
A montagem do grupo Tapa para Escola de mulheres, de Molière, e a veia tragicômica de Luiz Fernando Guimarães em Baixa sociedade, um texto de Juca de Oliveira, são os destaques da programação de teatro do fim de semana. As duas comédias têm texto perspicaz e contemporaneidade inevitável, ainda que o Molière date do século 17, e tratam de hábitos e costumes com um humor ancorado na vida cotidiana.
Um terrível engano
Arnolfo é um velho burguês que decide internar a noiva desde a infância em um convento na esperança de mantê-la ignorante em relação ao mundo e, assim, evitar o maior de seus medos: uma traição. A trama diabólica vai além: quando Arnolfo escolhe Inês, ela tem apenas 4 anos. "A peça começa muito mal, porque, pelos tempos de hoje, Arnolfo é um pedófilo", explica o ator Brian Penido, que vive o personagem no palco. Mas Molière trata de punir a perversão do homem ao transformá-lo, durante toda o espetáculo, em alvo de chacotas e sérios questionamentos.
Nascido Jean-Baptiste Poquelin, Molière escreveu Escola de mulheres na década de 1660, sob o reinado de Luís 14, num momento em que a corte francesa estava mergulhada em um estilo de vida mundano e liberal, avançado e libertário se comparado às outras cortes europeias. Arnolfo representa uma espécie de atraso, de resistência ao avanço inevitável das sociedades que culminaria, mais de 100 anos depois, com a Revolução Francesa. "Arnolfo tinha uma tese de que as mulheres traíam os maridos por causa da permissividade da corte, porque elas eram muito sabidas, saíam à noite, iam ao teatro, jantavam fora, participavam de jogos, e essa vida mundana fazia com que elas traíssem os maridos, então ele queria uma mulher muito ignorante, que não conhecesse nada da vida. Assim, ele não seria traído", explica Penido.
Perdido num emaranhado de equívocos, Arnolfo acaba preso na própria armadilha quando Inês se encanta por outro homem diante do primeiro elogio recebido ao deixar o convento. Penido compara o personagem às máscaras de pantaleão da clássica Comédia Dellarte, que reservava a essas personalidades risíveis o lugar de bobos da corte. Para o ator, isso faz de Molière um defensor dos direitos das mulheres. "Molière é um feminista", garante Penido. "A peça conversa totalmente com os dias de hoje porque nunca esteve tão em pauta esse assunto da pedofilia, do abuso. Arnolfo é abusivo."
A montagem tem no palco o elenco do Grupo Tapa dirigido por Clara Carvalho, integrante da companhia, que optou por situar a ação nas 24 horas de um único dia e levou para a cena telões que refletem o sol e a lua e um visual muito gráfico, com praticáveis para delimitar espaços. A diretora optou, também, por costurar tudo com o amor: um cupido passeia pelas cenas distribuindo flechas entre Inês e o galã Horácio.
SERVIÇO
Escola de Mulheres De Molière. Com Grupo Tapa.
- Hoje, às 16h e às 21h, e amanhã, às 13h e às 16h, na CAIXA Cultural (SBS - Quadra 4 - Lotes ¾). Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia).
- Não recomendado para menores de 12 anos
Classe média endividada
Escrita por Juca de Oliveira na década de 1970, Baixa sociedade nunca deixou de conversar com a realidade brasileira. O texto, como aponta Luiz Fernando Guimarães, que vive o protagonista em montagem em cartaz hoje e amanhã no Teatro Unip, tem ecos que reverberam até hoje. Na história imaginada por Oliveira, Otávio é um cidadão de classe média com a corda no pescoço diante de boletos e dívidas. Como bom brasileiro, também é criativo e acredita ser possível inventar uma saída genial da decadência com planos mirabolantes e projetos de produtos pelos quais ninguém se interessa.
E nessa luta de, ao mesmo tempo, tentar subir um degrau na escala social e não despencar totalmente para o térreo, ele mete os pés pelas mãos. "A peça fala muito ao público brasileiro, porque o público vive isso, vive de contenções, despesas. A gente, toda hora, tem que parar a vida para se organizar e reorganizar, porque senão o dinheiro vai embora. É uma coisa que as pessoas entendem e, por isso, elas se identificam demais com o Otávio. Ele é um brasileiro nato", avisa Luiz Fernando Guimarães.
Com direção de Pedro Neschling, Baixa sociedade é também um retrato do cotidiano de milhares de brasileiros. Otávio dá um jeito de enfrentar a penúria e para isso recorre a uma coleção de gambiarras que se diluem pelo desenvolvimento da peça.
Ele não está sozinho no palco e divide a narrativa com o filho, Otavinho, vivido por Paulo Mathias Jr, a quem tenta convencer a casar-se com uma moça rica. "Ele é um cara que poderia ser chamado de fracassado, mas ele não se sente assim, eles se sente o bambambã. Isso leva para o lado do humor, é uma peça irreverente, é muito leve. E tem uma coisa incrível: ele fala absurdos, mas as pessoas saem achando o personagem fofo. E o filho é o contrário dele", avisa Guimarães, que foi buscar em Asdrúbal trouxe o trombone, grupo que formou com Regina Casé nos anos 1970, inspiração para viver Otávio.
"O Asdrúbal viajava para diversos lugares de forma muito rápida e a gente tinha que se adaptar ao público rapidamente, isso me ajudou a ouvir o público antes de contar a história. É uma coisa altamente intuitiva, o que torna o teatro muito recreativo, porque quando vejo, estou no final da peça", conta o ator.
SERVIÇO
- Baixa Sociedade
- Direção: Pedro Neschling.
- Com Luiz Fernando Guimarães, Paulo Mathias Jr, Bruna Trindade e Debora Ozorio. Hoje e amanhã, às 20h, e domingo, às 20h e às 19h, no Teatro Unip (SGAS 913).
- Ingressos: a partir de R$ 90.
- Não recomendado para menores de 14 anos
