
Difícil imaginar algum limite visual ou narrativo para o longa A Odisseia, que propaga retumbantes expectativas: sob orçamento de US$ 250 milhões, o mesmo diretor de Oppenheimer e Batman: o Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan, comanda a saga de Odisseu (vivido por Matt Damon) exposta no mitológico texto de Homero. Com um elenco estelar, Nolan, por mais de meio ano, esteve em filmagens por Marrocos, Grécia, Itália, Islândia, Malta (no Mediterrâneo) e Escócia, e ainda por parte do Saara Ocidental. Vale a lembrança de que, há três anos, com o vencedor do Oscar de melhor filme, Oppenheimer, o cinema de Nolan respondeu por renda de, praticamente, US$ 1 bilhão.
Repleto de carga pessoal, o filme já atravessou polêmicas — uma das maiores referente à seleção de Lupita Nyong'o para dar vida a Helena de Troia, herdeira de Zeus e Leda (nascida a partir da eclosão de um ovo). Entre detratores prévios esteve Elon Musk. Foi Lupita quem revidou, comedida: "Nosso elenco reflete o mundo. Não vou perder meu tempo pensando em uma defesa. As críticas existirão e são inevitáveis". Ao jornal britânico The Telegraph, o cineasta complementou: "Há conversas que despontam antes de as pessoas assistirem ao filme, e elas são irrelevantes, pois ainda vêm sem visão de conteúdo".
Contribuição vital da Grécia Antiga ao campo literário, o poético A Odisseia resgata o miolo da Guerra de Troia, aposta na crise individual de Odisseu, apartado da irrepreensível esposa Penélope e do filho Telêmaco, que, aos poucos perde a inocência. Também filial é a relação entre Poseidon (entidade associada ao mar) e Polifemo, monstruoso ser de um só olho, o Ciclope. Sereias, feiticeiras e guerreiros estamparão as telas, no filme de quase três horas que traz talentos como os de Tom Holland, Bill Irwin e Anne Hathaway. "Honrar" o texto original veio como dever de casa para Nolan, que, no campo técnico contou com profissionais como Ludwig Göransson (trilha sonora) e Jennifer Lame (montagem). A esposa e produtora Emma Thomas também esteve na produção, bem como o diretor de fotografia holandês Hoyte van Hoytema.
A reboque de vistosos figurinos e de elaborados efeitos visuais, desfilam reconhecidos astros de cinema como Mia Goth, John Leguizamo e Jon Bernthal. Resistente ao uso da Inteligência Artificial (para além de "ferramentas de imagem") no seu cinema, Nolan persegue o uso de talentos palpáveis, como Zendaya, na pele da deusa estrategista Atena; Samantha Morton como a feiticeira acolhedora Circe e Charlize Theron encarando a possessiva ninfa Calipso. Na adaptação do épico grego, Antínoo cabe à interpretação de Robert Pattinson, antagonista que investe em Penélope e no reinado de Ítaca. Sempre associado ao drama Juno, o ator trans Elliot Page, no novo filme, dá vida ao batalhador, mas pueril Sinon.
Adepto da intenção de imprimir toques pessoais na nova versão para a leitura de Homero, Nolan, intimamente associado a filmes instigantes, vide Amnésia, A origem e Interestelar, defendeu em entrevista à AFP a valorização da aposta em formas de narrativa "táteis e reais". Vestígios de fatos teriam inspirado Homero, que no século VIII a.C., teria se fixado em eventos transcorridos há mais de 400 anos para os registros, "algo romantizados" (à época), pelo que já analisou o diretor. Admirador confesso de talentos da última safra dos meios virtuais, entre os quais Curry Barker e Kane Parsons ("estão se apropriando da linguagem e fazendo o meio do cinema avançar"), o cineasta, por sua vez, não é grande encorajador do recurso da inteligência artificial, pelo que contou a AFP, com certo lacre: "a ideia de que ela (a IA) substitua totalmente os seres humanos e a criatividade das pessoas é, para mim, um absurdo".
Fluente em elementos recorrentes no cinema de Nolan, como crises e reafirmação de identidade, A Odisseia despontou, pelo que relatou o diretor, na lacuna sentida nos filmes de ação algo ambiciosos dos anos de 1950 e 1960, alimentados pela mitologia grega. Nisso, para a imprensa internacional, junto com certa aversão à tecnologia, Christopher Nolan comentou da inclinação para os truques de um arsenal cinematográfico menos elaborado. Na ocasião, citou a piscadela para um filme de Desmond Davis, o clássico oitentista Fúria de Titãs, que contou com manipulação de bonecos e efeitos ópticos, a cargo do lendário técnico em animação Ray Harryhausen, morto há 13 anos.
Cenas de tempestade, uma olhadela no plano dos mortos, gerido por Hades, a presença de gigante e ainda da feiticeira Circe (Samantha Morton) prometem desafiar os nervos dos espectadores, entre mágicas e imagens violentas. Ciente de seu potencial de impacto, Christopher Nolan sentencia, frente às criações e espíritos lúdicos: "Vejo cada filme que faço como se fosse o último que farei — e um dia estarei certo. Quero que cada filme encerre tudo".
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