Em Quem ama cuida, a função dramática de Bruna é clara: atrapalhar a relação entre Adriana (Leticia Colin) e Pedro (Chay Suede), o casal protagonista da novela escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. "O nome Pedro não sai da boca dela", observa Nanda Marques, com a precisão de quem habita a pele. A personagem poderia ser facilmente reduzida à figura clássica da antagonista obcecada, mas a atriz paulistana de 32 anos recusa esse caminho raso. Em conversa franca com o Correio, ela desmonta a própria criação para revelar as entranhas de uma mulher que, no fundo, apenas não aprendeu a ser amada.
"De 10 cenas, 9,5 ela está falando sobre o Pedro. E o 0,5 está brigando com a mãe", completa Nanda, referindo-se à personagem Carmita (Deborah Evelyn). Para a atriz, porém, a personagem transcende a função de "pedra no sapato" ao carregar motivações que ressoam em qualquer espectador atento. "Ela é lida como vilã, mas as motivações dela são genuínas", defende. "É um ser humano errante e cheio de falhas que todos nós somos. No roteiro, a gente consegue enxergar bem essas falhas claras de caráter, de personalidade, de falso senso crítico, de falta de ser dona de si e dos seus desejos. E, claramente, falta uma terapiazinha", avalia.
Música para conectar
A construção da antagonista, no entanto, não se sustenta sobre o ar. Nanda revela que recorreu a um repertório musical cuidadosamente selecionado para acessar as camadas emocionais de Bruna. Entre Caetano Veloso, Cazuza, Dua Lipa, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Vanessa da Mata, uma canção se destacou como a espinha dorsal da personagem. "Quando você olha para ela, da Gal Costa, foi a música que eu mais escutei para Bruna. Para entrar nos momentos, sentir a energia, a vida, a história. É o que me conecta com a energia dela", confidencia.
O resultado é uma vilã que respira obsessão, sim, mas também uma dor que o público, mesmo revoltado, reconhece como familiar. E o público, de fato, tem reagido com intensidade. Depois de viver a querida Rebeca Paixão em Beleza fatal e receber uma enxurrada de carinho — e pedidos de "justiça" para sua personagem —, Nanda sabia que o jogo viraria. "Desde o teste, eu já esperava que o público ia ficar muito revoltado com ela. E isso não me abala", afirma, com a tranquilidade de quem entende a natureza do ofício. "É o meu personagem cumprindo a missão dele. Cada um foi feito para despertar alguma coisa no público, e a minha foi desenhada para isso. Quando a gente atinge esse lugar, é porque o trabalho está sendo feito", pondera.
Ao analisar a relação de Bruna com a mãe, Carmita, Nanda rejeita a leitura simplista de que a personagem seria apenas dominada pelos ideais de grandeza maternos. "Eu acho que ela, sim, foi influenciada para ser isso, mas, por essa mãe narcisista, ela buscou no Pedro esse ideal de amor que ela não teve", reflete. "Ela não foi assistida, não foi acolhida. Faltou muito amor, um colo. Ela acha que agora, na vida adulta, isso vai se transformar e ela vai receber no amor romântico. Que é um erro que a maioria de todos nós comete", reflete a taurina.
Essa leitura psicológica encontra eco nos desdobramentos recentes da novela. Bruna chega a usar o próprio estado de saúde para manipular Pedro. Diagnosticada com uma leucemia em remissão, ela passa a negligenciar o tratamento para que o marido, preocupado, adie sua reaproximação com Adriana.
Em um dos momentos mais tensos da trama, Bruna humilha a rival publicamente ao encontrá-la trabalhando como garçonete em um restaurante, ironizando sua nova profissão diante dos clientes. "Não estou defendendo a Bruna", pondera a atriz, "mas entendo que ela é fruto de um patriarcado que adoece mulheres. A gente cresceu vendo contos de fadas, achando que casar, ter filhos é obrigatório e essencial à vida de toda pessoa. E não é. Cada um tem que viver à sua maneira", provoca Nanda, com uma consciência crítica que carrega para a construção de uma antagonista que, mesmo odiada, atiça reflexão.
Ascensão consistente
A trajetória de Nanda Marques na televisão é marcada por uma ascensão consistente. Nascida em São Paulo, iniciou a carreira ainda jovem como modelo e em comerciais de tevê, antes de se dedicar ao teatro. A projeção nacional veio em 2021, com Cecília em Um lugar ao sol. Em 2025, destacou-se em Beleza fatal como a filha de Elvira (Giovanna Antonelli) cuja morte no início da trama desencadeia o enredo de vingança. Na sequência, participou do remake de Vale tudo como Vera, personagem usada por Marco Aurélio (Alexandre Nero) em uma armação para se aproximar de Tiago (Pedro Waddington). Além disso, Nanda integrou a série Colônia, exibida pelo Canal Brasil, que retrata os horrores do Hospital Psiquiátrico Colônia de Barbacena — episódio histórico conhecido como o "holocausto brasileiro".
Fora das novelas, Nanda se prepara para outro desafio de peso: interpretar Graziela Gonçalves na cinebiografia Chorão: Só os loucos sabem, dirigido por Hugo Prata e Felipe Novaes, e com roteiro de Duda de Almeida, com estreia prevista para 2027. O filme, inspirado no livro Se não eu, quem vai fazer você feliz — Minha história de amor com Chorão, promete revelar uma faceta pouco conhecida da história do líder do Charlie Brown Jr, morto em 2013. "Ela foi muito influente na criação das músicas, no repertório, em tudo", conta a atriz, que leu o livro mais de cinco vezes. "Chorão cantava em inglês, e foi Graziela (ex-mulher do músico) quem disse: 'Você tem que cantar em português para chegar ao coração das pessoas'. Ela apresentou a ele as maiores referências que ele teve para se inspirar", completa a paulistana.
A admiração de Nanda pela personagem é genuína. "É uma mulher muito forte, guerreira, feminista, maravilhosa. As pessoas vão se surpreender com o quanto ela foi importante. Ela trabalhava em rádio, tinha acesso a tudo que saía de novo e revolucionário da época, e levava essas músicas para ele. Acho que as pessoas vão se surpreender com o quão influente ela foi", enumera.
Foi justamente nas filmagens dessa cinebiografia que Nanda conheceu o namorado, José Loreto, que interpreta Chorão no longa e também integra o elenco de Quem ama cuida como Iuri, guarda-costas da vilã Pilar (Isabel Teixeira). "Ele é meu melhor amigo. A gente sempre trocou muito sobre arte, sobre ser ator, compartilhamos referências, dicas, impressões sobre os personagens. Agora, na novela, sempre que a gente tem tempo, a gente se ajuda a decorar o texto, a bater o texto. A nossa relação é muito bonita, uma troca intensa e genuína", relata.
Segundo Nanda, a disciplina é a chave para conciliar a vida pessoal com a rotina intensa de gravações. "Cada um tem o seu ritmo, mas a gente costuma ter uma rotina bem disciplinada. Sempre encontramos tempo para tudo, para estudar, para fazer coisas para si e para o outro. A gente se potencializa para cada um poder ser o melhor para o mundo", conclui.
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