No Festival de Berlim, mais de 1000 pessoas testemunharam o nascimento, em cinema, do diferenciado grupo de meninas do interior do Piauí, representadas no filme A fabulosa máquina do tempo, que abraçaram "enriquecido" destino, com "beleza e sagacidade" da vibração de um cotidiano transformado. Debates sobre sexualização precoce, questionamentos infantis, autonomia das mulheres, frustrações de mães e a luta por uma representatividade diferenciada entram no miolo do filme, um documentário. "O filme foi concebido como uma fita com crianças para adultos. No desenvolvimento, a gente torce para que aquelas meninas alcancem os sonhos delas, e entendemos muito claramente que o machismo estrutural e a pobreza são obstáculos para isso se efetivar", destaca a diretora Eliza Capai, em entrevista ao Correio.
Eliza vestiu personas de professora (das meninas) e de realizadora, com trocas cheias de "respostas naturais e espontâneas". Durante a realização houve "debate criativo de cenas propostas" a serem executadas. "A intensidade do lúdico pode ser creditada às meninas. Tudo surgiu como uma oficina de audiovisual, com 15 meninas, com idades entre 7 e 11 anos. Por meio de brincadeiras e da infância, elas formulavam brincadeiras ligadas à descobertas como a de que, por exemplo, criança morre, e acomodavam as informações na telona", conta Eliza Capai.
Testemunhar a saída da miséria, a empatia reservada ao "protagonismo feminino" e a libertação de "escravidão" está no colo do espectador. "Na K-Plus (em Berlim), que é uma sessão para público infantil, em sessões muito fofas. Senti que as crianças ficavam ali, vibravam e as pré-adolescentes gostavam muito, porque se identificavam com os dramas, pelos pais e pelo conteúdo das aulas", diz a diretora. Carinho e pedidos de autógrafos derivaram da receptividade do filme, que examina condições para um futuro mais próspero que desautorize frases lamentáveis como a ouvida no filme: "O homem é o gigante da mulher".
Entrevista // Eliza Capai, cineasta
A discussão da sexualidade e das danças pode gerar polêmica?
O objetivo da cena é abarcar complexidades. A cena do funk expõe a fragilidade da inocência das crianças. Foram cenas debatidas. Se ela está no filme, é porque a própria cena nos gera um incômodo muito grande de ver aquelas crianças performando o que os nossos olhos adultos entendem como sexo, e porque, ela revela em si, na visão das meninas estarem apenas dançando. Revelamos o cuidado que nós, adultos, devemos ter com a infância. Sou da geração do auge do funk, cresci performando sexo, sem ter a menor ideia do que do que era aquilo.
Por que há ausência das vozes dos pais no filme?
A motivação da ausência dos pais (homens) se dá pelo filme surgir em decorrência de uma investigação que fiz em 2013, quando li Vozes do Bolsa Família, que falava como a partir da recepção do Bolsa Família, que é majoritariamente entregue às mulheres. Isso não é gratuito, é devido a muitos estudos de microcrédito, mostrarem do destino, quando, no geral, o homem gastar fora de casa: gasta com bebida, gasta com outras mulheres, e quando você entrega para as mulheres o dinheiro, elas gastam, em primeiro lugar, com comida, e, depois, com material escolar. Decidi ir para Guaribas, cidade piloto do Fome Zero e do Bolsa Família.
Como se refletiu isso?
As mulheres diziam que, quando meninas, sonhavam em ter um bom marido e que desse valor para elas. Quando, anos depois, falo com as filhas dessas mulheres, todas, já meninas bem nutridas, me diziam que não queriam casar, não queriam ter filhos e falavam a profissão que queriam ter. E eu achei muito curiosa essa mudança de subjetividade. É mudança em uma geração.
Como tratou de temas espinhosos como o da Igreja?
Tratamos com muito cuidado. Nas primeiras idas à filmagem, praticamente todas as pessoas eram católicas. E, quando do retorno, em 2024, todos se convertido a diferentes religiões evangélicas. Sou crítica quanto ao machismo estrutural, e a religião tem uma relação muito direta com aceitação e estruturação. Mas a Igreja é lugar de socialização das próprias mulheres, é para onde se arrumaram, podem pegar o microfone, podem cantar e contar histórias. Lá estão num lugar de uma construção de uma rede muito importante. Eu achei muito importante mostrar isso. De um lado, com a Bíblia e a formação de muitos pastores, se reforça o machismo estrutural; por outro lado, a presença da Igreja (no fator rede), rompe esse machismo.
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