O REI DO HORROR

Stephen King quebra o silêncio sobre nova versão de 'Carrie, a estranha'

Nova produção do Prime Video tem 8 episódios e traz dilemas contemporâneos como cyberbullying e redes sociais

O escritor Stephen King demonstrou confiança na nova adaptação de Carrie, a Estranha, desenvolvida pelo diretor Mike Flanagan para o Amazon Prime Video. Em entrevista ao jornal The New York Times, o autor falou sobre as mudanças feitas na história de seu primeiro romance e elogiou o cineasta, responsável por outras adaptações de suas obras.

King explicou que, embora tenha o direito de rejeitar projetos baseados em seus livros, prefere dar liberdade criativa a Flanagan, em quem deposita plena confiança.

“Tenho o direito de reprovar qualquer coisa”, disse King. “E, basicamente, não o uso, porque confio completamente em Mike. Ele é o encantador de King.”

A nova produção, já disponível na plataforma, tem oito episódios e apresenta uma versão contemporânea da história de Carrie White, adolescente que enfrenta a crueldade dos colegas de escola enquanto descobre seus poderes telecinéticos.

Desta vez, parte das agressões ocorre nas redes sociais, incorporando à narrativa questões relacionadas ao cyberbullying e aos desafios enfrentados pelos jovens.

Segundo o escritor, a atualização preserva uma das principais características de sua obra: a discussão sobre as consequências da violência e da exclusão social. A diferença está, sobretudo, nos meios pelos quais essas agressões acontecem.

A série também abordar outros aspectos da realidade dos estudantes, incluindo simulações de ataques a tiros em escolas e a influência de teorias da conspiração. Interpretada por Summer H. Howell, Carrie será apresentada inicialmente como uma adolescente curiosa e entusiasmada, cuja visão de mundo foi limitada pela criação dos pais.

Uma nova versão para uma história conhecida

Questionado pelo The New York Times sobre a necessidade de adaptar novamente uma obra que já recebeu diferentes versões para o cinema e a televisão, Flanagan explicou que o principal desafio foi transportar os temas do romance para 2026 sem perder sua essência.

O diretor, que também levou às telas Jogo Perigoso e Doutor Sono, ambos de King, considera que as questões abordadas no livro permanecem relevantes, especialmente diante da influência das plataformas digitais sobre o comportamento dos adolescentes.

Para ele, a disseminação de conteúdos que estimulam comportamentos hostis ampliou as possibilidades de explorar a violência entre jovens. O cineasta também incorporou elementos políticos e religiosos à história, principalmente na construção dos pais de Carrie, que vivem isolados em um ambiente influenciado por crenças extremistas e teorias conspiratórias.

As mudanças, entretanto, provocaram certa apreensão no diretor, que reconheceu a responsabilidade de reinterpretar uma das obras mais conhecidas de King: “Fiquei nervoso com as mudanças que estávamos fazendo.”

Flanagan explicou que procurou preservar os acontecimentos fundamentais do romance, mesmo ao modificar a personalidade da protagonista e ampliar o universo em que a história se desenvolve.

Entre as sequências mantidas estão o episódio no vestiário feminino e o baile escolar, no qual Carrie é humilhada com sangue de porco. A proposta, segundo o cineasta, é apresentar novos caminhos narrativos para acontecimentos que o público já conhece.

“A questão são as surpresas que você consegue inserir no modo como chega até lá.”

A produção também introduzirá uma trama relacionada a outras pessoas com habilidades telecinéticas, abrindo espaço para possíveis continuações.

A relação de King com as adaptações

Publicada originalmente em 1974, Carrie foi a obra que lançou a carreira literária de Stephen King e permitiu que ele abandonasse o trabalho como professor para se dedicar integralmente à escrita.

O romance ganhou sua primeira adaptação cinematográfica em 1976, sob direção de Brian De Palma. Durante a entrevista, King relembrou a experiência de assistir ao longa pela primeira vez e contou que gostou especialmente da reação do público às cenas de terror.

Ao longo das décadas seguintes, diversos livros do escritor foram transformados em filmes e séries, nem sempre com a mesma aprovação do autor. Entre suas adaptações preferidas, ele mencionou Louca Obsessão e a versão de A Dança da Morte dirigida por Mick Garris.

King também voltou a comentar sua insatisfação com O Iluminado, adaptação de Stanley Kubrick que, apesar do reconhecimento da crítica, nunca conquistou sua aprovação.

No caso de Carrie, porém, a relação com Flanagan parece ter afastado possíveis preocupações quanto às mudanças na história. Admirador do escritor desde a infância, o diretor reconheceu que trabalhar com personagens tão conhecidos exige cuidado, especialmente quando a obra original ocupa um lugar importante na trajetória de seu criador.

Ao comentar a responsabilidade de adaptar novamente o romance, Flanagan destacou que a aprovação de King é uma de suas principais preocupações.

“E, se consegui deixar Steve orgulhoso do que fizemos com a história dele, é isso que importa.”

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