Música

Livro reúne casos que marcaram a história do rock no Brasil

Pesquisador Fabricio Mazocco reúne casos que marcaram a história do rock no Brasil no livro Esse tal de rock'n'roll

1988. Crédito: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Tumulto em
1988. Crédito: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Tumulto em "show" da banda Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, imagem do livro Da poesia à eletricidade, autoria de Severino Francisco, publicado pelo Instituto Terceiro Setor. - (crédito: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)

Nos palcos do Live Aid, em 1985, o baterista Phil Collins sugeriu, em frente a um público de 162 mil pessoas presentes e cerca de 2 bilhões de espectadores, que aquela data, 13 de julho, deveria ser considerada o Dia Mundial do Rock, em homenagem ao evento histórico. Apesar do apelo do astro internacional, o marco passou a ser comemorado apenas no Brasil, com um empurrãozinho de rádios paulistas que repercutiram a provocação. Porém, para Fabricio Mazocco, pesquisador do rock nacional desde a década de 1990, acontecimentos mais marcantes do período de construção e consolidação do gênero no Brasil deveriam estar por trás de tal celebração.

Embora não exista uma data exata do surgimento do rock no Brasil, Fabricio destaca o 24 de outubro de 1955, quando Nora Ney gravou uma releitura de Rock around the clock, da banda norte-americana Bill Haley & His Comets. "Ela era uma cantora de samba, que estava entrando na bossa nova, e foi convidada para gravar a trilha sonora do filme Sementes da violência", conta o pesquisador. A história da regravação marca o primeiro capítulo do livro Esse tal de rock'n'roll, que reúne 50 causos do gênero no país.

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"Ela cantava muito bem e tinha o nome bem colocado dentro da música brasileira, além de ser fluente em inglês. Foi ela mesma quem pegou a música original e traduziu para o português, inclusive", narra Fabricio. Outra data que, para ele, poderia justificar o Dia do Rock é o 11 de janeiro, data que marcou o primeiro show do Aborto Elétrico, no antigo bar Só Cana, no Centro Comercial Gilberto Salomão, em 1980, e a estreia do festival Rock in Rio, que ocorreu no mesmo dia e mês de 1985.

Após o sucesso da releitura do sucesso norte-americano na voz de Nora Ney, foi a vez de Celly Campello trazer para o país versões de canções estrangeiras que resultaram em Estúpido cupido e Banho de lua. "Ela é quem mostra que o rock não é só música, é comportamento também", aponta o pesquisador. "Não havia só o disco da Celly, havia o programa, a boneca, a roupa. As mulheres queriam se vestir como ela", descreve Fabricio. Em seguida, veio a Jovem Guarda: "Aí sim que a coisa estoura".

Apesar de seguir certa cronologia, a obra não tem a intenção de contar a história do rock brasileiro, garante o pesquisador. "Precisaria de um livro de 4 mil páginas para isso. Eu quis contar os causos desse período", explica. Ao longo dos 50 capítulos, ele relembra episódios como a Marcha Contra a Guitarra, em 1967, e a comunidade hippie criada pelos Novos Baianos, na década de 1970. Produtores, festivais e casas de show também ganham destaque, como é o caso da Frenetic Dancing Days Discotheque, fundada em 1976 pelo jornalista Nelson Motta: "Aquilo foi uma loucura!".

"Eu também falo da prisão do Arnaldo Antunes e como isso resultou no disco Cabeça dinossauro, que completou 40 anos no mês passado", ressalta o criador da página Enigmas do Rock. Em 1985, o ex-Titã passou um mês em regime fechado por porte e tráfico de drogas. "Disso, surgiu uma união entre a banda, bem no estilo mexeu com um, mexeu com todos. E, aí, o Charles Gavin (ex-baterista), que nunca tinha escrito nada na vida, compõe a música Estado violência. E essa foi a resposta deles", afirma.

A icônica apresentação de Raul Seixas no festival Hollywood Rock 1975, que ficou marcada pela leitura do manifesto da Sociedade Alternativa, também é uma das passagens do livro. "Ele, para mim, era o cara que na década de 1970 já estava com um olhar lá para 2000 e não sei quanto", elogia Fabricio. "Até hoje as pessoas se questionam como ele não foi preso. O show dele foi uma afronta aos 'costumes' em plena ditadura militar", diz.

Outro artista que, na visão do pesquisador, desafiou o regime militar foi Ney Matogrosso. "Geralmente, não o colocam como um cara roqueiro, por ter cantado em outros estilos. Mas, em 1973, pleno AI-5, ele subia no palco de saia de purpurina e rosto pintado e rebolava o show todo. Isso é uma atitude roqueira. O rock não é só música — é discurso, fala e comportamento", declara Fabricio. "Ele representou uma transgressão absurda na música brasileira", acrescenta.

Legião e Brasília

Em meio a histórias do rock brasiliense, o fatídico show da Legião Urbana de 1988 ganhou um capítulo inteiro no livro. "Foi um acontecimento à parte na música brasileira", avalia Fabricio. O grupo liderado por Renato Russo desembarcou na cidade natal em 18 de junho daquele ano para o que prometia ser uma apresentação grandiosa da turnê do terceiro álbum do trio, Que país é este.

"Naquela época, eles já eram considerados a maior banda do rock brasileiro. E, no disco anterior, haviam se apresentado no ginásio Nilson Nelson. Desta vez, Renato quis algo maior", relata o pesquisador. Então, foi montada uma estrutura de 10 toneladas de som e um palco de 28 metros de largura para receber a Legião no Mané Garrincha. "Naquela época, só bandas internacionais faziam show em estádio. Renato falava que queria fazer algo como as turnês do Bon Jovi", revela.

A apresentação, no entanto, acabou se tornando um pesadelo. Em meio ao público em polvorosa, um fã invadiu o palco e agrediu Renato, que revidou o ataque. A partir daí, o show se tornou um "acerto de contas", como retrata Fabricio no livro, com o cantor proclamando frases como: "Cidade babaca!".

O trio encerrou a apresentação menos de 1h depois, resultando em fãs revoltados arremessando sapatos e garrafas no palco e apedrejando ônibus, enquanto a polícia tentava conter o público com golpes de cassetetes. "Renato saiu muito frustrado do show e, no dia seguinte, viu pichações em frente à casa dos pais com os dizeres: "Legião Urbana, não volte nunca mais", cita.

O evento encerrou com 200 fãs feridos. No livro, Fabricio relembra a manchete do Correio no dia seguinte: Legião Urbana foge e vira badernaço. "Foi um capítulo muito triste para a história da banda, principalmente por ter acontecido em Brasília, que foi o berço deles", lamenta o pesquisador. 

Depoimentos

Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude 

Infelizmente, o Rock tem perdido espaço durante os últimos anos. Mas não tem jeito, é ainda o gênero que mais levanta a juventude, que põe os jovens para pensarem e que junta postura e atitude como nenhum outro. Cada vez mais o rock virou coisa de nicho e isso é bom, é uma festa com lista de convidados restrito. Restrito a quem entende e quem acredita que uma canção pode mudar uma vida.

Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana 

Eu quando criança fui impactado pelos Beatles e, depois, veio mais na adolescência Lou Reed, ouvindo Transformer. E aquilo transformou minha vida. Eu queria ter um casaco de couro, botas e foi assim que eu me transformei, incorporei e percebi o qual era a força transformadora do rock, na formação de uma vida. Esse é o sentido para mim do rock, que liberta, transforma e te abre as vias da sua vida quando você é jovem. Hoje em dia, não percebo isso acontecendo dessa forma que eu recebi.  O rock hoje é uma coisa muito de nicho e eu espero que crianças e adolescentes mergulhem nesse nicho e tenham a mesma experiência que eu tive, que foi libertadora e que me transformou em quem eu sou hoje em dia. Eu estou aqui por conta dos Beatles, Led, Harmonies, Gang, The Clash, Joy Division, Talking Heads,Rolling Stones,  entre tantos outros.

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postado em 13/07/2026 00:01 / atualizado em 13/07/2026 14:46
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