
Aos 54 anos e com 25 de estrada, Rodrigo Fagundes vive um dos momentos mais especiais de sua trajetória artística. Escalado para interpretar Nicolau em Quem ama cuida, novela das 21h da TV Globo, o ator mineiro de Juiz de Fora entrega ao público um personagem que foge radicalmente do humor escrachado que o consagrou no extinto Zorra Total e em tantos outros trabalhos ao longo dos anos. E essa mudança de registro, longe de ser um acaso, é fruto de um desejo antigo do ator, que sempre buscou se desvencilhar do rótulo de comediante para explorar outras camadas da atuação.
"Sempre tive esse desejo de não ter que ser necessariamente engraçado em cena. Amo o humor, sei fazer, está em mim. Mas acho que capricho na humanidade do Nicolau, na verdade dele. A graça vem das situações. A tragédia flerta descaradamente com a comédia. Na vida e na arte também", reflete Rodrigo, que vê no personagem uma oportunidade de mostrar sua versatilidade sem abrir mão de sua essência cômica, mas colocando-a a serviço de uma construção mais densa e emocional.
Segundo o ator, Nicolau é, antes de tudo, um sobrevivente. "É de muito boa índole, coração bom, que ama seu trabalho e procura ser justo e amigo de quem o cerca. Inspiração para compô-lo não me falta. Mas tento temperá-lo como se fosse um mocinho de novela de época, que valoriza o básico da educação, do trato e da compaixão pelo próximo", explica.
Essa referência ao universo das tramas de época não é à toa: Rodrigo busca imprimir em Nicolau uma nobreza de caráter que remete a heróis românticos, mas sem perder o pé no chão da realidade contemporânea. O resultado é um personagem que conquista pela simplicidade e pela honestidade, valores que, nas palavras do ator, estão cada vez mais raros e, por isso mesmo, mais preciosos na teledramaturgia atual. "Acho que o público carece de figuras assim, que não são perfeitas, mas que tentam fazer o certo dentro do que é possível. O Nicolau erra, tropeça, mas sempre com o coração no lugar certo", complementa.
Respostas do público
Em cena, Rodrigo contracena com Tatá Werneck, intérprete de Brigitte, e a química entre os dois tem rendido elogios do público e da crítica. Segundo o ator, o jogo flui de maneira natural e orgânica, fruto de muito estudo e respeito mútuo pelo texto e pelos parceiros de cena. "Tem sido um dos melhores prazeres dessa novela. Nosso jogo em cena flui! Ela traz sempre algo fresco e arriscado. É estudiosa, e nisso me identifico. Nos reunimos para passar o texto, nos ouvir e tentar colocar nosso tempero nos nossos personagens tão bem escritos", revela. Para ele, a troca com Tatá vai além da técnica: há uma sintonia que torna cada cena um convite ao público para se emocionar e se divertir ao mesmo tempo.
Rodrigo sente o impacto do personagem no dia a dia. Motoristas de aplicativo, frequentadores da academia, crianças, senhoras — todos o abordam nas ruas chamando-o de Nicolau. Ele revela que até mesmo os funcionários dos Estúdios Globo param para dizer que amam a novela e torcem por Nicolau, o que reforça a conexão que a trama estabeleceu com o público desde os primeiros capítulos. "Isso é muito gratificante, porque a gente passa tanto tempo gravando, se dedicando, e quando vê que aquilo chega nas pessoas de verdade, que elas se importam com o que acontece com o personagem, é a maior recompensa que um ator pode ter", afirma.
Rodrigo também recorda com emoção o personagem Gigi Goes de Macedo, de Volta por cima, novela de 2024 que marcou a teledramaturgia ao tratar um romance homoafetivo com delicadeza e leveza dentro de um universo de contravenção. "Gigi Goes de Macedo mora na cobertura do meu coração. Foi um personagem tão lindo, tão humano, tão cheio de camadas, nuances, erros e acertos na forma como via a vida. Aprendi muito com Gigi, sobretudo a não me calar mais quando achar que devo me posicionar por algo na vida. Ele me deu coragem", desabafa, com a voz carregada de afeto.
O ator revela que, até hoje, recebe mensagens de jovens gays que o agradecem pela naturalidade com que o papel foi retratado, mas também de homossexuais mais velhos, que veem em Gigi um reflexo de suas próprias histórias e lutas. "Dizem que fui muito importante para solidificar ainda mais a naturalização dos afetos na nossa sociedade. Isso me emociona profundamente, porque a arte tem esse poder de transformar, de abrir cabeças e corações", reflete. Para Rodrigo, a importância de Gigi vai além do entretenimento: é um passo na direção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.
Sobre Nicolau, Rodrigo torce para que ele também encontre um amor verdadeiro e que sirva de inspiração para pessoas de todas as idades se arriscarem no campo das paixões, dos flertes, dos tropeços e das paqueras. "E que seja um combustível pra pessoas de todas as idades", torce, com um sorriso. Ele acredita que a história do gerente de cafeteria pode ecoar em muitos espectadores que, assim como o personagem, buscam um recomeço ou uma chance de amar depois de desilusões. "O amor é um tema universal, e quando a gente consegue tratá-lo com verdade, sem caricaturas, ele toca fundo. O Nicolau tem essa pureza, essa esperança, e eu acho que o público se identifica com isso", completa ele, que mantém uma sólida união de mais de duas décadas com o ator e roteirista Wendell Bendelack.
O teatro como paixão
Em 2026, Rodrigo Fagundes completa um quarto de século de profissão. E, apesar de ter construído uma trajetória sólida na televisão e no teatro, ele admite um sonho ainda não realizado: o cinema. "É uma tristeza que tenho. Fiz no máximo duas, três pequenas participações, as quais agradeço muito, mas merecia uma oportunidade para papéis desafiadores, com começo, meio e fim. Tomara que um dia aconteça e que grandes chances apareçam. No drama e na comédia", desabafa, com sinceridade. "O cinema tem uma linguagem própria, um tempo de construção diferente. É um desejo que carrego há muito tempo, e espero que os realizadores vejam em mim essa vontade e essa capacidade de entregar algo à altura", pondera.
Por outro lado, o teatro sempre esteve presente. Formado em publicidade pela PUC-Rio e em teatro pela CAL, Rodrigo Fagundes ganhou projeção nacional com o espetáculo Surto, que lotou teatros por 12 anos. Agora, paralelamente à novela, segue em cartaz com a peça O formigueiro, que acaba de ganhar nova temporada no Rio de Janeiro. O espetáculo, que foi visto por quase 10 mil pessoas em 11 meses, rendeu ao ator o Prêmio de Melhor Performance no Prêmio de Humor 2026. "Teatro é onde mais me sinto pleno. É meu ofício. Meu prazer. Minha cachaça! Amo fazer novela também, com paixão. Mas o teatro é a carpintaria do ator. É onde ficamos expostos pra plateias diferentes, levando alegria, questionamentos e visões sobre as relações humanas", define, com paixão evidente.
Com texto e direção de Thiago Marinho, a peça aborda relações familiares e transita entre comédia, drama e melodrama, proporcionando ao ator a oportunidade de mostrar toda a sua gama interpretativa. "Tenho a oportunidade de fazer um personagem que passeia pela comédia, pelo drama, pelo melodrama", festeja. Rodrigo divide o palco com Lucas Drummond, Roberta Brisson e Diego de Abreu, um time de atores que, segundo ele, "sabem jogar bonito" e com quem tem uma parceria afinada e generosa. "É sobre família, é sobre relações humanas, e a gente quer cada vez mais contar essa história pra esse Brasil gigante", conclui.
Na televisão, estreou em novelas em 2015 com Babilônia e passou por Pega pega (2017), Cara e coragem (2022) e Volta por cima — todas assinadas por Claudia Souto, coautora de Quem ama cuida ao lado de Walcyr Carrasco. No Zorra Total, deu vida ao inesquecível Patrick ("Olha a faca!") por quase uma década, conquistando o prêmio de Melhor Comediante no Melhores do Ano do Domingão do Faustão. "A minha vontade é continuar fazendo o que amo, com a mesma entrega do primeiro dia. Cada personagem é uma descoberta, e eu quero descobrir muitos ainda", finaliza, com o olhar cheio de planos e a energia de quem sabe que a arte é um caminho sem fim.

Diversão e Arte
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