Crítica

Implosão da elegância: rupturas familiares rondam drama de Karim Aïnouz

'Rosebush pruning' traz tom desconcertante para o retrato de endinheirada família na Espanha

Crítica // Rosebush pruning ★★★

Tirem as crianças da sala; uma vez que não faltam adultos no cômodo — pelo contrário, chegam a rodo, e incomodam deveras. Quem visualizar a ousadia do texto de Álbum de família, a infame peça de Nelson Rodrigues, nem trisca no que esperar do roteiro assinado por Efthimis Filippou (o colaborador de Yorgus Lanthimos em fitas como O lagosta). Retrabalhando o universo elaborado pelo cineasta Marco Bellocchio, no longa-metragem De punhos cerrados (1965), Filippou entrega um texto áspero para os atores, sob a direção do brasileiro Karim Aïnouz, desbravarem.

Karim tempera  as cores de Almodóvar este filme com exposições bem menos ousadas (graficamente) do que anteriores que ele comandou. O "podar" relacionado ao título (Rosebush pruning) se istala no filme, atenuando situações que poderiam ser mais escabrosas. Desbastado, o cineasta aposta em um filme sobre o vazio da suposta aristocracia, ao estilo de Saltburn. Acuada pelos lobos (irmãos) e pelo pai (papel de Tracy Letts), Anna (Riley Keough) convive e até provoca as taras e perversões de Ed (Callum Turner), Jack (Jamie Bell) e Robert (Lukas Gage), mas numa realidade em que a mãe (Pamela Anderson) parece não fazer falta.

Em derivação, Deus, na fita, pende para Baco; a pátria (é estrangeira, já que todos habitam a Espanha, quase a contragosto) e a família está desfigurada entre desejos escandalosos. Concorrente derrotado no Festival de Berlim, o longa tem inegável impacto. Mas, aos solavancos, em muitos momentos, parece perdido de sentido. Numa provocação descarada, a personagem Martha (a intrusa namorada de Jack, feita por Elle Fanning), sentirá o peso e o constrangimento de adentrar uma degenerada e indissolúvel fraternidade a serviço do patriarcado.

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