MÚSICA

K-pop conquista o Rock in Rio em noite histórica de encontro entre Brasil e Coreia do Sul

Primeira programação dedicada ao gênero reúne mais de 100 mil pessoas, leva Stray Kids, HWASA e NEXZ ao Palco Mundo e transforma a Cidade do Rock em um espaço de celebração, pertencimento e intercâmbio cultural

Por Mônica Cabanãs* — RIO DE JANEIRO: Pela primeira vez em 41 anos, o Rock in Rio dedicou uma noite inteira ao K-pop. Na sexta-feira (11), mais de 100 mil pessoas ocuparam a Cidade do Rock para acompanhar NEXZ, HWASA, Alok e Stray Kids no Palco Mundo. A noite — a primeira do gênero na história do festival — transformou o espaço em território de celebração, pertencimento e intercâmbio cultural entre Brasil e Coreia do Sul.

Poucas vezes a Cidade do Rock pareceu tão distante de suas origens e, ao mesmo tempo, tão fiel à sua vocação. O festival que nasceu embalado por guitarras e nomes como Queen, AC/DC e Iron Maiden testemunhou na sexta-feira um novo capítulo de sua trajetória: o espaço foi tomado pelas cores, coreografias, canções e símbolos da cultura pop sul-coreana.

Ao longo deste ano tenho estudado e acompanhado a cultura coreana mais de perto e, por isso, uma das coisas que mais me chamou atenção no Rio não foi apenas a qualidade dos shows, mas a atmosfera construída entre artistas e público. Observando a reação dos fãs, ouvi repetidamente palavras como "maravilhosa", "emocionante", "histórica", "inesquecível". Mais do que assistir a um espetáculo, muitas pareciam celebrar o reconhecimento de uma comunidade construída ao longo de anos pela música, pelas plataformas digitais e pelas conexões culturais entre Brasil e Coreia do Sul.

Essa sensação estava presente já na plateia. Milhares de light sticks iluminavam a noite carioca. Símbolos dos fandoms coreanos, eles funcionam como marcas de pertencimento e identidade coletiva. Ao lado deles surgiam os leques que se tornaram presença constante em grandes festivais brasileiros. Mais do que aliviar o calor, eles acompanham ritmos, criam coreografias espontâneas e ajudam a transformar o público em parte do espetáculo. Juntos, as luzes coreanas e os leques brasileiros produziram uma das imagens mais bonitas da noite: duas culturas diferentes compartilhando a mesma celebração.

O NEXZ abriu a programação do Palco Mundo e trouxe uma energia diferente. Formado recentemente a partir do reality show "Nizi Project Season 2" e vinculado à mesma empresa responsável pelo Stray Kids, o grupo representa a nova geração da indústria cultural sul-coreana. Sua presença no festival mostrou ao público brasileiro uma faceta importante do K-pop: a capacidade de renovação permanente. Em uma indústria que investe continuamente na formação de novos artistas, o NEXZ surge como uma aposta para o futuro e como exemplo de um modelo cultural que combina criatividade, planejamento e alcance internacional.

A responsável por um dos momentos mais afetuosos da programação foi HWASA. Conhecida inicialmente como integrante do grupo feminino MAMAMOO e hoje uma das artistas solo mais influentes da Coreia do Sul, ela levou ao palco a personalidade que a transformou em uma referência cultural para além da música. Sua trajetória é marcada pela defesa da individualidade, pela quebra de padrões estéticos tradicionais da indústria do entretenimento sul-coreana e por uma presença cênica que mistura força, humor e proximidade com o público.

A conexão ficou evidente durante a interpretação de "Maria", um de seus maiores sucessos. Em determinado momento, a cantora brincou dizendo que sabia existirem muitas "Marias" na plateia, arrancando gritos e aplausos. O encerramento veio com "Good Goodbye", considerada um dos grandes sucessos da música coreana em 2026, enquanto a artista se despedia enrolada na bandeira brasileira. A imagem sintetizou uma característica presente durante toda a noite: o esforço constante dos artistas para demonstrar carinho e reconhecimento ao público local.

Antes do Stray Kids, Alok levou ao Palco Mundo o espetáculo "Keep Art Human", com 1.500 drones e 45 bailarinos. Único artista fora do universo do K-pop na programação daquele palco, o DJ brasileiro foi explícito sobre a importância da noite. Em discurso ao público, já no Palco Mundo, celebrou: "Estou muito feliz por tocar na primeira noite do Rock in Rio com um artista de K-pop como headliner. Isso é um marco muito importante. O Rock in Rio está olhando para uma direção onde muitos outros não estão. Essa geração está mudando o mundo, mudando o jogo."

Mas a noite tinha um protagonista evidente. Primeiro artista de K-pop a assumir a posição de headliner do Palco Mundo, o Stray Kids chegou ao Rock in Rio cercado de expectativas. O grupo formado por Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N tornou-se uma das maiores referências da chamada quarta geração do K-pop. Diferentemente de muitas formações do gênero, seus integrantes participam ativamente da composição e da produção de grande parte do repertório, característica que ajudou a consolidar sua reputação internacional e a conquistar sucessivos resultados expressivos nas paradas globais.

No palco, porém, os números ficaram em segundo plano. O que chamou atenção foi a emoção visível dos integrantes. Em vários momentos, falaram em português, agradeceram o carinho do público e procuraram reduzir a distância entre palco e plateia. Alguns chegaram a descer para áreas mais próximas dos fãs, ampliando uma interação que parecia genuína. Para quem acompanha a cultura coreana, essa proximidade não surpreende. O vínculo emocional entre artistas e comunidades de fãs é uma das marcas mais características do K-pop e esteve presente durante toda a apresentação.

O bis reservou um gesto que resumiu o espírito da noite. Bang Chan, líder do Stray Kids, já havia demonstrado publicamente seu apreço por "Ai Se Eu Te Pego", de Michel Teló — cantou trechos da música em lives e em passagens anteriores pelo Brasil, e chegou a trocar mensagens com o próprio Teló nas redes sociais. No Rock in Rio, a homenagem ganhou outra dimensão: o grupo cantou trechos do hit e reproduziu o chamado "passinho do Jamal". Mais do que uma brincadeira, o gesto foi recebido como demonstração de respeito e reconhecimento a um público que, há anos, acompanha a expansão da cultura coreana muito antes de ela ocupar o palco principal do maior festival da América Latina. Não por acaso, foi um dos momentos mais celebrados — sem, no entanto, ofuscar o que de fato sustentou a noite: a sensação, compartilhada por palco e plateia, de estar diante de algo que pertencia a todos ali.

Entre uma apresentação e outra, houve um momento de tensão. A organização precisou emitir um alerta solicitando que o público desse alguns passos para trás a fim de aliviar a pressão sobre as pessoas posicionadas junto à grade. A situação foi rapidamente controlada e os shows prosseguiram normalmente.

A decisão de criar uma noite dedicada ao K-pop foi apresentada pela organização como resultado da expansão global do gênero, da força da base de fãs brasileira e da tradição do festival de incorporar movimentos importantes da música internacional. A explicação é pertinente. Afinal, o Rock in Rio sempre procurou refletir as transformações culturais de cada época.

Talvez, porém, o aspecto mais interessante da noite esteja em outro lugar. O que aconteceu na Cidade do Rock não representou a chegada da cultura coreana ao Brasil. Essa presença já estava nas séries, nos filmes, na música, nos games, nas plataformas digitais e nos intercâmbios culturais entre os dois países. O que aconteceu foi a materialização dessa presença em um dos espaços mais simbólicos do entretenimento latino-americano.

Ao final da noite, entre light sticks coreanos e leques brasileiros, permaneceu uma sensação compartilhada por muitos dos fãs com quem conversei: a de alegria, acolhimento e pertencimento. Havia felicidade na plateia, mas também no palco. E talvez seja justamente essa capacidade de criar conexões emocionais profundas entre pessoas de idiomas, histórias e geografias diferentes que ajuda a explicar por que a cultura pop sul-coreana se tornou um fenômeno global. Na Cidade do Rock, por algumas horas, Brasil e Coreia do Sul pareceram falar a mesma língua.

*Mônica Cabañasé jornalista e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, Doutora em Educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto "O Mundo por trás do Mundo".

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