
Nelson Rodrigues nasceu em 1912, na República Velha, e morreu em 1980, quando o Brasil começava a deixar para trás a ditadura iniciada em 1964. Entre uma ponta e outra de sua vida, atravessou mudanças profundas na sociedade brasileira e transformou boa parte delas em matéria para o teatro, a literatura e a crônica.
O país que aparece em sua obra é povoado por famílias em crise, desejos que não encontram lugar, convenções sociais que escondem aquilo que se passa no íntimo e personagens permanentemente divididos entre aquilo que deveriam ser e aquilo que são.
O Brasil mudou profundamente desde a época em que Nelson Rodrigues escreveu, e parte dos temas que atravessavam sua obra perdeu espaço com a transformação dos costumes. Ainda assim, muitos dos conflitos que moviam seus personagens permanecem presentes, embora assumam outras formas.
Para José Fernando Marques, professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), a atualidade de Nelson está relacionada tanto à maneira como ele observou o brasileiro quanto à profundidade com que tratou os conflitos humanos.
“O que nos impressiona é que, embora escrita há décadas, sua obra permaneça atual, e isso por dois motivos. O primeiro é que ele conseguiu capturar traços duradouros dos brasileiros: os valores, que em parte perduram, e a linguagem. O segundo aspecto relaciona-se a ele ter revirado o humano até o íntimo, tocando a fonte das paixões”, explicou ao Correio.
Marques aponta ainda uma característica que atravessa esse olhar sobre o país. Nelson, segundo ele, registrou “a nossa ingenuidade tantas vezes trágica, certo otimismo que pode ser mais defeito que virtude, mais convenção que verdade”. Ao mesmo tempo, seus enredos e diálogos alcançaram sentimentos que não dependem de uma determinada época para serem compreendidos. “Creio que os enredos e as falas foram hábeis o bastante para chegar aos sentimentos fundamentais.”
Mais do que um provocador
Nelson construiu uma relação particular com a provocação. O escândalo, a polêmica e as frases de efeito se tornaram parte tão conhecida de sua imagem pública que, em alguns momentos, parecem resumir um autor cuja produção é muito mais extensa. Teatro, romance, conto e crônica convivem em uma obra que não pode ser reduzida ao repertório de frases que passou a circular isoladamente.
Marques não nega o caráter provocador de Nelson. “Provocador, ele foi, decerto. Parecia adorar que o contestassem.” Mas chama atenção para o que existe além dessa persona. “Creio que Nelson deve ser lido nas suas várias dimensões: o dramaturgo, o romancista de Asfalto Selvagem, por exemplo, o contista, o cronista e, junto a tudo isso, o frasista, componente importante das obras.”
O professor também faz uma ressalva importante sobre as frases que sobreviveram fora de seus textos. Para ele, muitas delas “reclamam o seu contexto, no qual serão melhor entendidas, embora sobrevivam isoladas”. É justamente esse contexto que devolve complexidade à produção de Nelson. “A complexidade dos textos inclui as frases de efeito, mas sem dúvida vai muito além delas.”
A provocação, portanto, não aparece na obra apenas como uma estratégia para chocar. Ela está ligada à própria matéria de que Nelson se ocupou. Seus personagens são frequentemente colocados diante de desejos que entram em conflito com os valores que tentam sustentar. O que está em jogo não é apenas o comportamento que a sociedade considera aceitável, mas a dificuldade de conciliar aquilo que se pensa, aquilo que se deseja e aquilo que se faz.
O desejo contra aquilo que deveria ser
O mal-estar afetivo e sexual ocupa um lugar central nessa produção. Nelson levou para suas peças situações extremas, relações familiares tensionadas e personagens confrontados por impulsos que não conseguem controlar. O professor vê nesse universo uma dimensão brasileira, embora não exclusivamente nacional.
“O mal-estar afetivo e sexual que ele flagrou tão bem, valendo-se de cenas ou imagens excessivas, era muito brasileiro, mas acontecia e acontece em todo o mundo cristão, sobretudo nos países católicos”, explica Marques.
Em sua leitura da dramaturgia rodrigueana, o conflito entre desejo e convenção se aproxima de uma disputa mais profunda. “O racional e o irracional se batem nas peças, sendo que este último costuma vencer por nocaute.”
Essa tensão ajuda a explicar por que determinadas questões permanecem mesmo quando os costumes mudam. O professor lembra que alguns temas perderam parte de sua atualidade. A virgindade como índice de pureza, por exemplo, aparece como uma obsessão de Noronha, pai de família de Os sete gatinhos, mas já não ocupa o mesmo lugar na sociedade contemporânea.
Os costumes mudaram, mas nem sempre a transformação é suficiente para tornar irreconhecível o conflito retratado por Nelson. Para Fernando Marques, o que permanece em sua obra não está necessariamente ligado à permanência dos comportamentos que aparecem nas histórias, mas à tensão que eles expressam.
“O desejo de absoluto, a utopia de uma vida moral olímpica, perfeita, contraposto à precariedade da carne e da alma, configura conflitos perenes”, afirma. Segundo o professor, Nelson conseguiu “fixar poeticamente esses conflitos em sua obra, com grande senso de modernidade”.
O que sobreviveu à mudança dos costumes
O Brasil que Nelson conheceu já não é o mesmo. A própria distância temporal ajuda a perceber o quanto determinadas convenções sociais foram transformadas. Ainda assim, a obra continua encontrando leitores e espectadores porque não depende exclusivamente da reprodução de um determinado comportamento social.
Marques não identifica seguidores ou herdeiros diretos de Nelson na produção cultural contemporânea. “Não vejo seguidores ou herdeiros na vida cultural contemporânea, mas eles provavelmente existem.”
Ainda assim, encontra aproximações em dois artistas que trabalharam, cada um a seu modo, com a exposição das imperfeições humanas. O contista Dalton Trevisan, morto em 2024, e o letrista Aldir Blanc, morto em 2020, são citados pelo professor como “rodriguianos”. A aproximação está menos nos temas específicos do que em uma postura diante da realidade. “Para Dalton e Aldir, como para Nelson, a arte deve mostrar e não idealizar a realidade”, afirma Marques.
É uma chave importante para compreender a obra rodrigueana. Seus personagens não são apresentados como versões aperfeiçoadas do brasileiro. Ao contrário, a literatura de Nelson encontra força justamente nas contradições, nos fracassos e nos desejos que não cabem na imagem que cada personagem tenta construir de si mesmo.
O Brasil visto de Brasília
A relação de Nelson com Brasília acrescenta uma dimensão menos óbvia à imagem de um escritor tão associado ao universo carioca. Ele esteve na inauguração da nova capital e registrou suas impressões sobre aquele momento. Mais do que uma passagem circunstancial, a capital federal aparece, na leitura de Marques, como parte de uma relação mais ampla de Nelson com o próprio país.
“Nelson era apaixonado pelo Brasil e foi um entusiasta de Brasília desde sempre”, afirma o professor.
A observação ganha outro peso quando relacionada a uma das ideias mais conhecidas do escritor. Nelson foi um crítico feroz do sentimento de inferioridade dos brasileiros diante de outros povos, sintetizado na expressão “complexo de vira-lata”. Seu interesse pela nova capital pode ser compreendido, nessa perspectiva, dentro de uma disposição mais ampla de olhar para o Brasil sem tratá-lo como uma versão inferior de outras sociedades.
Para Marques, esse olhar ainda permite aproximar a obra de Nelson das contradições presentes na vida pública brasileira. “A noção utópica de caráter, que aparece pelo avesso na imagem do canalha completo, frequente em suas peças, tem algo a dizer aos políticos da hora.”
O professor vê no humor rodrigueano uma possibilidade de leitura desse cenário. “Nesse aspecto, o humor de Nelson tem uma tarefa a desempenhar.”
Um autor que não precisa de tradução
A permanência de Nelson Rodrigues também passa por uma questão de perspectiva. Sua obra é frequentemente colocada em diálogo com grandes nomes estrangeiros, mas Marques propõe inverter uma comparação recorrente.
“Escrevi certa vez que não devemos chamá-lo de ‘nosso Shakespeare’, mas podemos pensar em Shakespeare como o Nelson Rodrigues dos ingleses”, afirma.
Para o professor, uma das principais lições deixadas pelo dramaturgo está justamente em reconhecer a força de uma referência que nasceu deste lado do Atlântico. “A principal referência deve estar aqui, deste lado do Atlântico. Atlântico Sul, naturalmente.”
Há ainda, na avaliação de Marques, uma característica formal que atravessa a produção teatral de Nelson e ajuda a explicar sua singularidade. Trata-se da convivência entre o cômico e o trágico, particularmente evidente nas chamadas tragédias cariocas. A mistura impede que a obra seja enquadrada apenas no registro do drama ou da provocação e faz do humor parte essencial da maneira como Nelson observa seus personagens.

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