Sétima arte

Festival de Brasília bate recorde com quase 2 mil filmes inscritos

A Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibe, a partir desta segunda, uma seleção da última safra de curtas e longas

Brasília também no centro 
da narrativa de Mapas -  (crédito: Divulgação)
Brasília também no centro da narrativa de Mapas - (crédito: Divulgação)

Na 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa amanhã, o evento celebra um novo recorde. Neste ano, foram quase 2 mil títulos inscritos para a programação que celebra o melhor do audiovisual nacional. Entre ficções, documentários e animações, quatro longas e oito curtas estrelam a seleção voltada para produção local, exibidos de segunda a sexta, no Cine Brasília, Complexo Cultural de Planaltina, Campus da Universidade Católica em Taguatinga e Cine Cultura Liberty Mall. Os ganhadores serão anunciados durante a cerimônia de encerramento, em 19 de setembro, e podem embolsar um total de R$ 298 mil em prêmios.

Na segunda, o longa que abre a Mostra é Amadeo e o hipotético mundo novo, animação de Edu Felistoque e Brenda Lígia. No Brasil escravocrata do século 19, Amadeo é um jovem preto que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus e usa da criação para ajudar na libertação dos escravizados da fazenda de um poderoso barão. "Onde estão, na história, as imagens das pessoas pretas de mentes brilhantes? De cientistas, inventores, escritores, e políticos de pele preta? Foram apagados ou seus feitos não foram registrados", lamenta o diretor.

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No filme, adianta Felistoque, a ficção é utilizada para recontar uma história alternativa, questionando "como seria o hoje se tivéssemos feito a coisa certa ontem". "E se o fim da escravidão tivesse sido bem planejado? Como estariam seus descendentes?", indaga o cineasta, que também utiliza do humor e da ironia ao longo da narrativa.

"Brincar com um tema tão forte poderia ser uma armadilha, mas não nas mãos de Brenda Lígia", afirma o diretor. "O nosso filme aborda um tema extremamente importante e delicado, e desde o início eu sabia que precisaria de alguém que trouxesse olhares e experiências que eu, com certeza, não iria alcançar sozinho, por não viver a realidade de ser uma pessoa de pele preta", explica Felistoque.

Amadeo é um jovem preto que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus
Amadeo é um jovem preto que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus (foto: Divulgação)

A capital no centro 

Na terça, é a vez de Onde moram os irmãos, ficção de Marisa Mendonça, chegar às telonas do Cine Brasília. "Uma mulher louca que fica dormindo no carro, porque acha que alguém está invadindo o escritório onde ela, ao mesmo tempo, mora e trabalha. Essa foi a primeira imagem que me veio à cabeça para criar a Lívia, protagonista do filme", conta a cineasta responsável pela produção.

No longa, a personagem se vê à frente do negócio imobiliário da família após a morte do irmão e acaba se envolvendo invasivamente na vida dos inquilinos. "Me veio também a imagem dela apresentando um apartamento para uma pessoa na intenção de alugar, mas ao invés de falar sobre o imóvel, ela fala sobre coisas totalmente íntimas e constrangedoras", descreve Marisa.

A partir da história de Lívia, a cineasta procurou retratar no filme os sentimentos de deslocamento e incompreensão, inspirada por um episódio pessoal. "O luto foi abordado no longa da maneira como eu o senti: próxima da loucura. Minha família passou por uma perda muito grande na minha pré-adolescência com a morte súbita do meu irmão em um acidente, mas eu, naquele momento, parecia deslocada da dor e não sentia aquele peso que pairava no ar", compartilha.

Onde moram os irmãos vai além da direção candanga e também tem Brasília como pano de fundo. "Eu acho que esse filme retrata a cidade, mais especificamente o Plano Piloto, de forma um pouco diferente de outras produções locais", opina Marisa. "Ao contrário da ideia de funcionalismo que se tem dos moradores da região, quisemos mostrar as pessoas que acabaram tomando os desvios, involuntariamente", ressalta. A protagonista, exemplifica a cineasta, é um retrato da geração que cresceu na região e "tinha tudo para dar certo, mas não deu". "São personagens de classe média alta, mas que não têm ferramentas culturais para usufruir desse privilégio", detalha a diretora.

Em Onde moram os irmãos, Lívia se vê à frente do negócio imobiliário da família após a morte do irmão
Em Onde moram os irmãos, Lívia se vê à frente do negócio imobiliário da família após a morte do irmão (foto: Rafael Ribeiro Gontijo)

Em Mapas, filme exibido na quarta-feira, Brasília também está no centro da narrativa. A ficção, relata o diretor Rafael Lobo, surgiu da vontade de olhar para a cidade a partir de histórias "menos visíveis". "Eu sempre me interessei pelo horror, não apenas como gênero, mas como uma forma de perceber o mundo, de dar corpo a medos, traumas e coisas que permanecem escondidas. Em algum momento, esse interesse se encontrou com a minha relação com a cidade", diz o cineasta.

O filme acompanha Júlia e Sérgio que, em busca de Rebeca, uma cicloativista desaparecida, atravessam uma Brasília marcada por ruínas e histórias esquecidas, enquanto precisam lidar com os próprios conflitos. "Para mim, Mapas é uma travessia pela cidade e pela memória, em que os fantasmas do passado acabam se confundindo com os fantasmas de cada personagem", resume Lobo.

Segundo ele, a intenção era mostrar a capital federal por outro ângulo além do viés da arquitetura e da ideia de cidade planejada. "Não para negar essa imagem, mas para perceber o que existe por trás dela, as histórias que ficaram de fora e as marcas que o tempo deixou, revela o cineasta, que usa o horror como lente de crítica no filme.

Em junho, Mapas foi vencedor de cinco troféus no Cine PE — Festival Audiovisual, incluindo o Prêmio Especial do Público. "É a primeira vez que vamos mostrar o filme na cidade onde ele foi feito e onde sua história acontece. Estou muito curioso para saber como o público daqui vai se relacionar com ele, que lugares vai reconhecer e que memórias vai trazer. Acho que essa conversa pode ser especialmente interessante", avalia Lobo.

Documentarismo candango

Em Nem todos sabem, filme exibido na quinta, a documentarista Edileuza Penha de Souza reconstitui a vida e o legado do músico cego João Tomé, morto em 1971. "Ele vem para Brasília no período da construção da capital, com a esposa grávida e os cinco filhos, e aposta nesse pioneirismo", relata a diretora. "Ele teve uma importância imensa para a cidade como fundador da Escola de Música e um dos primeiros funcionários da Rádio Nacional", exalta.

No documentário, a história do músico, professor, maestro e arranjador é contada por meio de depoimentos de amigos e familiares e imagens de acervo inéditas. "Brasília sempre negou seus pioneiros negros, então esse filme é uma forma de devolver o legado dele à cidade que ele amou e acreditou tanto", pondera Edileuza, que ganhou o prêmio de Melhor direção na Mostra Brasília do ano passado pelo trabalho em Vozes e vãos.

Nem todos sabem revisita a história do músico cego João Tomé
Nem todos sabem revisita a história do músico cego João Tomé (foto: Victoria Santos)

Também pesquisadora acadêmica, Edileuza lançou no mês passado a coletânea Cinema negro no feminino: afeto e pertencimento além das telas, que apresenta um panorama da produção audiovisual feita por mulheres negras no Brasil. "O Festival de Brasília, sobretudo depois de 2007, tem essa preocupação em não só selecionar filmes de mulheres negras, como também ter mulheres negras na curadoria e no júri. Isso é demasiadamente urgente e necessário", reforça a documentarista.

Os curtas Hacker Leonilia, de Gustavo Fontele; A arte perdida da lombada, de Helena Sarmento e Gabriel Brito; Vinte vinte quatro, de Davi Pieri; Isso aqui é várzea!, de Flávio Costa; Dora, de Murilo Abreu; O jardim mágico, de Naira Carneiro e Carlon Hardt; Rima, de Josianne Diniz; Madre, de Talita Carvalho e Carol Matias; Impostor, de Rafael Gontijo; Não há crime no Plano Piloto, de Gabriel Machado; e Ar-Dor, de Mike Peixoto completam a programação da Mostra.

 


  • Brasília também no centro 
da narrativa de Mapas
    Brasília também no centro da narrativa de Mapas Foto: Divulgação
  • Amadeo é um jovem preto que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus
    Amadeo é um jovem preto que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus Foto: Divulgação
  • Em Onde moram os irmãos, Lívia se vê à frente do 
negócio imobiliário da família após a morte do irmão
    Em Onde moram os irmãos, Lívia se vê à frente do negócio imobiliário da família após a morte do irmão Foto: Rafael Ribeiro Gontijo
  • Nem todos sabem revisita a história do músico cego João Tomé
    Nem todos sabem revisita a história do músico cego João Tomé Foto: Victoria Santos
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postado em 10/09/2026 05:00
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