
Bonito — Com Brasília como personagem viva da narrativa, o longa Honestino, estrelado por Bruno Gagliasso e dirigido por Aurélio Michaelis, foi exibido na quarta edição do Bonito Cinesur — Festival de cinema sul-americano. O filme retrata a história de Honestino Guimarães, líder estudantil perseguido, sequestrado e desaparecido em 1973, após lutar firmemente contra a ditadura militar. O diretor do projeto foi estudante da Universidade de Brasília (UnB) e amigo pessoal de Honestino Guimarães.
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Aurélio conta que esse trabalho teve um gosto especial. "Passamos quatro anos com um grupo político no Brasil fascinado pela ditadura, querendo impor regras à liberdade, cultuando torturadores e armas, e combatendo a cultura e a educação. Conseguimos derrotar esse grupo na direção do país, mas eles continuam conspirando e nos ameaçando. Para a minha geração, que viveu a juventude na ditadura, isso é um pesadelo. Ao fazer o filme sobre o Honestino, quis conectar passado e presente como uma coisa só, fugindo da mera nostalgia", expressa o diretor.
Além disso, ver a UnB estampada nas telas foi uma emoção a mais para o diretor. "Eu quase morro. Foi uma experiência de trazer de dentro algo que estava engasgado por décadas. É um projeto familiar. Eu estudei na UnB, mas na época do Honestino era secundarista. Havia um movimento de massa estudantil. Acabei ficando amigo dele até o início de sua vida clandestina", revela. Aurélio conta que, como realizador, sentiu que deveria testemunhar contra as ameaças vividas e mostrar a história de um jovem que deu a vida pela liberdade e pela educação pública. "Honestino foi o primeiro lugar no vestibular e o melhor aluno de Geologia; ele tinha potencial para ser presidente ou um grande cientista, mas dedicou tudo para revolucionar o mundo", afirma.
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Bruno Gagliasso interpreta Honestino em uma atuação que valoriza o silêncio e traz momentos marcantes da trajetória do líder estudantil, em paralelo aos depoimentos de familiares e imagens de arquivo da época. Para Aurélio, Bruno consegue lidar perfeitamente com a complexidade do personagem. "Essa é a beleza da interpretação: a capacidade de transmutação e doação. Quando se faz um vilão, tira-se o pior de si; quando se faz um herói, doa-se o melhor para que as pessoas se espelhem. O Bruno demonstra essa capacidade extraordinária na carreira, transitando entre personagens variados, de traficantes a líderes estudantis", garante.
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Para Aurélio, o ambiente do festival de cinema é fundamental para a cinematografia brasileira. "Primeiro, porque forma público. As pessoas saem de casa, do celular e da televisão, para um evento onde se fala, se inspira e se troca sobre cinema. São dias respirando cinema, com cursos, curtas, filmes infantojuvenis e adultos, inclusive, de outros países. Isso é um eco poderoso. Não há nada mais bonito do que ver uma sala cheia e pessoas fazendo fila para assistir ao filme", destaca o cineasta sobre o Bonito Cinesur.
Entrevista com Bruno Gagliasso
A Universidade de Brasília é personagem em Honestino. Como foi gravar nesse espaço tão marcante para a história?
Foi muito emocionante porque a faculdade ainda está lá. O Aurélio viveu tudo aquilo ao lado do Honestino. Ver a emoção dele dirigindo aquelas cenas, a importância de contar essa história que ele também viveu, foi algo que me deixou arrepiado. Eu entrei no filme por um convite do Sérgio Machado, que me apresentou ao Aurélio após ele ter me visto em Marighella. Ele me contou a história toda e eu topei na hora, porque isso é muito importante para mim como ator e como ser humano: estar do lado certo da história, já que eu estive do lado mais sombrio da história interpretando o papel em Marighella. Foi emocionante, cara. Emocionante! Espero que a história do Honestino possa chegar a vários jovens.
O filme será lançado em um ano de eleição e em um Brasil com mais de 40 anos de democracia. Eu queria que você falasse um pouco sobre a importância desse lançamento.
Total. O filme retrata fatos de 50 anos atrás, mas veja bem: até hoje a gente luta por democracia, por saúde e educação. Então é importantíssimo. Não é só mais um filme sobre o tema; é um filme sobre a nossa história. É importante estar na boca e no peito das pessoas, que elas abracem esse filme e se sintam parte, porque ele é sobre a nossa história.
O que tem de você no Honestino das telas?
Cara, eu acho que todo mundo que luta e quer mudar o mundo é um pouco Honestino. Vocês que estão aqui também são um pouco Honestinos, tenho certeza. O Honestino, na verdade, era um jovem comum. Foi isso que eu quis mostrar quando aceitei o papel: estudando, vi que ele era um jovem como qualquer outro, que foi às ruas, há pouco tempo, lutar por tudo isso. Então, todos nós somos Honestino. Basta pensar no outro, no coletivo, e querer mudar o mundo. Fui estudar a história, ler as cartas e ouvir as músicas. Eu não tentei criar nada, tentei viver o personagem. Eu também acredito na democracia, na liberdade, na educação e na saúde. Foi um processo de dentro para fora, e acho que isso transpareceu na tela. Por isso, as pessoas se emocionam, mesmo sendo um documentário.
Que impacto o ar documental, com os depoimentos de pessoas próximas, causa nas pessoas?
É muito forte. Vemos não só os companheiros de luta, mas a família; o quanto eles sofreram. Vocês não têm ideia da emoção deles assistindo ao filme. Isso é muito legal. Lembro que a esposa dele me disse: "Você está com o andar dele, como é que você fez?". Eu respondi que não sabia, pois nunca o vi andar, mas eu senti. Tentei fazer com o coração aberto e acho que isso ficou na tela. Há muito do Bruno ali também. Tem uma parte emocionante em que eu leio um texto; na verdade, ali era eu chorando, não apenas o personagem.
O que você aprendeu sobre o Brasil com o Honestino que o Aurélio apresentou e com o que você criou?
Aprendi que eu não estava fazendo apenas um filme sobre a história, mas sobre um homem, um garoto que tinha mãe, amigos, que amava, escrevia poesia e tinha uma relação com o pai. Essas figuras históricas eram humanas, e eram tão humanas que lutavam por nós. Era sobre essa humanidade que eu queria falar. Meu papel é o de qualquer pessoa engajada com o seu país, com a democracia e com a verdade. Se posso trazer as pessoas para conhecerem a própria história, meu dever como artista é esse: trazer à tona o que, de fato, aconteceu. Tentaram apagar a história desses jovens, mataram o corpo, mas não o espírito. Muita gente não conhecia o Honestino Guimarães. Meu papel é dar luz a isso. Temos que nos apropriar da nossa história e valorizar essas pessoas que desapareceram durante a ditadura.
*A repórter viajou a convite da organização do Bonito Cinesur — Festival de cinema sul-americano

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