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Espetáculo brasiliense vira livro bilíngue e ganha temporada na Espanha

Nesta quinta (2/7) e sexta-feira (3/7), o espetáculo brasiliense "Os nós desafinados sempre tocam uma nova melodia" será apresentado em Madri, no Teatro Bululú 2120, em uma versão integralmente adaptada para o espanhol

Há um ano, essa história era um rascunho, anotações e ensaios. Em outubro, o espetáculo foi convidado a ter sua estreia no Festival Internacional de Teatro Atlântico, em Cabo Verde, na África. E agora ela atravessa o oceano novamente. Nesta quinta (2/7) e sexta-feira (3/7), o espetáculo brasiliense Os nós desafinados sempre tocam uma nova melodia será apresentado em Madri, no Teatro Bululú 2120, em uma versão integralmente adaptada para o espanhol.

Será a primeira vez que o coletivo vai apresentar um espetáculo em outro idioma. A circulação marca um novo capítulo na trajetória da obra criada pelos atores e dramaturgos Rafael Salmona e Lucca Marques, do Coletivo Levante, grupo sediado no Espaço Multicultural Casa dos Quatro, em Brasília.

A temporada internacional acontece acompanhada de outro marco importante: o lançamento da edição bilíngue, em português e espanhol, da dramaturgia da peça, publicada pela Editora Giostri. A obra acompanha João e Felipe, dois homens que se reencontram anos depois enquanto tentam reorganizar memórias, afetos, traumas e ausências. Entre gravações, lembranças e silêncios, a narrativa atravessa temas como saúde mental, violência na infância, amor, luto e a forma como nossas feridas continuam ecoando ao longo da vida.

Integralmente em espanhol

O espetáculo já passou por Portugal, Espanha e Cabo Verde, mas esta será a primeira vez que será apresentado integralmente em espanhol. Para os artistas, o desafio vai muito além da tradução do texto. "Não estamos apenas trocando palavras de idioma. Estamos tentando fazer uma obra nascida em Brasília dialogar emocionalmente com pessoas de outra cultura, outro país e outra língua. É um desafio artístico enorme e, ao mesmo tempo, uma oportunidade muito bonita de encontro", afirma Lucca Marques.

A montagem recebeu recentemente uma crítica que destaca justamente a delicadeza com que aborda temas sensíveis como trauma e saúde mental. O texto foi definido como uma investigação ética e poética sobre a chamada criança ferida, explorando as marcas emocionais que permanecem na vida adulta. "O espetáculo dialoga sobre muitas questões sensíveis, mas, sobretudo, é uma história que abre sentidos sobre o entendimento do que é um amor que dá certo ou não. Nossa dramaturgia fragmentada é proposital e pautada através de estudos, reflexões e debates que envolvem a psicologia e a nossa sociedade", observa Lucca Marques.

Mas a circulação internacional também revela uma realidade pouco visível para o público: a dificuldade enfrentada por artistas independentes para levar seus trabalhos além das fronteiras brasileiras. Sem uma grande estrutura de produção e enfrentando incertezas relacionadas ao financiamento da viagem, o grupo mobilizou sua própria rede de apoio, realizou pré-venda do livro e buscou parcerias para tornar a circulação possível.

"Existe uma imagem romantizada da circulação internacional. As pessoas veem a foto do aeroporto ou do teatro, mas não veem os meses de planilhas, editais, negativas, captação de recursos e tentativas de fazer a conta fechar. Essa viagem só está acontecendo porque muita gente acreditou no projeto junto com a gente", comenta Rafael.

Projetar a produção cultural candanga

Para o Coletivo Levante, a viagem representa não apenas uma conquista artística, mas também uma oportunidade de projetar a produção cultural do Distrito Federal para novos públicos. "Mais do que apresentar uma peça, queremos mostrar que existe um teatro autoral sendo produzido em Brasília, com qualidade, pesquisa e potência para dialogar com o mundo", completa Salmona.

A trajetória que leva o espetáculo até Madrid também conta a história de resistência de um espaço cultural independente do Distrito Federal. O Coletivo Levante nasceu dentro da Casa dos Quatro, espaço multicultural localizado na Asa Norte que, ao longo dos últimos anos, se consolidou como um dos polos de criação, formação e produção teatral da cidade. Entre oficinas, espetáculos, festivais, processos criativos e ações comunitárias, o espaço se tornou um ponto de encontro para artistas e públicos diversos, apostando na produção autoral e na formação de novos criadores.

Casa dos Quatro

Em um cenário onde a manutenção de espaços culturais independentes é um desafio permanente, a Casa dos Quatro segue funcionando como um território de criação artística e de construção coletiva. É dali que surgem os projetos do Coletivo Levante, grupo que vem desenvolvendo dramaturgias originais voltadas para temas como saúde mental, diversidade, afetos, memória e direitos humanos.

A circulação em Madri representa mais do que uma conquista individual dos artistas envolvidos. É também o resultado de anos de trabalho contínuo de um coletivo e de um espaço cultural que escolheram permanecer produzindo arte em Brasília, mesmo diante das dificuldades de financiamento, manutenção e sustentabilidade do setor cultural.

"Às vezes as pessoas enxergam apenas a viagem internacional. Mas por trás dela existe uma escola, um teatro, uma equipe, alunos, oficinas, espetáculos e uma rede inteira de pessoas que acreditam na arte como ferramenta de transformação. Quando embarcamos para Madrid, não levamos apenas uma peça. Levamos um pedaço da história da Casa dos Quatro e da produção cultural do Distrito Federal", finaliza Rafael Salmona.

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