ENTREVISTA

A nova vida de Gloria Pires após deixar as novelas

Em entrevista ao Correio, Glória Pires reflete sobre a pausa nas novelas após 50 anos de carreira, a transição madura para a direção no cinema e por que decidiu trocar o eixo Rio-SP por Goiânia

Com mais de cinco décadas de carreira e uma trajetória consagrada na televisão, a atriz Gloria Pires vive um momento de profunda reinvenção e serenidade. Após se despedir da vilã Irene em Terra e paixão, há dois anos, ela decidiu desacelerar do ritmo intenso do eixo Rio-São Paulo para fazer uma pausa com prazo indeterminado nas novelas. Essa mudança profissional veio acompanhada de uma transformação pessoal: a atriz mudou-se definitivamente para Goiânia (GO), ao lado do marido, o músico Orlando Morais, buscando mais qualidade de vida, liberdade criativa e tempo para se dedicar às relações afetivas.

Essa nova fase, no entanto, está longe de significar uma aposentadoria dos palcos e das telas. Aos 62 anos, Gloria vive uma das maiores transições de sua carreira ao estrear atrás das câmeras como diretora do longa-metragem Sexa, assumindo o comando de narrativas e processos criativos após décadas sendo conduzida por outros diretores. Além disso, a artista prepara o retorno aos cinemas em Se eu fosse você 3, contracenando novamente com Tony Ramos e dividindo o set com a filha Cleo — a primogênita de quatro herdeiros —, em um momento libertador no qual se reinventa sem a necessidade de provar nada a ninguém.

Entrevista /
Glória Pires

Glória, você ampliou sua carreira e estreou na direção com o filme Sexa, um projeto que aborda o amadurecimento e o desejo feminino. O que a cadeira de diretora te revelou sobre a arte de contar histórias que cinco décadas como atriz ainda não tinham mostrado?

Dirigir Sexa foi um mergulho na minha experiência e tudo o que pude absorver nessas cinco décadas. Nós, atores, estamos a serviço da história contada por quem dirige. São funções completamente distintas. A diretora entra quando o roteiro ainda está sendo estruturado e só sai quando o filme estreia. Quem conta a história é a diretora.

Como foi o processo interno de deixar de ser a peça central da visão de um diretor para se tornar a mente que articula toda a narrativa e a estética de uma obra?

Foi intuitivo e visceral. Senti no coração que era o momento certo para esse deslocamento. Durante décadas, tive a oportunidade de ser conduzida por grandes diretores e por meio desses trabalhos pude observar de perto seus métodos e suas preocupações. Foi um movimento que exigiu coragem, porque poderia ter dado errado, era um risco que eu não precisaria correr a essa altura da minha vida. E é claro que minha cúspide em Virgem me fez buscar embasamento teórico para me ajudar a tomar melhores decisões, além de ter uma boa escuta e troca com a minha equipe.

Em entrevistas recentes, você mencionou que chegar aos 60 anos foi um processo libertador. Como o cinema e a direção te ajudam a expressar essa fase de assumir os fios brancos e a própria maturidade sem as amarras da indústria?

Chegar aos 60 me trouxe o entendimento de que não havia mais porque me moldar para caber nas expectativas alheias. Foi isso que gritou em mim, quando li a premissa de Sexa — falar para mulheres maduras como eu, que desejo, alegria e potência não precisam morrer com o tempo. Ainda por cima, estava em meu lugar de fala. Foi pura metalinguagem.

Após cinco décadas de um vínculo histórico com a Globo, você optou por novos formatos de trabalho e se mudou para Goiânia. Como tem sido a experiência de "reaprender" a rotina fora do ritmo industrial e acelerado das telenovelas?

Tem sido muito saudável e revigorante. A rotina de novela é como uma maratona emocional e física. Foram décadas vivendo nesse ritmo acelerado, cuidando do casamento e dos filhos. Hoje, tenho uma relação mais equilibrada com o tempo, com a minha casa, com a natureza, comigo mesma. Aprender a desacelerar é um exercício. E eu tenho gostado muito de escolher os projetos com mais calma e entendimento do que eles me trazem, como artista.

O que a vida em Goiás oferece, hoje, que o eixo Rio-São Paulo talvez não ofereça mais?

Sobretudo, a convivência com meu marido e minha casa. Além disso, sinto uma conexão com a terra que mexe profundamente comigo. E viver ao lado do Orlando nesse contexto mais tranquilo fortaleceu ainda mais nossa parceria. O eixo Rio-São Paulo segue muito presente na minha rotina de trabalho e na dimensão afetiva, já que meus quatro filhos moram lá. Cada vez mais eu valorizo a proximidade da natureza e poder viver uma rotina menos atravessada pela urgência.

Você declarou recentemente que não pretende retornar às novelas tão cedo. Esse é um ciclo definitivamente encerrado em sua vida ou apenas uma pausa necessária para reencontrar o prazer em atuar na televisão?

Preciso de um tempo. Elas fazem parte da minha história, não vou me afastar do meu ambiente. Mas, neste momento, envolvida em outros projetos, não me me vejo vivendo aquela rotina intensa. Experimentar outras linguagens e até me reencontrar artisticamente são processos muito importantes para mim. Mas, algum dia, pode acontecer, sim, sem ansiedade.

Olhando para trás, você deu vida a personagens que definiram a identidade cultural brasileira. Qual dessas mulheres do passado você sente que mais emprestou características para a
Gloria de agora?

De todas essas personagens tão intensas, Maria Moura é a que mais ecoa em mim, hoje. Traçando um paralelo entre nós (e excluindo as duas grandes tragédias que Maria Moura vivencia), me reconheço na jornada de busca por liberdade e autonomia.

Existe um critério ou um "fio condutor" específico que te faz aceitar um
papel no cinema
hoje em dia?

Sim, personagens e histórias que me provoquem. Pode ser uma comédia popular ou um drama denso — o que me importa é existir verdade para a conexão humana acontecer. O cinema, por conta da sua dinâmica, permite essa diversificação.

Você está no indicado ao Oscar O quatrilho, em 1994. Em 2009, você venceu o Candango de Melhor Atriz por É proibido fumar. Qual a importância dos festivais e do reconhecimento da crítica para uma artista que já tem o amor absoluto e a consagração do grande público?

Os festivais são muito importantes para o panorama artístico e pela oportunidade de oferecer ao público acesso a obras que normalmente não conseguem espaço nas salas de cinema. A crítica é parceira importantíssima, já que coloca luz sobre essas obras, trazendo a atenção do grande público. Já o carinho do público, esse talvez seja o maior presente que um artista pode receber, é o afago que te incentiva a seguir buscando novas possibilidades. O festival de Brasília é uma referência, um dos mais longevos do país, então receber o Candango foi muito emocionante para mim.

Você foi mãe da Cleo muito jovem, aos 19 anos, e depois teve a Antonia, a Ana e o Bento. Ter sido mãe em fases tão diferentes da vida mudou
a sua percepção sobre a passagem do tempo e sobre
a sua própria carreira?

Estamos sempre evoluindo e mudando, não é? Assim, fui uma mãe distinta para cada filho. O tempo e a experiência acrescentaram muitas camadas à mãe Gloria. Como tantas mães, durante muitos anos, tentei dar conta de tudo perfeitamente. Com o tempo, entendi que a vida real é imperfeita — e muito mais bonita assim.

Como é a dinâmica de trabalho e o desafio emocional de dividir o set com a sua primogênita, agora que vocês estão
juntas no cinema?

A Cleo é uma artista muito disponível. O mais lindo em trabalhar com ela hoje, já adulta, é reconhecer a mulher que ela se tornou. Muito bom compartilhar o set com ela, que é dona de um senso de humor fantástico. Herdou do avô — meu pai, Antônio Carlos. Estar em cena com ela é uma experiência emocionante!

Se você pudesse encontrar hoje a Glória que interpretou a jovem Marisa de Dancin Days ou a que brilhou em Memorial de Maria Moura, qual conselho daria a ela sobre o futuro
da profissão e sobre
a vida em família?

Diria para ela confiar no tempo. Alertaria para que trabalhasse a ansiedade, que não dedicasse tanta energia tentando dar conta de tudo, e entendesse que corresponder às expectativas alheias era cruel com ela mesma. Também diria para ela aproveitar mais os momentos simples da vida em família, porque o tempo passa muito rápido. A carreira é importante, apaixonante, mas as relações são o que realmente sustentam a gente.

 


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