Crítica

Natureza em combustão: leia crítica do novo filme de Tom Cruise, 'Digger'

Com o mundo já desestruturado pelo caos na atmosfera, sob pressão extrema, o protagonista de Tom Cruise abriga poço de mordacidade, no afiado filme de Alejandro G. Iñárritu

Tom Cruise é a antítese do estoicismo, 
em Digger -  (crédito:  Warner)
Tom Cruise é a antítese do estoicismo, em Digger - (crédito: Warner)

Crítica // Digger ★+★★★

Prejuízos em trilhões de dólares, briga de egos à beira da falência, machismo, encenação gritante e divergências (junto com manipulações) "de narrativas": tudo isso cabe na ode ao cinema de Stanley Kubrick e John Cassavetes comandada pelo escolado cineasta Alejandro G. Iñárritu, nome à frente de Digger, filme em que o talentoso Tom Cruise nada de braçada. Imputar culpa e responsabilidades, num debochado jogo de empurra está no centro do enredo em que um magnata do petróleo (Digger, feito por Cruise) acompanha os estragos na plataforma que gerenciava no Alasca e que, passada uma explosão, desperta um desespero coletivo na humanidade.

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Cortar milhares de empregos está na mira de Digger, que empunha uma pá secular (de família) tal qual objeto fálico do qual não abrirá mão. À frente da Rockwell United, num mundo acinzentado (com Digger vestindo grená), ele fará um eufórico discurso apocalíptico em que faz o Michael Douglas (de Wall Street) parecer um bebê. Contabilizando "o preço de se fazer negócios", Digger acusa o apego às facilidades da vida mundana de qualquer cidadão médio como responsável pela crise climática — com geleiras à deriva.

Sob infernais acordes de Cosmo Sheldrake, e a grandeza das imagens de Emmanuel Lubezki (que o acompanhou nos rigorosos Bardo, falsa crônica de algumas verdades; O regresso, Birdman e 21 gramas), o diretor constrói — dado os absurdos que retrata — uma ponte com a ficção (em que, na verdade, tudo é abraçado pela encenação, e que Digger estaria tão somente sendo representado). Nisso, Iñárritu traz o artifício do engenhoso Sinédoque, Nova York (filme cheio de metalinguagem de Charlie Kaufman, de 2008) e faz ecoar ainda Magnólia (filme de 1999, com o mesmo Cruise).

A grandiosidade de Cruise traz para a tela uma espécie de Atticus (Gregory Peck, em O sol é para todos) só que do mal. Riz Ahmed e John Goodman, coadjuvantes, estão fabulosos nos papeis de um contestado cientista, Ganesh, e do presidente Compson, acometido por câncer retal. De enorme impacto, o filme traz cenários impecáveis com desenho de produção assinado pela dupla Richard L. Johnson e Dennis Gassner (habituais parceiros de Sam Mendes) e figurinos de Jaqueline West (colaboradora de David Fincher e Denis Villeneuve). Com frenéticas "emissões de carbono" e metano emporcalhando a atmosfera, o colapso ainda vem representado por efeitos em rios e oceanos.

Cercado de uma proeminente decadência, e uma sátira corrosiva, Digger desconhece limites, numa realidade delirante apinhada de "lixo nuclear" e atitudes nada sustentáveis. No niilismo mais completo, o protagonista chega a se valer do uso ilusionista da fé, e ajoelhar-se, diante de subordinados, isso num filme em que a escrita da Bíblia, por hebreus, e não americanos (sic), vem à tona como elemento depreciativo. Pior é a amargura do humor quando da "piada" da ausência de mulheres nas mesas mais importantes de negociações.

 

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postado em 02/10/2026 11:07 / atualizado em 02/10/2026 11:09
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