
Pode se dizer que a história de Jorge Davidson como olheiro, ou garimpeiro, como prefere definir, de sucessos nacionais começa ainda na infância. No colégio, estudou com Evandro Mesquita e formou uma amizade que renderia o primeiro acerto da carreira. Quando já era executivo da EMI, o cantor entregou a ele uma fita da Blitz, que, com ajuda da gravadora, estourou no Brasil em 1982 com o hit Você não soube me amar. Em seguida, foi a vez dos Paralamas do Sucesso chegarem às mãos do diretor artístico — o segundo êxito rendeu a ele o título de diretor artístico do selo fonográfico. A trajetória vitoriosa é contada no livro Em sintonia com o sucesso — a arte de revelar talentos na música brasileira.
Davidson explica que o surgimento de tais bandas veio em um momento oportuno da música brasileira, em que não havia grandes ídolos das novas gerações. “Caetano, Chico, Tim, Gal e Bethânia já não dialogavam mais com os adolescentes. Os Paralamas e a Blitz, além dos Titãs, Kid Abelha e Ultraje a Rigor, pertenciam à mesma época de um público que estava procurando novos artistas e que tinha interesse pelo pop rock. Os Paralamas, por exemplo, subiram da plateia para os palcos, então havia uma grande identificação entre eles e os ouvintes”, aponta o diretor artístico.
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Ex-morador da capital federal, Herbert Vianna, inclusive, foi um dos responsáveis pelo sucesso de Renato Russo e Legião Urbana, logo após a banda carioca ser assinada pela EMI. “Estávamos gravando o primeiro disco do trio, Cinema mudo, e eles nos apresentaram várias músicas, Vital e sua moto, Patrulha noturna… E, aí, num dado momento, eles tocaram Química, que eu adorei. Eu perguntei para o Herbert se era mais uma composição dele e ele respondeu: ‘Não, essa é de um amigo meu de Brasília. Ele é tudo que eu gostaria ser. O nome dele é Renato Russo”, lembra.
Legião Urbana foi a primeira banda que Davidson assinou como diretor artístico da gravadora. “Renato era um gênio. Tolo seria eu se não tivesse percebido o quanto ele era acima, à frente de sua própria geração”, exalta. “A primeira fita que eu escutei da banda tinha Faroeste caboclo, Música urbana e Que país é esse?, que, apesar de composta em 1978, ainda é um clássico. É pertinente até hoje e cantada pela plateia aos berros. É sempre emocionante ouvir”, declara o diretor.
Nação e Planet
A década de 1990 trouxe novos nomes para o extenso catálogo de Davidson, então contratado da Sony. Com Chico Science & Nação Zumbi, por exemplo, o diretor artístico foi responsável pela gravação de Maracatu atômico. “Eles valorizavam muito as raízes pernambucanas e a mistura do maracatu e do coco com o rock e o rap, então sugeri que eles incluíssem a música no álbum Afrociberdelia. A ideia foi bem recebida, mas eles relutaram um pouco. Bandas que, como a deles, têm um conceito muito próprio, muitas vezes, não querem regravar outros artistas”, narra.
Chico, que não conhecia muito bem Maracatu atômico nem sabia cantar a letra, foi “incentivado pelos colegas” a embarcar na ideia, segundo Davidson. “A resistência era para evitar que a música, já conhecida pelo público, chamasse mais atenção do que Manguetown ou Etnia, que eram as propostas de single do disco. Eles resolveram gravar de última hora e, a meu ver, fizeram algo espetacular”, afirma o diretor artístico.
Para Davidson, a morte de Chico Science, em 1997, foi uma das grandes perdas da música brasileira. “Se não tivesse ido tão cedo, ele estaria no nível dos grandes, junto com Renato Russo, D2, Herbert Vianna e Nando Reis, ou até mesmo Gilberto Gil e Jorge Benjor. Ele é muito respeitado dentro da comunidade artística, mas não teve o alcance que deveria ter tido devido à sua ida prematura. Ele era muito inteligente, criativo e excepcional no palco. Um cara que criou um som novo e diferente, que nunca tinha sido feito e que ficou difícil de ser replicado, porque havia muita originalidade contida ali”, avalia.
Na mesma época do Nação Zumbi, Davidson se apaixonou à primeira vista pelo Planet Hemp. “Pude assisti-los no Rio, uma banda extremamente carioca, que mistura rock e hip-hop e tem um artista poderoso à frente, Marcelo D2. Imediatamente, parti para a contratação”, ri o diretor artístico. “A Sony já havia assinado, nos Estados Unidos, a banda Cypress Hill, que tratava de temas similares, como a liberação da maconha e críticas a autoridades policiais. Então a gravadora apoiou complementamente”, conta.
Apesar das polêmicas que marcaram a carreira do grupo, Davidson garante que a contratação nunca foi um problema para a gravadora. “É até engraçado, porque o disco do Tiririca nos deu mais trabalho do que os do Planet. Tivemos diversos problemas jurídicos. O álbum foi proibido de execução e, ele, acusado de racismo, devido à música Veja os cabelos dela”, revela.
Os “foras”
Nem só de acertos foi feita a trajetória vitoriosa de Jorge Davidson. A banda brasiliense Natiruts é um dos exemplos que foram deixados de lado pelo diretor artístico. “Eu não os via no mesmo nível que Cidade Negra, Skank e Paralamas. Eu entendia que Beija-flor era um sucesso, mas não assinei. Na época, eu estava na BMG e eles fecharam com a EMI e estouraram”, relata. “Hoje, eles lotam estádios, mas, na época, não acreditei que eles pudessem ser tão grandes como são. Paciência”, diz.
“O Kiko Zambianchi é alguém que assinei e que poderia ter ido muito mais longe, mas, por algumas razões empresariais e dele mesmo, infelizmente não foi”, continua Davidson. “Eu sentia um pouco de decepção por ele não ter chegado no topo, porque ele merecia. Eu sabia que Primeiros erros era uma música poderosíssima e, felizmente, o Capital Inicial regravou e transformou no sucesso que é, reabilitando a carreira dele. Sou feliz que ele está na ativa, com uma carreira artística e é um compositor de sucesso”, comemora o diretor artístico.
A banda de Dinho Ouro Preto também não saiu ilesa e foi uma das bandas não assinadas por Davidson. “A Legião, os Paralamas e a Plebe Rude, todos relacionados à Brasília, me incentivavam a contratar o Capital. Mas o repertório deles era, basicamente, o legado do Renato, e eu não acreditava que eles conseguiriam resolver a carreira com um material próprio. E eles conseguiram só no Acústico MTV, exatamente com Primeiros erros. Mas sempre torci por eles”, garante.
Serviço
Em sintonia com o sucesso — a arte de revelar talentos na música brasileira
De Jorge Davidson, Gryphus Editora, 380 páginas. R$ 109,90
Diversão e Arte
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