
Crítica // Ana, en passant ★★★★
Um estreitamento de laços e uma intimidade acolhedora transformarão as desconhecidas Ana e Alice, na trama do longa de estreia de Fernanda Salgado, Ana, en passant, uma animação que convida a retrabalhar a densidade das memórias, caso inspirem infelicidades assentadas no luto. No enredo, a jornalista Ana busca desvencilhar-se da figura trágica, cercada de mortes e, inicialmente, conformada, no rastro da perda da avó, na França. Mas, aos poucos, com a respiração certa e longe da solidão europeia.
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Debaixo de chuva, Ana chega desorientada para a colorida Minas Gerais que virá a descobrir. Saem, portanto, o ocre, o terracota e os tons pasteis da primeira fase do filme. Os caminhos podem não ser apontados nitidamente (bifurcação e encruzilhada são citadas no texto), mas a solidez do firmamento virá para Ana, quando, de posse da certidão de um desconhecido imóvel da avó, a herança inesperada a colocar em contato com a inquilina Alice.
Numa harmônica simplicidade, Ana ("sem mapa") terá na amplitude do convívio com a grávida Alice (uma dançarina, provisoriamente, incapacitada de movimentos). Será o reencontro com o "tempo das coisas" (a superação do luto). Com a linguagem da animação, o espectador pode investir em sondagens, em estados alterados de realidade, e abraçar o conceito de novas perspectivas e de reconstrução para as personagens cujas origens e raízes (afro-brasileiras) ficam cada vez mais entremeadas.
Os impulsos e os desejos das personagens são intermediados pelo trânsito na cidade: de passagem, Ana "en passant" não se apresenta de "refilão"; ela, por meio de uma câmera fotográfica, traz janelas para as paredes do apartamento em que Alice convive ainda com paredes constituídas de material epistolar.
Em trânsito, Ana reformulará a sua identidade e inspirará identificação. Encontrar-se, na identidade brasileira recém-conhecida, e recobra o seu espaço de vida, em que plantas voltam a crescer e a trilha sonora (do Metá Metá) traz encantamento para o filme. Se as personagens chegam a ser confundidas como "irmãs-gêmeas", a entrada de um espelho na trama acentuará a poesia do longa assinado por Fernanda Salgado, que pontua a vida "como uma dança" e o trânsito pelo oceano (que liga Brasil, Europa e África) como um alento, abundante de significado na cena que coroa o fim do filme.
Mariana Morais
Política