Cinema

Documentário mostra pioneiros do cinema no Brasil, em mostra italiana

'Os irmãos Segreto', que trata de pioneiros do cinema nacional, abre a programação da 8½ Festa do Cinema Italiano, a partir de hoje, no Cine Cultura

O ponto de partida do longa-metragem Os irmãos Segreto, que funde as culturas nacional e italiana, reside na fundação do cinema no Brasil. O documentário, assinado por Federico Ferrone e Michele Manzolini, abre (às 14h de hoje, 25/6) as projeções de uma dezena de filmes alinhados na 13ª mostra 8½ Festa do Cinema Italiano por Generali. "No caso dos irmãos Segreto, a concepção estética do cinema ainda não era muito forte. Fixavam-se no registro da sociedade, da nova classe média carioca, atrelada aos esqumas de diversões", comenta o diretor Federico Ferrone, em entrevista ao Correio.

Vindos de Salerno (Itália) as figuras centrais do filme, os irmãos Paschoal e Gaetano, constituíram no Rio de Janeiro uma rede de entretenimento e jogatina, embrenhados ainda em ramos do empresariado, da publicidade e da lida com jornais. Responsáveis pela primeira produtora nacional de cinema, a Paschoal Segreto, até 1907, deteve o monopólio de produção e exibição regular no Brasil. Entre 1898 e 1901, a empresa gerou dezenas de filmes, documentais, uma vez que a ficção, no Brasil, entraria em campo em 1908.

Foi uma terceira ponta da família Segreto — o caçula Alfonso, de pouco mais 20 anos —, entretanto, que da embarcação Brésil, vinda da França, cunhou, em 19 de junho de 1898, o nascimento do cinema nacional, feito de certidão incompleta (sob controvérsia), a partir de imagens históricas registradas na Baía da Guanabara. Há pesquisas que indicam O préstito do Marechal Floriano para o cemitério (1898) como ponto inaugural, mas há quem considere Fortalezas e navios dispostos ao longo da baía da Guanabara como das pioneiras.

Fato é que, na Rua do Ouvidor (RJ), o Salão de Novidades Paris tornou-se reduto fixo de exibições de filmes, até 1898, quando de sua completa destruição por incêndio. Até a exibição dos "filmes alegres" (títulos mais calientes e avançados, num circuito do qual também tomaram parte), os Segreto exibiram filmes com cenas cotidianas, sequências oficialescas, produções associadas aos embates de operariado e ainda apresentações artísticas. Muito ficou no plano da oralidade (já que as fitas se perderam), mas, com o longa Os irmãos Segreto, entre fragmentos e imagens obtidas junto ao British Film Institute ou tiradas da empresa Pathé, numa composição de registros extraídos do YouTube, e ainda, entre trechos de filmes preservados em universidade norte-americana da Carolina do Sul (com cenas inéditas), o documentário da mostra dá forma a uma inesquecível jornada para a sétima arte.

Festa do Cinema Italiano/Divulgação - Federico Ferrone e Michele Manzolini desbravam o cinema brasileiro no novo documentário

 

Entrevista // Federico Ferrone e Michele Manzolini, cineastas

Sem fartura de imagens (dadas as perdas em incêndio), como lidaram com a oralidade das histórias do cinema? 

Federico Ferrone — Sim, isso traz uma questão aberta. O filme não é o filme definitivo sobre os Segreto, ao contrário, é uma contribuição a uma história que caberá a outras pessoas contarem. Então, a oralidade é uma escolha muito subjetiva. Muito fantasiosa também. É o que abre a possibilidade de exploração de novos olhares e ainda de utilização de material existente. O interessante na oralidade é não ser uma forma de comunicação que paire no alto. O poder vem também de baixo. É um elemento de formação da cultura que muda também na forma pela qual funciona. Se o cinema se queima, se perde; a oralidade também se transforma.

Vocês adulteraram muito as imagens antigas? 

Michele Manzolini — Na realidade, há somente uma correção de cor, porque é como o cinema de origem nas projeções vistas era. Há materiais antigos eram: muito coloridos, com tintas, resultante da imbibição (transferência de cores para filmes pioneiros) e não eram mostradas apenas em preto e branco. Vasculhamos filmes em azul e amarelo, então quisemos utilizar nessa forma original de visão. Optamos pela coloração, em momentos. Pegou um catálogo da Pathé com as cores originais de filmes e tentamos reconstruir tons originais. Usamos fragmentos que chegaram de um filme Silvino Santos, diretor português que registrou a Amazônia. Ele apostou num filme sobre o Rio de Janeiro, como o nascimento de uma grande cidade, e dele ficaram apenas alguns fragmentos.

Havia entendimento do alcance cultural dos filmes à época?

Manzolini — Não. No cinema de origem, não. Somente nos anos 50 e 60 começaram estudos do cinema anterior. Havia o âmbito anterior ligado às casas de diversões, ao teatro de rua. O cinema virou uma coisa importante, depois. Antes, não havia a intenção de se construir uma nova forma de linguagem. Eles (os Segreto) fizeram, os primeiros filmes, abriram o cinema, fizeram projeções e distribuíram. Reconhecer isso é reconhecer a história do cinema brasileiro. Tudo traz uma interessante história de migração e de pobreza, e de grande riqueza por meio do cinema. Há pioneiros parecidos, como os irmãos Lumière (França); na Alemanha (os Skladanowsky) e na Colômbia (os Di Domenico). Então, há uma história familiar, e amadora de cinema. Os filmes não eram percebidos como como arte; era diversão, e nem eram preservados. A preservação histórica e a formulação de arquivos data dos anos de 1930, na cinemateca sueca. Antes, depois de alguns meses de projeção, os filmes geravam perigo, era melhor queimá-los do que do que ficar numa numa acervo ou lugar que podia gerar fogo e insegurança.

Havia linguagem em curso, com os Segreto?

Manzolini — Na realidade entra a experimentação: o meio (cinema) não tinha uma gramática, uma linguagem específica. Operava no resumo do dia a dia, dos acontecimentos cidade: o que transcorria no cotidiano dos operários, no porto, e até de contos próximo ao que estava nos jornais, nas notícias. Há um primeiro filme do Alfonso — da chegada de embarcação na Baía da Guanabara. Nele, há movimento, já é um traveling para frente da chegando ao porto. O cineasta Julio Bressane, falando desse filme, disse: "O primeiro filme brasileiro é um filme experimental". O conceito experimental nasce com o primeiro filme no Brasil.

Os chamados filmes alegres (com indícios eróticos) fizeram morada na produção dos pioneiros Segreto?

Ferrone — O pesquisador Hernani Heffner acha que é provável. Ele não assegura. Mas, vejo como muito provável, porque naquela época, como na fotografia, o cinema contemplava o terreno do erótico. São fortes as possibilidades de que os Segreto tenham tido este investimento na distribuição.

Manzolini — Não creio que na criação, mas na distribuição dos filmes, sim. Esta pergunta é boa para os historiadores dos Segreto. Não acessamos a informação, na nossa pesquisa. Além dos filmes feitos pelas vistas do Rio de Janeiro, houve a criação de filmes sobre os grandes criminosos da cidade. Os Segreto fizeram filmes sobre os homicídios, grandes acontecimentos que paravam a cidade, como nos casos de crimes passionais, de roubos. Eles traziam esse lado de gênero cinematográfico; gênero que regularmente ficam voltando na história do cinema.


Destaques da mostra

Festa do Cinema Italiano/ Divulgação - Os irmãos Segreto é um dos títulos da 8 ½ Festa do Cinema
 

Os irmãos Segreto. Hoje (25/6), às 14h, no Cine Cultura Liberty Mall.

Festa do Cinema Italiano/Divulgação - Três vezes adeus
 

Três vezes adeus
Sábado, às 16h15. Domingo, às 18h.

Marta e Antonio são interpretados por Alba Rohrwacher (de La chimera) Elio Germano; ela, com a prática obrigação de fazer as escolhas certeiras para a vida; ele, um chefe de cozinha com apetite para novidades. Novamente, a espanhola Isabel Coixet (de Minha vida sem mim e A vida secreta das palavras) vai à raiz de um enredo em que há fiapo de existência para um personagem central. No caminho de Marta haverá o alento do professor Agostino (Francesco Carril, perfeito). A cumplicidade com Marta segue pela escolha das músicas intimistas, que incluem Sant´allegria (versão de Ornella Vanoni para Bem leve, de Marisa Monte) e I get along without you very well (Nina Simone).

Festa do Cinema Italiano/Divulgação - A ultima rodada

 

A última rodada
Hoje (25/6), às 16h. Amanhã (26/6), às 20h30

Enquanto, em Sideways, os fanfarrões do filme de Alexander Payne vagavam por  estrada de bebedeira californiana com questões algo filosóficas, neste filme de Francesco Sossai, a indescritível dupla Carlobianchi (Sergio Romano, visto em O negociador, também na mostra da festa italiana) e Doriano (Pierpaolo Capovilla) se esbalda na vida e estimula o naïf estudante de arquitetura Giulio (Fillipo Scotti) em jornada de descobertas. Entre golpes (pesa o episódio do hilário feito junto a um conde falido), o trio segue a trilha rumo ao encontro com Genio, num misto de acerto de contas e de saudades. Vencedor de oito prêmios David di Donatello, o longa traz inspirada cena no Túmulo de Brion, projetado por Carlo Scarpa, e tornado icônico, para além da origem de abrigar o corpo de Giuseppe Brion, empresário do ramo de equipamentos futuristas.

Festa do Cinema Italiano/Divulgação - O menino da calça rosa
 

O menino da calça rosa
Hoje (25/6), às 18h15. Segunda-feira, às 14h.

Denso, emotivo e necessário, o longa de Margharita Ferri expõe a visceral dor de Teresa Manes, destacada pelo governo italiano como porta-voz de uma problemática coletiva: o bullying escolar. Autora de Andrea — Além das calças cor-de-rosa, ela deu matriz ao roteiro Roberto Proia (de Deixa pra lá), tratando da morte do filho Andrea, em 2012. Uma cadeira vaga, um olhar esperançoso, um abraço derradeiro e a decisão de encampar uma discussão vital dão lastro ao filme protagonizado pela excepcional Claudia Pandolfi (A primeira cosia bela) e Samuele Carrino, esse na pele de Andrea Spezzacatena, o rapaz virtualmente apaixonado por Mr. Plus (papel de Andrea Arru), o colega Christian, com o qual Andrea se perde em intimidades.

 

 

 

 

 

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