
Crítica // Sabes de mim, agora esqueça ★★★★
Imbuído de visão que extrapola o registro da exploração das profissionais do sexo, o filme de Ceilândia trazido pela cineasta Denise Vieira, Sabes de mim, agora esqueça escalona para cravar o aproveitamento da vida, a virada de jogo e a imposição de desejos femininos. No contexto da chamada Toca (abrigo e palco de prostituição), um cliente, na trama, conta do trabalho cotidiano feito "com inteligência", e, no segundo seguinte, se mostra um completo tonto, diante da presença e dos desmandos femininos.
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O ambiente é de opressão, em meio à distopia, e um grupo de prostitutas da narrativa conquista posição e poderes para fugir da esfera do opressor intitulado, em grupo, de Lanternas. As rédeas não serão curtas para a recém-chegada Rúbia (Pietra Sousa) no espaço-cabaré controlado pela veterana Margô (Cida Souza). Tecnicamente, o filme de Denise Vieira é impecável. A densidade do som é austera, num trabalho forte de Maira Romero. A direção de arte de Sarah Noda se alinha à estética perseguida por Denise Vieira (formada arquiteta) e pelo núcleo Adirley Queirós montado em filmes cheios de vitalidade como Branco sai, preto fica e Mato seco em chamas (este, ao lado de Joana Pimenta).
Num ambiente de câmara (que evoca fitas de Pasolini), estão as mulheres que gostam "de confusão". Falam abertamente das vontades de vasculhar com línguas, apresentam apetrechos sexuais e, desavergonhadas, assumem o fetiche por cheiros de intimidades, transformando os antigos "atendimentos" (a clientes) em "sessões".
Em trânsito, Rúbia deixa, inicialmente, o ambiente de uma ferrovia para migrar até o Toca, o ponto de recreação e prazer que, em conteúdo cinematográfico, conglomera potências de realizadores como Almodóvar, Bertrand Bonello e Larry Clark. Nesta avolumada liberação de desejos consensuais — em que a permissividade irrestrita gera observações de "valha-me" e "misericórdia!", por parte de personagens —, a fotografia de Victor de Melo é vital, especialmente quando as mulheres saem dos trilhos, optando por uma empoeirada estrada de terra, diante de bifurcação apresentada nos trilhos de uma locomotiva. Desajustada dos exaltados padrões da atualidade, é a figura de Margô que paira, enlevada; longe da escuridão da noite, e sem medo de encarar a rua novamente.
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