
Octavio Guedes era repórter do Jornal do Brasil quando teve a ideia, pela primeira vez, de contar histórias de personagens que nem sempre estavam no centro da notícia. Ele fazia uma matéria sobre falsificação de remédios para câncer cujo laboratório funcionava em um haras no qual os cavalos eram cuidados com esmero. A notícia era a falsificação criminosa, mas o jornalista enxergou ali uma outra história, paralela e tão importante quanto a da pauta original. Foram necessários alguns anos para a ideia chegar ao formato do livro Heróis por acaso — Improváveis personagens que mudaram a história do Brasil, que Guedes lança hoje, às 19h, na Livraria Platô.
Heróis por acaso conta 10 histórias de personagens presentes e atuantes em momentos cruciais da história do Brasil, mas cujos nomes ficaram esquecidos nas narrativas oficiais. "Comecei a perceber que as histórias não estavam para onde iam os olhares. Isso me inspirou e eu sempre fui um repórter que procurava focar nesses personagens laterais", conta. "Como gosto muito de história, comecei nas biografias, que eu gosto muito, a pesquisar personagens laterais. Eu ficava mais curioso com eles do que com o biografado. Daí nasceu essa ideia."
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A pesquisa foi longa e sustentada por muitas leituras de biografias de personalidades brasileiras. Um livro que poderia ser lido em um mês, levava quatro porque Guedes parava a todo instante para pesquisar os personagens. E eram muitos. O resultado são textos em formato de crônica que acompanham heróis como Marcelino Rodrigues Menezes, o Baiano castigado que tornou-se o estopim da Revolta da Chibata, ou Toniquinho, o funcionário de uma companhia de seguros que sugeriu a Juscelino Kubitscheck incluir a construção de Brasília no Plano de Metas, ou ainda Anayde, a noiva do assassino de João Pessoa que virou vítima da história, uma prova de que o "acaso não produz apenas heróis, mas também comete injustiças".
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Para o livro, Guedes contou com ajuda do filho Tito, responsável pela pesquisa histórica, e com o artista Bruno Drummond, que fez as ilustrações. "Eu não tenho a obrigação do historiador de fazer a ressalva de que a revolta da Chibata poderia ter acontecido sem o Marcelino. Como é a crônica sobre o acaso, sem o rigor acadêmico histórico, eu apostei tudo: sem o Marcelino, não teria a revolta", explica o autor, que tomou algumas liberdades como imaginar o rumo da história sem esses personagens. "É lógico que a gente não pode ignorar que tem um contexto social, um contexto político, mas isso cabe aos historiadores. A um contador de história como eu, coube fazer a crônica do acaso."
O livro, de certa forma, também questiona a própria ideia de heroísmo ao repensar o papel de personagens que ficaram anônimos. "O herói é aquele para quem o acaso deu uma mãozinha, mas ele não tem a garantia de que será ocupará eternamente esse posto. Vai depender muito do acaso", acredita Guedes, que também queria, com o livro, resgatar memórias desprezadas pela história. "O livro também tem esse viés de memórias apagadas e ultrajadas, caso de Anayde e do Marcelino", avisa.
Heróis por acaso — Improváveis personagens que mudaram a história do Brasil
De Octavio Guedes. máquina de livros, 144 páginas. R$ 64,50.
Lançamento hoje, às 19h, na Livraria Platô
(CLS 405, bloco A, loja 12, Asa Sul)
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