
Nos palcos do Live Aid, em 1985, o baterista Phil Collins sugeriu, em frente a um público de 162 mil pessoas presentes e cerca de 2 bilhões de espectadores, que aquela data, 13 de julho, deveria ser considerada o Dia Mundial do Rock, em homenagem ao evento histórico. Apesar do apelo do astro internacional, o marco passou a ser comemorado apenas no Brasil, com um empurrãozinho de rádios paulistas que repercutiram a provocação. Porém, para Fabricio Mazocco, pesquisador do rock nacional desde a década de 1990, acontecimentos mais marcantes do período de construção e consolidação do gênero no Brasil deveriam estar por trás de tal celebração.
Embora não exista uma data exata do surgimento do rock no Brasil, Fabricio destaca o 24 de outubro de 1955, quando Nora Ney gravou uma releitura de Rock around the clock, da banda norte-americana Bill Haley & His Comets. "Ela era uma cantora de samba, que estava entrando na bossa nova, e foi convidada para gravar a trilha sonora do filme Sementes da violência", conta o pesquisador. A história da regravação marca o primeiro capítulo do livro Esse tal de rock'n'roll, que reúne 50 causos do gênero no país.
"Ela cantava muito bem e tinha o nome bem colocado dentro da música brasileira, além de ser fluente em inglês. Foi ela mesma quem pegou a música original e traduziu para o português, inclusive", narra Fabricio. Outra data que, para ele, poderia justificar o Dia do Rock é o 11 de janeiro, data que marcou o primeiro show do Aborto Elétrico, no antigo bar Só Cana, no Centro Comercial Gilberto Salomão, em 1980, e a estreia do festival Rock in Rio, que ocorreu no mesmo dia e mês de 1985.
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Após o sucesso da releitura do sucesso norte-americano na voz de Nora Ney, foi a vez de Celly Campello trazer para o país versões de canções estrangeiras que resultaram em Estúpido cupido e Banho de lua. "Ela é quem mostra que o rock não é só música, é comportamento também", aponta o pesquisador. "Não havia só o disco da Celly, havia o programa, a boneca, a roupa. As mulheres queriam se vestir como ela", descreve Fabricio. Em seguida, veio a Jovem Guarda: "Aí sim que a coisa estoura".
Apesar de seguir certa cronologia, a obra não tem a intenção de contar a história do rock brasileiro, garante o pesquisador. "Precisaria de um livro de 4 mil páginas para isso. Eu quis contar os causos desse período", explica. Ao longo dos 50 capítulos, ele relembra episódios como a Marcha Contra a Guitarra, em 1967, e a comunidade hippie criada pelos Novos Baianos, na década de 1970. Produtores, festivais e casas de show também ganham destaque, como é o caso da Frenetic Dancing Days Discotheque, fundada em 1976 pelo jornalista Nelson Motta: "Aquilo foi uma loucura!".
"Eu também falo da prisão do Arnaldo Antunes e como isso resultou no disco Cabeça dinossauro, que completou 40 anos no mês passado", ressalta o criador da página Enigmas do Rock. Em 1985, o ex-Titã passou um mês em regime fechado por porte e tráfico de drogas. "Disso, surgiu uma união entre a banda, bem no estilo mexeu com um, mexeu com todos. E, aí, o Charles Gavin (ex-baterista), que nunca tinha escrito nada na vida, compõe a música Estado violência. E essa foi a resposta deles", afirma.
A icônica apresentação de Raul Seixas no festival Hollywood Rock 1975, que ficou marcada pela leitura do manifesto da Sociedade Alternativa, também é uma das passagens do livro. "Ele, para mim, era o cara que na década de 1970 já estava com um olhar lá para 2000 e não sei quanto", elogia Fabricio. "Até hoje as pessoas se questionam como ele não foi preso. O show dele foi uma afronta aos 'costumes' em plena ditadura militar", diz.
Outro artista que, na visão do pesquisador, desafiou o regime militar foi Ney Matogrosso. "Geralmente, não o colocam como um cara roqueiro, por ter cantado em outros estilos. Mas, em 1973, pleno AI-5, ele subia no palco de saia de purpurina e rosto pintado e rebolava o show todo. Isso é uma atitude roqueira. O rock não é só música — é discurso, fala e comportamento", declara Fabricio. "Ele representou uma transgressão absurda na música brasileira", acrescenta.
Legião e Brasília
Em meio a histórias do rock brasiliense, o fatídico show da Legião Urbana de 1988 ganhou um capítulo inteiro no livro. "Foi um acontecimento à parte na música brasileira", avalia Fabricio. O grupo liderado por Renato Russo desembarcou na cidade natal em 18 de junho daquele ano para o que prometia ser uma apresentação grandiosa da turnê do terceiro álbum do trio, Que país é este.
"Naquela época, eles já eram considerados a maior banda do rock brasileiro. E, no disco anterior, haviam se apresentado no ginásio Nilson Nelson. Desta vez, Renato quis algo maior", relata o pesquisador. Então, foi montada uma estrutura de 10 toneladas de som e um palco de 28 metros de largura para receber a Legião no Mané Garrincha. "Naquela época, só bandas internacionais faziam show em estádio. Renato falava que queria fazer algo como as turnês do Bon Jovi", revela.
A apresentação, no entanto, acabou se tornando um pesadelo. Em meio ao público em polvorosa, um fã invadiu o palco e agrediu Renato, que revidou o ataque. A partir daí, o show se tornou um "acerto de contas", como retrata Fabricio no livro, com o cantor proclamando frases como: "Cidade babaca!".
O trio encerrou a apresentação menos de 1h depois, resultando em fãs revoltados arremessando sapatos e garrafas no palco e apedrejando ônibus, enquanto a polícia tentava conter o público com golpes de cassetetes. "Renato saiu muito frustrado do show e, no dia seguinte, viu pichações em frente à casa dos pais com os dizeres: "Legião Urbana, não volte nunca mais", cita.
O evento encerrou com 200 fãs feridos. No livro, Fabricio relembra a manchete do Correio no dia seguinte: Legião Urbana foge e vira badernaço. "Foi um capítulo muito triste para a história da banda, principalmente por ter acontecido em Brasília, que foi o berço deles", lamenta o pesquisador.
Saiba Mais
Depoimentos
Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude
Infelizmente, o Rock tem perdido espaço durante os últimos anos. Mas não tem jeito, é ainda o gênero que mais levanta a juventude, que põe os jovens para pensarem e que junta postura e atitude como nenhum outro. Cada vez mais o rock virou coisa de nicho e isso é bom, é uma festa com lista de convidados restrito. Restrito a quem entende e quem acredita que uma canção pode mudar uma vida.
Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana
Eu quando criança fui impactado pelos Beatles e, depois, veio mais na adolescência Lou Reed, ouvindo Transformer. E aquilo transformou minha vida. Eu queria ter um casaco de couro, botas e foi assim que eu me transformei, incorporei e percebi o qual era a força transformadora do rock, na formação de uma vida. Esse é o sentido para mim do rock, que liberta, transforma e te abre as vias da sua vida quando você é jovem. Hoje em dia, não percebo isso acontecendo dessa forma que eu recebi. O rock hoje é uma coisa muito de nicho e eu espero que crianças e adolescentes mergulhem nesse nicho e tenham a mesma experiência que eu tive, que foi libertadora e que me transformou em quem eu sou hoje em dia. Eu estou aqui por conta dos Beatles, Led, Harmonies, Gang, The Clash, Joy Division, Talking Heads,Rolling Stones, entre tantos outros.

Diversão e Arte
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