Paris — Em menos de 48 horas, o BTS escreveu dois novos capítulos de uma trajetória já marcada por feitos históricos. Após encerrar a etapa europeia da turnê Arirang diante de 92 mil pessoas no Stade de France, em Paris — o maior público já registrado pelo grupo em uma única apresentação, superando a própria marca estabelecida na noite anterior —, o septeto sul-coreano seguiu para os Estados Unidos para participar do primeiro show de intervalo realizado em uma final de Copa do Mundo da FIFA. A sequência de eventos consolidou uma realidade que há muito deixou de ser restrita ao universo do K-pop: o BTS consolidou-se como um dos fenômenos culturais mais influentes do mundo contemporâneo.
O encerramento da passagem pela Europa teve contornos históricos. A turnê passou por Espanha, Bélgica, Reino Unido, Alemanha e França — e culminou em duas apresentações no Stade de France, maior estádio francês e palco de alguns dos mais importantes eventos esportivos e culturais do planeta. Na segunda noite parisiense, Kim Taehyung — conhecido mundialmente pelo nome artístico V — anunciou ao público a presença de 92 mil espectadores. O número representou o maior público já reunido pelo BTS em um único show e transformou Paris em um marco na carreira do grupo.
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Durante mais de duas horas de espetáculo, o estádio tornou-se um retrato da diversidade que acompanha o grupo ao redor do mundo. Crianças dividiam espaço com idosos, famílias inteiras cantavam lado a lado e fãs de diferentes nacionalidades compartilhavam uma experiência comum. Entre os presentes, era possível ouvir dezenas de idiomas diferentes, refletindo uma característica que se tornou marca registrada do BTS: a capacidade de ultrapassar fronteiras geográficas, culturais e geracionais — algo que o mercado fonográfico ocidental raramente consegue replicar.
Os números ajudam a explicar a dimensão do fenômeno, mas dificilmente contam toda a história. Desde janeiro, em conversas realizadas com fãs no Brasil, na Coreia do Sul, no México, em diferentes países da Europa e da América Latina, uma mesma narrativa surgiu repetidamente. As histórias eram distintas, assim como os contextos culturais e sociais. Ainda assim, muitos relatavam ter encontrado na música e nas mensagens do grupo apoio em momentos de perda, solidão, ansiedade, depressão ou profunda transformação pessoal.
Essa percepção ajuda a compreender a singularidade da relação entre o BTS e a comunidade conhecida como ARMY. Mais do que admiradores de um grupo musical, milhões de pessoas ao redor do mundo descrevem uma experiência de pertencimento construída ao longo de mais de uma década. Em uma época marcada pela polarização e pelo isolamento social, o BTS tornou-se, para muitos, um espaço de acolhimento, identificação e esperança.
A reciprocidade desse vínculo ficou evidente nos momentos finais do segundo show em Paris. Jung Kook revelou que teve dificuldades para dormir após a primeira apresentação na cidade, ainda impactado pela energia do público. Em seguida, emocionado, afirmou ter sido muito feliz durante a turnê europeia, confessou que não queria deixar aquele momento para trás e lamentou que os inúmeros compromissos da agenda do grupo exijam despedidas tão rápidas.
O sucesso da turnê também evidenciou os desafios logísticos de um fenômeno dessa dimensão. Grandes eventos realizados ao longo do ano reuniram públicos internacionais expressivos, exigindo operações complexas de mobilidade e segurança. A experiência reforça a importância de um planejamento cada vez mais cuidadoso para receber artistas capazes de mobilizar dezenas de milhares de pessoas vindas de diferentes partes do mundo.
Poucas horas depois de se despedir de Paris, o BTS voltaria a fazer história ao participar do primeiro show de intervalo de uma final de Copa do Mundo. O feito reforçou seu alcance global. Mas, para muitos dos fãs que lotaram o Stade de France, a importância daquele fim de semana talvez não esteja apenas nos recordes ou nos marcos inéditos. Está na capacidade de sete artistas sul-coreanos de criar conexões humanas profundas com pessoas de diferentes idades, culturas e idiomas.
Talvez essa seja a explicação mais precisa para o fenômeno: mais do que exportar música, o BTS construiu uma linguagem emocional compreendida em qualquer parte do mundo.
Mônica Cabañas é jornalista, correspondente internacional e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, doutora em educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto O Mundo por trás do Mundo.
