O Cine Brasília abriu alas para a 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nesta sexta-feira (11/9). A cerimônia de abertura recebeu a benção na consagrada Sala Vladimir Carvalho pelas vozes de Luiza Garonce e Chico Sant’anna. A homenageada desta edição é Julia Lemmertz, atriz brasileira, que recebe o troféu Candango de Conjunto da Obra. O Candango de 2026 fará companhia a seu Candango de Melhor Atriz, que foi recebido em 1986 pelo filme Cor de seu destino.
O festival foi inaugurado com exibições dos filmes A pele morta e Brasília - Planejamento urbano, ambos conectados à cidade. O primeiro, longa metragem dirigido pelos irmãos Bruno Torres e Denise Moraes, professora da Universidade de Brasília (UnB), traz a história de um caminhoneiro uruguaio e seu ajudante, interpretados por César Trancoso e Luan Iturve, que, em viagens pelas estradas entre o Brasil e o Paraguai, se deparam com as marcas da perda de território e com as consequências da exploração que ameaça comunidades indígenas.
Denise Moraes, uma das diretoras do longa de abertura A pele morta, também é professora do departamento de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB). “Nossa, é uma responsabilidade muito grande de ter meus alunos sentados ali assistindo esse filme, uma alegria imensa poder estrear esse filme aqui em Brasília, que é a nossa cidade”, destaca.
Brasília também construiu a trajetória cinematográfica de Geraldo Moraes, pai de Denise e Bruno, que iria dirigir A pele morta, mas faleceu antes de começar as gravações. “ É uma forma também de retribuir a ele, o que ele deixou do legado pra gente, nesse sentido de entender o cinema, desse lugar coletivo, algo que você faz coletivamente”, comenta.
Bruno Torres que dirigiu, ao lado de sua irmã Denise Moraes, A pele morta, o longa-metragem de abertura do festival, ressalta a importância e carinho que o Cine Brasília ocupa na trajetória profissional e pessoal. De júri à participação em pitches para angariar fundos para projetos, Bruno considera o cinema de rua da capital como um tempo. “Para mim, é a melhor sala de cinema do mundo”, comenta.
História e singularidade
Há mais de 30 anos participando do festival, a participação nesta edição carrega um sabor marcante à boca do diretor. A obra inicialmente era para ser dirigido pelo seu pai Geraldo que veio a falecer antes do começo das gravações. Assim, o compromisso de colocar o filme ao mundo foi transferido aos seus dois filhos diretores. “É difícil, emocionalmente muito forte, uma experiência diferente, mas que faz com que o filme já nasça sendo um legado. A gente recebeu o convite muito próximo do falecimento dele no primeiro momento. Questionamos a Solange e ela falou: a gente quer o DNA, o que precisa é do DNA do Geraldo”, destacou o diretor.
Solange Moraes, esposa de Geraldo e produtora do filme, que convidou os filhos do marido para dirigirem o longa. Para ela, o filme a fez entender que por mais que um produtor organize tudo, é preciso lidar com as dificuldades que a vida traz. “Com a perda de Geraldo, a gente conseguiu não ficar no chão, e a gente conseguiu se reerguer. Eu acredito que o Geraldo não saiu do meu lado no set, que a cada passo que eu dava, ele dizia no meu ouvido para seguir em frente, que iria valer a pena”, conta Solange.
O ator uruguaio César Troncoso afirma que foi um lindo projeto, onde pode conhecer diferentes lugares do Brasil e do Paraguai. Para ele, que já trabalhou algumas vezes no cinema brasileiro, os festivais são um espaço essencial para o cinema.
“É um pouco diferente do cinema comercial. São filmes que preparam as novas formas de falar acerca de nós, que preparam os diretores que amanhã vão fazer sucesso no mundo. Você precisa do cinema independente, precisa das janelas para exibir esse cinema”, ressalta César.
Luan Iturve, da população indígena Guarani-Ñandeva, interpreta um jovem que, em meio ao luto pela perda do irmão, começa a trabalhar para um caminhoneiro. O filme se passa no território em que o ator vive. "Não estou aqui apenas como artista. Estou representando minhas lideranças, meus anciões e trazendo a identidade do meu povo", afirma Iturve. Para o ator, o espaço do festival permite entre culturas, o que não deixa de ser um ato político.
"Se não houvesse um festival aqui, eu não poderia mostrar a minha cultura, minha arte e o lugar de onde vim. O fortalecimento das políticas públicas dentro do audiovisual incentiva a juventude indígena", reforçar o ator, que estreia no cinema, e esperou oito anos para exibir esse trabalho, tempo que a produção levou para ser concluída.
*Estagiários sob supervisão de Ronayre Nunes
