "Rapaz, tem uma menina aqui que está começando e ela é louca para cantar para um público grande assim. Você dá a oportunidade dela abrir o seu show?". Mandei chamá-la, ela veio parecendo ser mais alta do que é hoje em dia e eu perguntei: "Você toca?". Ela disse que sim, tocava e cantava, "eu me garanto", afirmou. E foi lá, só de voz e violão, e arrasou. Ela tem uma gratidão muito grande por eu ter aberto esse espaço para ela provar que podia cantar para um público grande. Hoje, ela é uma das maiores estrelas do Brasil e eu me orgulho.
Com Elba foi diferente, eu era diretor musical de teatro e ela era atriz. Dirigi uma peça que ela cantava e fiz uma música para ela cantar. Tempos depois disso, me separei e fui morar sozinho. Já havia percebido que a vida dela era complicada, morava aqui e ali. Aí, eu aluguei um apartamento e a chamei para morarmos juntos já que estávamos sem moradia. Moramos uns quase três anos juntos e, durante esse tempo, a gente resolveu fazer um disco. Eu assumi a direção musical. Fiz até uma música desse disco só para ela mesmo, é assim: "canta, canta, passarinho".
O show em Brasília terá a participação especial do Chico César, um parceiro de longa data e outra força da música brasileira. Como surgiu essa parceria?
Eu conheci o Chico antes de ele ser famoso, por meio do Totonho (do Totonho e os Cabras). Ele também não era famoso ainda, mas disse: "Eu queria gravar um disco e tem uma música que gostaria que você cantasse, que é de um cara chamado Chico César. Eu queria que você cantasse só de voz e violão no meu disco". Aí, me mostrou a música e eu achei maravilhosa, disse: "O violão desse cara é muito especial, não sei se vou copiar não. Então, não seria bom que você convidasse esse cara para fazer violão e eu cantar?", e ele fez isso. Aí, eu conheci Chico César. Passou-se mais ou menos um ano, Chico lançou um disco chamado Aos Vivos, e eu fiquei num encantamento. O cara começou a carreira já fazendo um disco ao vivo. Eu fiquei impressionado. O encantamento foi tão grande que eu comprei duas caixas de disco, com 25 em cada, e saí divulgando. É muito bom fazer shows com ele porque tem a mesma verve que eu, gosta de tocar e cantar ao mesmo tempo. A gente tem uma interação muito boa no palco, fazendo show é maravilhoso. Além de eu ter essa interação com vários outros artistas, como Elba, Zé Ramalho, Alceu. Eu digo que não gosto de dividir nada com ninguém, gosto é de somar.
Qual é sua relação com Brasília?
A relação que tenho com Brasília é maravilhosa, eu me sinto em casa e tem essa coisa que Brasília é muito aberta para toda verve musical. Tanto que muita gente sai daí, né? Renato Russo, Cássia Eller e muitos outros. Desde a primeira vez que fui, fiquei encantado e sempre fiz shows, desde o início da minha carreira. Sempre fui muito bem acolhido, tem vezes que faço três/quatro apresentações no mesmo lugar de Brasília, nas festas juninas sou muito convidado. Realmente me sinto em casa.
*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco
Turnê Oitentação
Amanhã (3/6), às 21h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Ingressos a partir de R$69 (meia) à venda no site da Bilheteria Digital.
